Review | A Canção de Sangue (Série A Sombra do Corvo 1), de Anthony Ryan.

Review | A Canção de Sangue (Série A Sombra do Corvo 1), de Anthony Ryan.

A Leya recentemente lançou um comunicado sobre uma retração no gênero fantasia, justificando o abandono da publicação dos livros de Brandon Sanderson e de outros autores do gênero. Uma situação que não concordamos, sabendo do interesse do público cada vez maior por obras a la J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, etc, acreditamos em outras razões. Só ficamos com o que a editora ofertou de Literatura Fantástica e teve muita coisa boa, como esse A Canção de Sangue (Blood Song), de Anthony Ryan, primeiro volume da trilogia A Sombra do Corvo, eleita a melhor obra de fantasia da Amazon UK em 2013.

A Canção de Sangue oferece uma fantasia épica tradicional com alguns pontos sombrios – moderados – que a adaptam aos gostos atuais. No caminho de Patrick Rothfuss, a narrativa ocorre no relato que o protagonista conta a um cronista enquanto estão em um navio rumo a um duelo. O passado aflora, mostrando o treinamento do então jovem protagonista com seus seus companheiros, com os exercícios habituais, experiências e testes mortais, que logo se envereda aos fatos que levaram ao citado conflito, que ocorre no final da história. Fantasia épica e heróica, portanto, clássica, com um ar moderno, muito de acordo com David Gemmell, de quem o autor se declara um seguidor dedicado.

Capa original

SINOPSE

Prisioneiro e a ponto de embarcar a um duelo em que poucos apostam em sua sobrevivência, Vaelin Al Sorna, um guerreiro respeitado e odiado ao mesmo tempo, questiona ao encarregado de acompanhar e vigiá-lo, Verniers Alishe Someren, cronista e historiador oficial do Império Alpirano, sobre a veracidade da história que escreveu sobre os acontecimentos que levaram àquela situação. Ferido em seu orgulho, com uma dívida pessoal e uma viagem aborrecida pela frente, Verniers aceita escutar a versão do prisioneiro. E assim começa…

A narrativa

Quando Vaelin era um garoto de apenas 10 anos de idade, é deixado por seu pai na Casa da Sexta Ordem, ele é informado que sua única família agora é a Ordem. Durante vários anos foi treinado de forma brutal e austera, além de ser condicionado a uma vida perigosa e celibatária. Mesmo assim, Vaelin resiste e torna-se líder entre os seus. Toda a primeira parte do livro reflete essa iniciação e amadurecimento, sem romantização, Ryan mostra a dureza do treinamento, a exposição à violência e à morte. Os jovens, ainda garotos, sob uma ordem religioso-militar exclusivamente masculina – o que não significa que não haja personagens femininas interessantes ao longo da narrativa – são forçados a treinar sem parar, seus supostos erros são impiedosamente punidos por professores severos e passam por testes perigosos, às vezes fatais, que servirão para saber quem são os mais fracos, os menos preparados ou os menos favorecidos.

O autor ao mesmo tempo que define o cenário, abordando questões sociopolíticas e religiosas, tece, de maneira empolgante e interessante, a rede de amizade, dependência, lealdade, rivalidade, ódio, intrigas e mistérios que terão grande repercussão na segunda parte, onde o palco se concentra mais na guerra, nas missões da Ordem e pelo Reino, conspirações, assassinatos e numa invasão.

Arte sobre um evento mostrado em A Canção de Sangue.

O romance é, também, um tear onde os destinos de diferentes Ordens, dedicados à cura, meditação, perseguição aos hereges, propagação da Fé ou à batalha, entrelaçados com os da misteriosa Escuridão, com habilidades mágicas especiais, condenadas como uma heresia e a serem erradicados, e de cuja conjunção de elementos surge uma tapeçaria tão complexa quanto sugestiva. A Fé, e os diferentes tipos de adoração, tornam-se importantes na evolução da narrativa, e por trás das Ordens, da Fé e da Monarquia, há uma corrente subterrânea de intrigas, manobras políticas, segredos desenhados há muito tempo que poderiam destruir todo o equilíbrio atual. E o protagonista descobrirá da maneira mais difícil quando sua própria vida for colocada na balança desses interesses.

Ryan oferece uma ampla variedade de personagens, bem trabalhados e caracterizados, sempre sob as impressões e os conhecimentos que Vaelin obtém deles, em uma narrativa quase auto-conclusiva ao longo do qual, e desde o seu início, há muitas suspeitas, sugestões e problemas que foram semeados para o futuro da trilogia.

Veredito

Pode parecer uma fantasia como tantas outras, mas A Canção do Sangue tem uma escrita  fluida, com detalhes que vão das caracterizações dos personagens às maquinações politicas, Anthony Ryan constrói uma narrativa complexa, bem explicada, num mundo interessante de impérios e reinos, de reis e guerreiros, de religião e fé, sem heróis ou vilões, apenas personagens muito reais, com personalidades únicas, visões de mundo e falhas. Indico a leitura, umas das melhores até agora, já sigo para o segundo volume, O senhor da Torre.

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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