Review | A Ilusão do Tempo de Andri Snaer Magnason

"Todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia, sempre em frente, não temos tempo a perder" | Renato Russo - Tempo Perdido

Você consegue imaginar, o que faria se tivesse mais tempo? Acha que conseguiria ter uma vida melhor? Entende realmente a diferença entre viver e sobreviver?

É com esses questionamentos que iniciamos o review do livro A Ilusão do Tempo escrito pelo islandês Andri Snaer Magnason que nos apresenta um de seus maiores sucessos. Publicado inicialmente em 2013, A Ilusão do Tempo chega ao Brasil através da Editora Morro Branco, esperamos que entenda a premissa e principalmente leia o livro.

Como pontapé para um contexto gigantesco que o livro apresenta, o autor Andri joga o leitor em meio a uma grave crise financeira que está assolando praticamente toda cidade. Sem saber o que faz e como agir para sair de tal situação, as pessoas decidem pular essa etapa de dificuldades e entram em suas “caixas isoladas do tempo”. As caixas desenvolvidas pela empresa TIMAX® consegue de uma forma milagrosa ser uma cápsula do tempo, onde quem entra nessa caixa consegue se congelar e sair só quando desejar. Nesse caso as pessoas correm dos problemas, se acovardam, se fecham em suas caixas e esperam que o pior passe. O que a população não percebe, é que essa sucessão de abandono de responsabilidade, compromete diretamente o mercado, piorando mais ainda o cenário atual.

Vitória é uma criança esperta, porém, mesmo assim não consegue compreender esse cenário apocalíptico. Seus pais também se trancaram e a colocaram também em sua caixa. Por uma força do acaso Vitória foi resgatada de sua caixa em um cenário degradante e agora junto ao seu novo amigo vagam ao mundo em busca dos poucos que ainda tem coragem de viver essa distopia. Para que Vitória possa entender o que acontece no mundo, ela acaba por encontrar Rosa, uma senhora que busca junto a outras crianças mudar o mundo usando aquilo que há muito se perdeu, o otimismo. Para que fique claro e os pequenos entendam um pouco o que acontece no mundo, Rosa narra aos pequenos, Uma suposta fábula que está intrinsecamente ligada a todos esse fatos, apresentando o Rei Dímon e a Princesa Obsidiana. Um drama que envolve amor, guerra, traições e o implacável tempo.

A edição de A Ilusão do Tempo carrega três importantes pilares onde se sustenta a premissa. Exclusivamente nesse post, quero sair do padrão para tentar explicar melhor cada um deles e demonstrar de forma simples e pessoal, todas as críticas que o autor camufla em meio à fábula.

Aparentemente a história da pequena Vitória seria o cerne principal do livro, mas não é! Na verdade o principal de tudo é a fábula narrada por Rosa.

Um certo dia 3 irmãs que possuíam o poder de controlar todo e qualquer animal do reino resolveram ensinar a um homem digno, o encantamento para tal feito. Porém havia uma condição, nunca usar os animais contra os humanos, NUNCA! Caso isso fosse feito, uma maldição terrível recairia sobre aquele que infringiu tal regra. Não apenas o indivíduo, mas também sua linhagem. (Guarde essas informações)

Antes de acompanhar os 3 pontos que separei sobre o livro, pode ser que tenha algo beirando um spoiler, mas tive o cuidado de entregar menos informações possíveis. Caso seja sensível a esse tipo de coisa, apenas fique com minha indicação e saiba que esse com certeza é um livro para se ter na estante, ler varias e várias vezes durante a vida, aprender um pouco sobre o tempo, repassar para seus filhos e amigos. Sem contar que virei fã de Andri Snaer, com seu currículo implacável, além de roteirista e escritor, até candidato a presidente o homem já foi, merece sua atenção, se provou um bom escritor e acima de tudo soube envolver seus vários temas a um romance digno dos prêmios que recebeu. Um livro surpreendentemente bom!


1. PROTEÇÃO EXCESSIVA | MALEFÍCIOS IRREVERSÍVEIS 

O Rei Dímon é a representação perfeita do pai super protetor. Vivemos os dias de hoje acreditando que o mundo está se tornando cada vez mais caótico e precisamos proteger nossas crias ao mais elevados níveis. Rei Dímon não entende o suficiente, que ao proteger excessivamente sua filha Obsidiana, ele não apenas à priva de viver sua vida, mas também de amadurecer e conhecer o mundo como ele é, não apenas como ele gostaria que fosse.

Nos dias atuais dispensamos cada vez mais tempo para o trabalho e pouco para conviver com a família, com isso, acabamos por tentar compensar essa falta, dedicando e atendendo todos os pedidos dos filhos e vendo os bens materiais como uma forma de presentear aqueles que amamos. Fazendo uma analogia clara ao castelo, reino, riquezas e ouro, o Rei representa o Pai/Mãe bem sucedido, que tem poder suficiente para qualquer coisa, mas se embebeda de mais e mais poder (dinheiro e status), matando a única coisa que o dinheiro não traz de volta. O Tempo!

Dímon é um Rei implacável, conquista cada vez mais espaço, dedica suas conquistas à sua filha, acreditando que esse é o verdadeiro valor da família, acreditando que ao homenageá-la estará sendo o melhor pai do mundo,  mas na verdade a única coisa verdadeiramente que um filho pode querer de um pai/mãe é a presença, atenção e carinho.

Superproteger os filhos pode não apenas prejudicá-los na questão de amadurecimento, mas pode desenvolver uma deficiência em socializar, solidarizar e pode não preparar o suficiente para as malícias da vida. Como diz o ditado:

“Não criamos filhos para nós mesmos, e sim para o mundo!”

A ILUSÃO DO TEMPO

2. FALSOS PROFETAS | COMO A CRENÇA DIRIGE A SOCIEDADE

Antes de mais nada, não estou falando aqui de nenhuma religião especifica, e sim em um todo. Se caso você se sentir ofendido por algum exemplo, não fique!

Em um dos momentos do livro, a Princesa Obsidiana é vista como abençoada por ter ganho um importante “presente” de seu pai. Aos poucos foram inventadas histórias sobre esse tal evento, tornando-a alvo de algo que nunca passou pela cabeça de Obsidiana. A todo momento, em todo lugar, sempre há oportunistas. Um homem aproveitou da situação apresentada e com suas invenções conseguiu convencer toda população daquela pequena vila de que algo divino estava nascendo ali. Assim nasce a suposta religião de adoradores de uma ficção, temedores de uma força onipotente, pedem por milagres e temem a irá da Princesa.

Vemos cada dia mais, pessoas que se aproveitam da fé alheia para arrecadar riqueza em beneficio próprio. Usam da fé de pessoas fragilizadas para lançar suas profecias, convencem através das promessas de milagre, mas em grande quantidade também pelo medo. Pessoas que fingem saber o que de fato Deus pensa sobre tudo, quais suas vontades, quais suas opiniões sobre a humanidade. Movimentando a massa através da fé, o escritor Andri deixa bem claro a intenção individualista do clérigo em questão. É uma analogia direta aos representantes religiosos ao redor do mundo. Visto de um ponto cético da coisa, simplesmente triste!

A ILUSÃO DO TEMPO

 

3. RELATIVIDADE DE TEMPO | QUAL A DIFERENÇA ENTRE VIVER E SOBREVIVER

De uma forma muito boa, o autor consegue apresentar qual a real importância do tempo, o desejo humano de se ter mais tempo é colocado na verdade como um castigo. O que você sacrificaria para se ter mais dele? 

Viver é aproveitar o tempo, cada segundo, fazer o que se quer fazer, planejar de forma sábia e usufruir desse recurso que todos temos, mas não sabemos a quantidade.

Sobreviver é deixar que ele passe e você continue parado, sem perspectiva, sem vontade, apenas esperando que algo aconteça, sem a sua influência. Entrar em sua “caixa” e esperar o pior passar!

Podemos ver que existem 2 tempos em nossas vidas:

  • O Tempo do calendário: Que não espera, não cessa, não para. Implacavelmente corroê tudo e leva todos, deixando claro quem realmente manda. Independente de como você usa o seu, independente de como vive sua vida, ele continua a toda;
  • O Nosso tempo: Como aproveitamos nossos dias, como vivemos nossas vidas, não podemos apenas desejar dias bons, não podemos apenas desejar dias ensolarados e felizes. Nosso tempo é composto por vários momentos, bons e ruins, dias de sol e chuva, dias de extrema felicidade e profunda tristeza. Todo esse conjunto de acasos, nos molda e cria quem realmente somos.

O livro trata de forma brilhante o tempo, não como um benefício aos meros mortais, mas sim um inimigo implacável. Se pararmos para pensar, realmente o tempo apenas nos permite passar por aqui e ir embora, nada de estadia infinita, apenas corre e deixa que nós escolhemos como queremos acompanha-lo. A saudade de tempos bons bate ao coração de todos com carinho, mas os momentos de dificuldade por mais que possa causar uma repulsa, serviram para te amadurecer e te ensinar algo de alguma forma. Na verdade o tempo é a única coisa que temos ao longo da vida e ao mesmo passo estamos longe de possui-los, como diz o título, uma verdadeira ilusão.

Estou escrevendo esse trecho e penso. Será que estou usando meu tempo de forma errada?  – Mas claramente, só do fato de você leitor ter acompanhado toda essa minha reflexão sobre esse livro até agora, eu já percebi que todo esse  “meu tempo” foi muito bem aproveitado, pois consegui indicar um bom livro a uma pessoa que ainda não conheço (ou conheço), mas sei que te ajudei de alguma forma!

Acho que não preciso mais te dizer como aproveitar melhor seu tempo, basta ler o livro e ver o peso de cada segundo!

A ILUSÃO DO TEMPO

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A ILUSÃO DO TEMPO
REVER GERAL
Nota
9
Leitor compulsivo, bebedor de café e entusiasta quando se trata de leitura. Técnico em Marketing por formação e Locutor por paixão. A minha missão declarada é te tornar um leitor tão apaixonado quanto eu. A leitura é uma fonte inesgotável de conhecimento, todo livro é interessante, basta conhecer a si mesmo!