Review | Ayako de Osamu Tezuka

Osamu Tezuka possivelmente seja um dos mais influentes autores para a qualidade dos mangás no Japão, sendo o responsável por obras definidoras de estilos que marcaram períodos de evolução para os desenhos e para os temas usados nas histórias, das suas icônicas criações estão, Astro Boy que gerou um anime em 1963 e revolucionou a televisão japonesa, A Princesa e o Cavaleiro que praticamente criou o estilo shōjo e muitos dos temas que seriam utilizados posteriormente e também Kimba, o Leão Branco que também teve uma adaptação animada, e claramente influenciou o clássico Rei Leão da Disney mesmo Tezuka nunca tendo recebido nenhuma menção ou crédito de referência, sabemos que está lá.

Osamu Tezuka

Um manifesto sobre maquinações políticas, mas principalmente uma história sobre atitudes e índole do ser humano, uma história sobre o poder de escolher, escolher o destino até mesmo do outro, seja pela força ou pela tradição da família,  por simples instinto de sobrevivência ou subjugada pelos mais poderosos. O mangá intimida, pelo seu tamanho, com mais de 700 páginas, e pela temática do Japão no pós guerra. O ótimo prefácio ajuda à nos localizarmos no tempo e também nos ambienta nas sensações e sentimentos que se passava nessa época, ao começarmos de fato o mangá já estamos imersos na temática e a destreza de Tezuka é algo sensacional, seu roteiro flui naturalmente e sua arte acompanha do mesmo modo, um drama muito bem executado por um mestre da arte de contar histórias, em vários momentos temos a sensação de estarmos lendo um grande suspense, com várias tramas interligadas.

Logo no início somos apresentados a Jirö Tenge que retorna da guerra e logo é encaminhado para algumas missões, para pagar certos favores concedidos em troca de sua liberdade, mas notamos com o avançar da leitura, até que ponto ele aceitou fazer as missões por sobrevivência ou teria sido por uma possível posição política melhor? No lado familiar, temos a sua tradicional família perdendo cada vez mais espaço devido ao reestruturação da política japonesa o que causa as mais absurdas decisões do patriarca Sakuemon.

A brincadeira do irmão mais novo de Jirö é uma clara demonstração por onde caminhava a juventude japonesa, acompanhamos a aristocrática família Tenge com todo o tipo de acobertamento e acordos para seu próprio benefício, porém as manobras políticas e toda a mudança no cenário político do Japão na época afeta drasticamente e profundamente a riqueza da família, os segredos “enterrados” com risco de vir a tona e desmascarar toda a família se tornam cada vez mais evidentes.

As provações passadas por Ayako despertam sensações imediatas ao leitor, que incomoda, mas seguimos em frente pois todo acontecimento parece que aumenta o perigo de uma imensa explosão do barril de pólvora que se tornou o futuro de todos. Sombrio em diversos momentos, mas com uma naturalidade no desenrolar dos fatos que a história passa rapidamente e quando percebemos o mangá já está no fim. Ayako é uma graphic novel que mudou e moldou a arte de contar historias no Japão, inspirou e continua inspirando, décadas depois de ter sido escrito.

Tezuka recriou o Japão da época de um modo fenomenal e como poucos poderiam fazer. Um parabéns a editora Veneta pela obra de arte que nos trouxe, um registro histórico também para os mangás nacionais, pois nunca havia sido lançado um mangá desse porte e número de páginas em nosso país, e ainda com o final alternativo como extra, exclusivo para a versão brasileira, um final que só havia sido lançado no Japão, e fica a critério do leitor qual lhe satisfaz mais. Um épico atemporal que não é apenas um conto do pós guerra. É também sobre humanidade e a falta dela. Um clássico que merece ser lido por todos os fãs da arte de Tezuka.

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