Review | Cidade de Selvagens de Lee Kelly

A Terceira Guerra Mundial estourou há quase duas décadas. Manhattan transformou-se num campo de prisioneiros de guerra governado pela nova-iorquina Rolladin, que controla os sobreviventes com punhos de ferro. Para Skyler Miller, Manhattan é uma gaiola que a impede de conhecer o mundo. Mas para a irmã caçula de Sky, Phee, o campo de prisioneiros no Central Park é o único lar que ela poderia querer.

Esse é o enredo da estréia de Lee Kelly, Cidade de Selvagens (City of Savages, 2015), publicado pela Galera Record, um romance ambientado em um futuro pós-apocalíptico, onde a ilha de Manhattan é um campo de prisioneiros com aproximadamente mil pessoas. Já faz 16 anos desde a invasão de Nova Iorque, e para as irmãs Miller, Sky e Phee, a outrora metrópole é uma cidade vazia, despovoada. Nada sabem do passado, inclusive sua mãe, Sarah, não fala nada, especialmente sobre o motivo pelo qual Rolladin, o nova-iorquino diretor de prisão, na ausência dos conquistadores, trata sua família de forma diferente dos demais prisioneiros. Quando desconhecidos chegam ao parque com notícias surpreendentes, Sky e Phee descobrem que há muitas coisas sobre Manhattan que sequer imaginaram. E entram numa jornada que não esperavam, aquela que nada no mundo é exatamente como pensavam.

Todo romance de estreia é complicado. Geralmente apresentam pontos que levam a comparações a outras obras. E muitas críticas colocam como uma mistura de obras, uma colcha de retalhos ligados em prosa. Cidade de Selvagens se inclina para um thriller distópico, contada em pontos de vista alternados de primeira pessoa divididos entre as duas irmãs. A autora consegue compor distinção entre as duas narradoras de idades similares e histórias semelhantes. Phee aparece como sendo mais rispída e ousada, enquanto Sky é mais pensativa e introspectiva. Com um tom semelhante de proteção para com a família, que se resume a elas duas e a sua mãe.

A atmosfera da cidade despovoada é, de certa forma, assombrosa. Um vazio e solidão, referente também à alienação, que se entrelaça com as viagens das protagonistas. Nem Sky nem Phee sabem muito sobre o passado de sua mãe, só descobrem quando encontram e começam a ler secretamente o diário de sua mãe da invasão de Nova York. E a história segue um outro caminho, trechos do diário são intercalados com o tempo presente tecendo um climax agitado e sublinhar, criando uma tensão entre liberdade e necessidade, o amor e a sobrevivência e a natureza complicada de lealdade e a família. O final é arrebatador.

Entretanto, há momentos que a autora desliza ao artifício clichê narrativo. Os canibais que habitam os túneis, típicos do pós-apocalíptico, ativos nos metrôs de Manhattan depois de dezesseis anos. Pessoas que “se perderam no escuro”. O surto da Terceira Guerra Mundial é mostrado como um pouco do perigo amarelo ou melhor, chinês. O líder religioso de um grupo de sobreviventes, que perdeu contato com a realidade, que faz lavagem cerebral nas pessoas e mantém um harém. Não há algo mais previsível nas histórias pós-apocalípticos do que isso, não acham?  Não iremos relatar mais, pois já tem alguns spoilers colocados , mas a autora poderia ter seguido uma outra linha e não ter caído na armadilha da colcha de retalhos. 

Mas acerta na construção das relações, contada em elipses, em meio ao silêncio detalhado na solidão das personagens e nas entrelinhas dos diários: a relação familiar. E é esse relacionamento que se complica no final e nos surpreende. Em última análise, a história de Sky e Phee é aberta e descomplicada em comparação com a história oculta em segundo plano, o que parece uma oportunidade perdida.

Uma estreia sólida, uma narrativa que entretem com a sensação do estilo Young/ New Adult, eficaz, com energia e caráter, mas que possui certos reveses. Aguardemos os próximos trabalhos que publicará.

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