Review | A Casa dos Pesadelos, de Marcos DeBrito

Voltando a ler terror para combinar com o clima de outubro, quando se aproxima o Dia das Bruxas, decidi ler o livro de um autor brasileiro que admito que comprei pela capa: A Casa dos Pesadelos de Marcos DeBrito. A capa dá um ar bem sinistro e, juntando isso à sinopse e às imagens que compõe o livro, minha curiosidade ficou no alto. Detalhe que o livro foi lançado nesse ano de 2019 pela Faro Editorial.

Sinopse: Dez anos depois de estar cara a cara com aquela assombração, Tiago finalmente concorda em voltar à mesma casa para visitar sua avó.Agora adolescente, ele pretende provar para si mesmo,que a terrível imagem que o aterrorizara nas madrugadas por tanto tempo, não passava de uma criação tenebrosa da infância. Mas, ao chegar no casarão, o jovem se depara com o misterioso quarto de seu falecido avô, agora mantido fechado, e tratado como espaço proibido. As restrições com relação ao aposento, as sensações e barulhos no meio da noite logo alimentam nele a suspeita de que algo terrível habita o local. Tomado por uma estranha coragem e desejo de ver-se finalmente livre do medo, tudo que o rapaz deseja é descobrir o que há por trás daquela porta. Então, o pesadelo toma novo impulso quando a figura sombria da infância mostra-se real novamente… mas, desta vez, ela quer atacar o seu irmão mais novo. Determinado a impedir que o caçula passe por terror semelhante, Tiago, mesmo apavorado, decide enfrentar a criatura. E o que descobre expõe terríveis segredos do passado que ninguém poderia imaginar.

Com uma narrativa mais rebuscada e poucas páginas, Marcos DeBrito conduz o leitor por caminhos conturbados do medo e da memória de um adolescente, que preferiu se esconder no silencio ao longo de anos ao tentar se lembra de um evento traumatizante e assustador que aconteceu na casa de sua avó 10 anos antes. Tiago é um personagem bem introspectivo e a história gira ao redor dele. Rapidamente nos afeiçoamos ao garoto que, ao mesmo tempo que teme reencontrar seu passado, precisa fazê-lo para conseguir trilhar seu futuro.

Laura, sua mãe, também é apresentada de maneira crua, de modo que conseguimos entender suas atitudes e seus medos. O irmão Bruno não foi muito trabalhado, mas vemos nele uma criança feliz e divertida apesar da sua limitação(?) respiratória, já que o garoto precisa andar com medicamentos para asma o tempo todo. E a avó Célia, que mulher desagradável! Ao mesmo tempo que quer mostrar ternura com os netos, mostra-se uma mulher intolerante e prepotente com os seus familiares.

Eu nem sei o que dizer sobre a criatura. Já imaginava o que ela era, mas não cheguei nem perto de entender o porquê dela aparecer da forma que aparece. Quando isso é revelado no final do livro, meus amigos leitores, é um choque. Muito bem encaixado e que fecha de uma maneira muito melhor do que eu cheguei a cogitar.

A leitura é muito fluída, e Marcos usa de meios mais rebuscados na hora de narrar seus eventos dando um ar mais teatral para os acontecimentos.

Com a alma febril evocando medos sepulcrais indescritíveis, tornou-se a esconder-se no cômodo fechado, implorando para não ter sido avistado.

A cada página estamos diante de um mistério diferente, e a cada linha desvendamos outros maiores ainda, fazendo com que a narrativa não caia em uma monotonia entediante. Recomendo a leitura do livro, principalmente para quem não conhece autores brasileiros que sabem escrever tão bem. A casa dos pesadelos é um bom conto de terror para conhecer o autor.

Mas…

Nem tudo são flores com esse livro. Por mais que tenha falado maravilhas sobre ele, um detalhe me incomodou muito ao ponto de fazer com que a minha nota abaixasse. E qual seria o problema?

O grande problema é a construção da personagem Camila, vizinha da avó de Tiago. Camila é uma adolescente que Tiago acaba se encontrando por acaso e que, com a ajuda dela, acaba descobrindo alguns dos mistérios que rondam a casa de sua avó. O problema todo com a Camila é o modo que ela foi feita. Ela poderia ser uma adolescente rebelde sem causa, uma garota popular que está passando um tempo ali na região, uma garota emo,  ou até mesmo um garoto, logo, um background sombrio não influenciaria em nada no decorrer da trama. Mas, por um recurso narrativo furado e bem comum hoje em dia, principalmente entre autores brasileiros, a garota precisava ser abusava para ser uma garota ‘diferente’ do normal.

Não havia necessidade nem utilidade para a narrativa essa personagem secundária ter sofrido abuso (sexual) para se tornar desinibida. Se ele quisesse, ela poderia apenas ter vontade e isso não seria questionado, já que estamos falando de adolescentes com hormônios à flor da pele. Esse recurso de tornar forte uma personagem a partir de um abuso sofrido é usado tanto ao ponto de quase virar um fetiche, pois isso não influencia em nada na história, não há mudança de personalidade ou qualquer uso do tipo.

Além disso, na literatura mundial, temos diversos exemplos de personagens femininas fortes, fora do padrão, que não precisaram ser estupradas ou serem expostas a algum tipo de abuso para se tornarem personagens fortes. Duvidam de mim? temos vários exemplos em livros de vários gêneros: Rory de Uma mulher na escuridão, Dolly em As viúvas, Starr de O ódio que você semeia, Greta do livro A árvore dos anjos, Raquel de A corrente, Daphne Parrish de A outra sra Parrish, Garrett em Um estranho irresistível, Audrey Rose em Príncipe Drácula, até a Nieshka de Enraizados. A própria Miranda de O diabo veste Prada é uma mulher a se admirar por si só. Ela é e não há discussões do que aconteceu no passado dela.

Eu realmente espero que os autores passem a deixar de lado essa mania de usar como recurso narrativo sem função nenhuma (pois o fato acontecer ou não não muda o decorrer dos fatos) e passem a explorar melhor as suas personagens femininas.

Outra coisa, o abuso em A casa dos Pesadelos, no caso da Camila, é tão mal retratado que chega a ser revoltante. Chega a ser impensável e simplesmente quebrou com tudo o que o autor tinha construído sobre a personagem:

O único abrigo que ela conhecia para superar a rejeição era debaixo da asa do pai a quem tanto odiava.

Isso simplesmente destoa de tudo o que foi construído para a personagem, e pior, ao colocarmos isso para o mundo real (extrapolações precisam ser feitas), dá-se a ideia errônea de que todas as vítimas agem desse modo.

Já li outros livros do autor Marcos DeBrito que já merece uma releitura pois tem anos que li, e ainda quero ler outras obras, apesar desse incômodo relatado acima. Eu já li À sombra da lua do autor e pretendo reler até o fim do ano, e ainda tenho Escravo de Capela – uma releitura de uma lenda brasileira – para ler.

Já leram esse livro? Conhecem outras obras? Comentem aqui!

Agradeço demais aos resenhistas Helder, Érika e Tamara por me ajudarem a lembrar dessas mulheres maravilhosas representadas na literatura.

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