Em fevereiro deste ano, a Panini publicou o primeiro volume de Lendas do Universo DC: Mulher-Maravilha, compilando a fase escrita e desenhada por George Pérez. Até agora foram lançados um total de 3 volumes, com possibilidades de um quarto ser publicado nesse ano ou em 2018. Com capa cartonada, papel offset e um preço acessível (R$25,90), é uma HQ essencial para qualquer leitor – essa fase foi responsável por redefinir a Mulher-Maravilha e seus impactos e elementos podem ser observados até hoje, tanto nas histórias em quadrinhos da personagem e até mesmo no longa-metragem dirigido por Patty Jenkins e estrelado por Gal Gadot.

Antes de mais nada, é preciso traçar um breve contexto da personagem e da editora para compreender o grande impacto da obra e seus legados até a atualidade. Apesar de ser considerada um dos pilares do universo da DC Comics, ao lado de Batman e Superman, a trajetória da Mulher-Maravilha é marcada por um grau de abandono da editora. Criada em 1941 por William Moulton Marston com traços de Harry G. Peter, a personagem passou mais de quatro décadas sem contar com histórias muito memoráveis, possuía origens que tornavam-se confusas dentro do turbilhão cronológico que se entranhava nos títulos em publicação e evidentemente não compartilhava do destaque conferido aos outros heróis da “trindade” da DC. Roteiristas designados para conduzir seu título solo não viam a tarefa com a menor empolgação e o título nunca foi destaque em vendas ou de boa recepção de crítica e público.

Nesse contexto, um divisor de águas não só para a personagem mas também para toda a editora foi o mega evento Crise Nas Infinitas Terras, publicada entre 1985 e 1986, cuja principal missão foi de botar ordem na casa, consertando a complexa cronologia e as múltiplas terras, deixando assim a linha de títulos mais coesa e acessível aos novos leitores. A nova era que se surgiu abriu espaço para grandes reafirmações das origens de consagrados heróis: Batman, com Ano Um escrito por Frank Miller e Superman na celebrada fase de John Byrne, para citar apenas alguns. Mas e a Mulher-Maravilha? Originalmente, a editora Janice Race e o roteirista Greg Potter estavam encarregados do projeto, mas alguns conflitos criativos e até mesmo a rejeição de elementos da revista por parte de funcionárias da DC levantaram alertas vermelhos. Eis então que surge a luz no fim do túnel: George Pérez.

George Pérez

A escolha não poderia ter sido melhor. Pérez estava vivendo um momento de imensa relevância na indústria de HQs: foi o desenhista da marcante Crise nas Infinitas Terras, com Marv Wolfman nos roteiros e a dupla também trabalhava em Novos Titãs, um dos títulos mais vendidos na época e adorado até hoje por uma legião de fãs. Pérez acreditava, com razão, que boa parte das histórias da Mulher-Maravilha feitas até então eram permeadas de estereótipos e que representavam Diana como uma simples contraparte feminina do Superman. Ele, no entanto, quis ir além e explorou algo que havia sido abordado apenas marginalmente: a relação da Mulher-Maravilha com a mitologia grega e para isso passou meses pesquisando a fundo a mitologia clássica. Pérez também se identificava com o feminismo e deliberadamente quis trazer um ar progressista à história, fazendo uma HQ para todos os públicos que pudesse ser apreciada igualmente por homens e mulheres – levando em consideração que o mercado de quadrinhos mainstream na década de 80 ainda ignorava largamente a ideia de se produzir material pensando em um possível público feminino, fica evidente uma das facetas do progressismo de Pérez.

Karen Berger, nova editora do título (e futuramente “mãe” do fantástico selo adulto de HQs Vertigo) foi uma de suas grandes aliadas na empreitada, oferecendo, além do apoio editorial, um ponto de vista e perspectiva femininos para os roteiros. Outro objetivo de Pérez era de retratar as inúmeras formas e as peculiaridades de como as mulheres são tratadas no mundo, utilizando-se então de temáticas como violência doméstica e sexual, machismo, exposição midiática, dentre outros, tudo de forma muito orgânica e bem trabalhada. Não poderia deixar de citar o argumentista e o co-roteirista, respectivamente Greg Potter, que estava no projeto original e Len Wein, que muito contribuíram para tecer esse rico momento na trajetória de Diana. Os cuidados dessa equipe com o roteiro se estendem para além das temáticas abordadas e elementos nunca antes explorados ou explicados – como o porquê das cores da bandeira americana no uniforme da Mulher-Maravilha e até o porquê do nome “Diana”, que não tem origens gregas como das demais Amazonas – são elucidados.

Todos esses elementos contribuíram para uma fase que muitos consideram a definitiva da personagem. No primeiro arco, que compreende 14 edições (o equivalente aos dois primeiros encadernados da Panini), são lançadas as bases desse reformulado universo da Mulher-Maravilha. Logo no início somos apresentados às origens das Amazonas que, ante o horizonte de caos gerado pelas maquinações de Ares, o deus da guerra, despontaram como uma raça de mulheres criada pelas deusas do Olimpo para mostrar à humanidade o caminho da virtude – e um ponto interessantíssimo é que elas foram reencarnadas a partir de almas de mulheres mortas pelo medo e a ignorância do homem. Juntas, estabelecem um governo em Themyscira, que passa a atrair a desconfiança de poderosos reis e guerreiros vizinhos; desconfiança essa que, consequentemente, termina com uma armadilha organizada por Hércules e seu exército para aprisionar e escravizar todas as Amazonas. Eventualmente, a rainha das Amazonas, Hipólita, inicia um levante que liberta a si e as suas irmãs, que atravessam o mar Egeu para se estabelecerem em uma ilha secreta e afastada da humanidade, onde são abençoadas com a imortalidade.

Sem adentrar nos demais detalhes do enredo para não estragar as surpresas de futuros leitores, vamos falar um pouco sobre os personagens que compõem o rico elenco dessas histórias. Diana, a Mulher-Maravilha, exala otimismo, sabedoria e heroísmo em sua forma mais pura, ao mesmo tempo em que é uma guerreira hábil e feroz. Sua adaptação ao que as Amazonas chamam de ‘Mundo do Patriarcado’ é muito interessante, suscitando no leitor o mesmo olhar crítico que Diana, com estranheza, recebe as novas e diferentes convenções sociais. Além disso, ela é retratada como uma mulher ligada à espiritualidade e suas crenças e devoção aos deuses são um ponto considerável de sua personalidade, algo que costuma ser incomum para os super-heróis. A compaixão e empatia da personagem são outros pontos de grande destaque ao longo das histórias, o que por vezes resulta em soluções muito diferentes do que estamos acostumados nos clássicos embates entre herói e antagonista.

Os personagens secundários são notavelmente bem trabalhados e dimensionados, não sendo meros suportes ou elementos de interação da protagonista e compondo um cast diversificado. Steve Trevor, anteriormente o clássico interesse romântico da Mulher-Maravilha é aqui um coronel de idade, fiel ao seu país mas com o senso ético aguçado, não seguindo ordens às cegas e buscando fazer o que considera certo. Nesse contexto, sua relação com Diana é ausente de subtextos românticos, tendo seu enfoque no respeito mútuo e até em uma afeição relativamente paternal. Etta Candy, outro ícone sempre presente nas histórias da princesa amazona, recebe um tratamento especial. Outrora relegada ao papel de alívio cômico por conta de seu sobrepeso, aqui vemos uma tenente determinada e leal e inclusive, que vivencia um dos mais interessantes romances da trama.

Em Boston, cidade onde Diana passa a viver, a idosa professora de Harvard Julia Kapatelis é essencial no processo de adaptação da heroína, acolhendo-a, ensinando a língua inglesa e as diferenças culturais, além de servir como uma figura materna. A idade da professora Kapatelis em nenhum momento é um empecilho, e ela é uma das personagens mais ativas ao longo das aventuras. Sua filha Vanessa é uma interessante conexão de Diana aos dilemas dos jovens e Mindy Mayer, eventual publicitária de Diana, ferrenha e de valores questionáveis, é outra figura muito presente que agrega à dinâmica do título.

A arte de Pérez aqui está em seu auge, exibindo cenários e personagens minuciosamente desenhados e enquadramentos diferenciados. Seu Monte Olimpo retratado com inspirações nas obras de Escher contribui para a sensação de algo transcendental e o nível de detalhamento em cada quadro é algo fora do comum na indústria de HQs. Quanto à narrativa, alguns elementos como quadros de narrador e balões de pensamento são considerados datados para os dias de hoje e a quantidade de texto por página é sem dúvidas acima da média, mas de forma alguma torna a obra ultrapassada ou inadequada na atualidade. Os diálogos e narrações, especialmente em cenas com os deuses e as Amazonas, são deliberadamente inspirados nos clássicos gregos, o que pode ajudar a explicar seu estilo e extensão, além de evidenciar o esmero e o trabalho de pesquisa da equipe criativa.

Não perca a oportunidade de apreciar uma das fases mais clássicas e historicamente relevantes no universo mainstream das HQs, o marco definitivo nos mais de 75 anos da Mulher-Maravilha.

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