Review – Os meus romanos – Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil

Com um título tão longo, Os meus romanos, alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil“, de Ina Von Binzer, até podemos pensar que é um livro volumoso, que trata de uma análise pedagógica de uma educadora alemã. Mas não, publicado pela Paz e Terra, numa edição revisada, é um romance epistolar, retrato de um Brasil monarquista,  uma ótima matéria para discussão sobre as mulheres, que traz as cartas da alemã Ina, contratada para educar sete dos doze filhos de uma família no interior do Rio de Janeiro, como também trabalhou num colégio de moças, na residência de uma tradicional família paulistana e em uma fazenda de café no interior da província.

O livro, publicado pela primeira vez em 1956, ganha uma edição de capa belíssima com o quadro La promenade das la fôret (O passeio na floresta) de Henri Rousseau, com tradução de Alice Rossi e Luisita da Gama Cerqueira e prefácios de Paulo Duarte e Antônio Callado. Escrito como cartas romanceadas, é uma visão da educação do século XIX, feita por uma preceptora de filhos das famílias ricas, um retrato para estudiosos da área e curiosos.

Através de uma série de cartas escritas à sua amiga Grete, na Alemanha, entre 1881 e 1883, em que alia a qualidade literária à agudeza da observação, Von Binzer fornece-nos depoimentos de raro interesse sobre a vida de nosso país na segunda metade do século XIX. As dificuldades existentes entre as culturas são abordadas,  considerações sobre problemas, os mais variados, tais como a escravidão e a abolição; a forma de educação das crianças brasileiras ricas contrastada com a rigidez dos hábitos germânicos; as festividades que não podia compreender neste país tão diverso de sua pátria, como um Carnaval que encharcava qualquer transeunte de água e polvilho; sua desambientação inicial no Brasil, que levou-a a desabafos, embora reconhecesse a gentileza de nosso povo e a beleza de nosso país; a saudade que sentia de sua terra, com usos e costumes que eram seus e que não conseguia substituir por outros – que tantas vezes não eram por ela aceitos ou compreendidos.

A autora, segundo o prefácio de Paulo Duarte, faz um depoimento do cotidiano brasileiro antes da abolição da escravidão e a proclamação da República. De 1881 a 1884, a autora trabalha, observando com criticidade, analisando e comparando com a terra que nasceu, traçando um olhar europeu para o que ver.

Perguntas são levantadas pela autora no momento que o país sul-americano vive, como abolir a escravatura e criar condições para sua substituição?  O trabalho remunerado não era nem conhecido, e segundo a própria autora com o “pouco amor” ao trabalho como seria ensinar os brasileiros a trabalhar.

Um livro-documento que merece a atenção de historiadores, estudiosos da área pedagógica e da construção da sociedade brasileira

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