Review | A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector

Review | A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector

Ainda que a canção não tenha sido escrita para a escritora, toda vez que escuto a canção de Caetano Veloso e José Carlos Capinam eu me lembro da poeta/escritora. A canção que se chama Clarice tem em seu refrão os dizeres:

”Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração”

Lançado em 1964 pela editora Rocco, A Paixão Segundo G.H segue sendo um livro atual e necessário. Clarice segue sendo uma escritora misteriosa, uma escritora devastadora de alma, intensa e de entrega ilimitada.

Ler Clarice é isso, é ser isso… Ler Clarice é ter a certeza de que você nunca mais saíra o mesmo depois de sua árdua leitura. Clarice é a mãe severa e seus livros são a pedra no sapato necessária.

Clarice Lispector (1920-1977)
Clarice Lispector (1920-1977)

No livro, A Paixão Segundo G.H temos Clarice criando a sua Metamorfose assim como Franz Kafka. No entanto, se a criatura de Kafka é monstruosa e assustadora devido a transformação a barata de Clarice é existencialista e reveladora.

 Sinopse:

Depois de despedir a empregada, GH inicia uma faxina no quarto de serviço. Mal começa a limpeza, vê uma barata. Enojada do inseto, ela decide esmagá-lo contra a porta do armário. O momento decisivo do enredo e do discurso culmina quando GH devora a massa pastosa e branca da barata morta. Esse gesto desencadeia a desmontagem humana da personagem e lhe impõe uma (in)compreensão súbita dessa “construção difícil que é viver”.

O enredo ainda que parece simples e banal, tem por de trás uma história avassaladora e única. Confesso que tentei ler esse livro por 4 vezes, foi só numa quinta tentativa que durante a madrugada eu encarei o livro e disse: ”Agora tem que ir, quero passar por esse vale”.

  Trecho do livro
Trecho do livro

Clarice nos trás uma literatura pesada, o seu livro é escrito com intensidade, verdade e sem nem um pouco de suavidade. A personagem G.H nos pede a sua mão para essa caminhada (Ela diz que pode somente imaginar nossas mãos, imaginar alguém completo é difícil para ela já que a mesma não é completa).

Ao cedermos a mão e embarcar com G.H nessa descoberta descobrimos não só sobre ela mas sim sobre nós mesmos. Descobrimos um encontro com o divino, com a difícil jornada da vida, com a estranha duvida que nos assola sobre o amor, sobre a fé e sobre o feminino.

G.H é artista plástica bem sucedida, G.H molda com suas mãos e da sentido as coisas no entanto a sua vida precisa ser moldada. As vezes esperamos por encontrar bagunças em nossas vidas, gavetas mal fechadas, poeiras existenciais e surge alguém que a sua maneira ”arruma’, coloca as coisas no lugar.

Nesses momentos damos conta de que é preciso o caos para que se tenha ordem. Ninguém consegue arrumar suas gavetas, ninguém pode tirar as poeiras da sua alma a não ser você mesmo. Uma mão pode lhe ajudar a chegar em determinado caminho mas a caminhada é sua e você precisa fazer ela sozinha.

Lendo esse livro aos poucos vamos nos livrando de nossas ”terceiras pernas”, o tripé que nos aprisiona ao medo, a desejos reprimidos. Clarice ela usa de objeto metafórico/simbólico a barata. E isso é impressionante se visto que o que é uma barata se não um inseto a qual todos tem repulsa?

No entanto a barata de Clarice é a minoria, é os desejos proibidos, é o sexo, é o feminino reprimido e hostilizado é o encontro com o seu intimo e mais que isso é a revelação divina.

Assim como a vida requer coragem se encontrar com essa ”barata” requer força e um desejo de viver e possuir verdades. A ”barata” é o que precisamos enfrentar em suas camadas e camadas para chegar no nosso intimo.

Quando G.H se alimenta desse liquido branco e espesso da barata, G.H prova da quebra de padrões étnicos. G.H em determinado momento assume e confessa ”Eu sou a barata”. Quando ela diz ”Bendito é o fruto de vosso ventre, oh barata” e come a barata ela faz isso como se tomasse a hóstia.

O livro que se chama A Paixão Segundo G.H é ao mesmo tempo uma referência A Paixão de Cristo. Pois G.H tem sua verdadeira ressurreição depois de atravessar sua via dolorosa.

Nova edição do livro lançada pela editora Rocco
Nova edição do livro lançada pela editora Rocco

Para descobrirmos quem realmente somos é preciso atravessar por vários infernos, o livro de Clarice descreve a vida como o fardo que as vezes pode ser e nos revela que no final é tudo um nada. Não existe nada de positivismo aqui, pois não faz sentido.

Pensar que o céu é azul por nós, que as flores receberam vidas e beleza para nos presentear com sua beleza é inocência. Pensar que somos o centro do universo é egoismo e desejo de importância de mais.

Amanhã será só mais um dia, o que fazes da tua vida hoje tem que ser importante para ti e não ao outro. Talvez, o que ajude a traduzir tudo isso e todo o texto final de Clarice é somente um trecho do poema de Fernando Pessoa.

Ah, se ousares, ousa!

De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas

A que chamamos o mundo?

A cinematografia das horas representadas

Por atores de convenções e poses determinadas,

O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?

De que te serve o teu mundo interior que desconheces?

Talvez, matando-te, o conheças finalmente…

Talvez, acabando, comeces…

E de qualquer forma, se te cansa seres,

Ah, cansa-te nobremente,

E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,

Não saúdes como eu a morte em literatura!

 

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!

Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…

Sem ti correrá tudo sem ti.

Ainda que o poema de Fernando Pessoa seja um deboche, não deixa de ser fato e sincero.

Esse ano teremos ainda o livro de Clarice nos surpreendendo nos cinemas, acontece que o diretor Luiz Fernando Carvalho está terminando de fazer uma adaptação cinematográfica da obra. Luiz Fernando Carvalho já adaptou outra tensa obra da literatura para o cinema, quem não lembra do filme Lavoura Arcaica baseado no livro de Raduan Nassar?

Luiz Fernando é responsável por obras de televisão e cinema como: Hoje É Dia de Maria, Dois Irmãos, Lavoura Arcaica, Os Maias e muitas outras.

Para interpretar a personagem G.H teremos a atriz Maria Fernanda Cândido, o filme não tem data para estreia mas a previsão é que saia até o final do ano.

A atriz Maria Fernanda Cândido como G.H
A atriz Maria Fernanda Cândido como G.H

Talvez a pergunta que fique é como se ler um livro como esse da Clarice, eu lhe respondo que esperando o momento certo (Você vai saber quando, sentira em seu intimo). Leia esse livro como se ver uma obra de arte expressionista, se você chegar ao final sem entender nada simplesmente releia. Se entender algo, leia de novo pois algo faltou a ser entendido.

E se você se propor a ler vai com a alma aberta, é um caminho estreito, precisa atravessar uma densa mata com espinhos e caminhos tortuosos mas ao final a vista que se tem é única. Ao final da dura escalada não sera apenas cicatrizes que você acumulou, será uma nova visão sobre as baratas que habitam em nosso mundo.

E você, já leu este livro?  Qual a sua opinião?

Ficou feliz em saber que em breve G.H vai se fazer presente nos cinemas?

Qual seu livro preferido da autora?

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