Review | Cumbe de Marcelo D’Salete

”A palavra CUMBE é sinônimo de quilombo em alguns países americanos. Nas linguás congo/angola tem também os sentidos do sol, dia, luz, fogo e força trançada ao poder dos reis e à forma de elaborar e compreender a vida e a história. Para Nei Lopes, sua origem é o ‘’quimbundo kumbi’’ correspondente ao umbundo ekumbi, sol’’.


CUMBE - MULTIVERSO NEWSMarcelo D’Salete, mais uma vez nos apresenta muito mais que um quadrinho, nos apresenta sentimentos de uma das mais tristes e injustas épocas da história não só do Brasil, mas do mundo. A escravidão.  A obra da vez trazida aqui pelo LBR é CUMBE. Lançada no final de 2016, pela EDITORA VENETA.

A história nos apresenta o drama dos escravos, onde a liberdade era o único e exclusivo objetivo. Dotada de uma mitologia própria, os escravos acreditavam em seus salvadores, seus próprios mitos e verdades, A edição nos apresenta 4 arcos, onde a morte, a liberdade e os sentimentos estão intrinsecamente ligados. Sem condições de serem livres, vivem do jeito que conseguem, mantendo a esperança e acreditando que no futuro tudo será melhor, mesmo tudo se provando o contrário. 
Através de uma narrativa gráfica forte e uma construção de páginas com poucos diálogos, Marcelo deixa o leitor entender por sí só um cenário dramático e hostil por consequência, a falta de diálogo é justamente o que mais representa o silêncio velado de uma época, o negros pouco tinham voz, pouco tinham vez.

O aCUMBE - MULTIVERSO NEWSutor proporciona um olhar diferente de fatos que todos sabem, mas com pequenas estórias que poucos conhecem. Dia a dia, os pequenos relacionamentos e principalmente a maldade dos brancos contra os escravos e tudo que os infortunados tiveram que abrir mão em nome de uma liberdade utópica.
A edição representa muito bem sentimentos puros, a tristeza e o ódio estão presentes a todo momento. Homens trabalhavam de sol a sol e eram chicoteados pelo menor sinal de desobediência. Mulheres que trabalhavam na casa grande, era submetida muitas vezes a serviços de limpeza e cozinha, onde viviam uma vida totalmente vulnerável.  As vontades do senhoril e dos capatazes que as estupravam sempre que queriam, eram um sinal claro não apenas de uma violência contra o corpo, mas uma degradação da alma. .


CUMBE - MULTIVERSO NEWSEmbora todos nós sabemos o que foi a época da escravidão, pouquíssimos de nós conseguem compreender. Percebo que às vezes, outra grande mancha na história da humanidade como holocausto por exemplo, parece ter um peso muito maior  do que foi a escravidão. Longe de mim querer julgar qual foi pior, ou a mais impactante, mas a escravidão vem de muito tempo, perdurou por muito séculos e infelizmente nos dias atuais ainda se vê um rastro fortíssimo do que foi a escravidão, camuflada no preconceito ignorante e sem sentido. 
O que me deixa realmente triste, é ver que a vida pouco valor tem, um dos capítulos da edição chamado SUMIDOURO, mostra como eram tratados os desobedientes, moribundos, revoltados, os filhos bastardos, todos aqueles que não se adequaram ao que era necessário.

A HQ tem um glossário que nos ajuda a compreender certas palavras e significados, nos explica um pouco sobre o processo de criação e nos traz fatos históricos que valem a pena saber. Recomendo que leia, é uma leitura rápida e que exige atenção aos detalhes, a narrativa gráfica é muito bem feita e agradável assim como em ENCRUZILHADA.

Nos conte qual outra obra relacionada a escravidão ou um algum marco histórico desse nível você indicaria?


CUMBE - MULTIVERSO NEWSMarcelo D´Salete é professor, ilustrador e autor de histórias em quadrinhos. Estudou design gráfico, é graduado em artes plásticas e mestre em história da arte pela USP.

Publicou o álbum NOITE LUZ (Via Lettera, 2008) no Brasil e Argentina, com histórias urbanas envolvendo uma casa noturna.  CUMBE (Veneta, 176 páginas, 2014) é a sua obra mais conhecida, versando sobre o período colonial e a resistência a escravidão no Brasil, foi publicado no Brasil, Portugal, França e Itália. O livro deve ser publicado também na Alemanha e EUA.  Em 2016, ele relançou o álbum de quadrinhos ENCRUZILHADA (Veneta, 160 páginas), que trata de violência, juventude e discriminação em grandes cidades. Ilustrou também os livros infantis Ai de tí, Tietê de Rogério Andrade Barbosa; Duas Casas de Claudia Dragonetti; E Assim Surgiu o Maracanã de Sandra Pina; Zagaia e Da Cabula de Allan Santos da Rosa; As descobertas de Paulinho na Metrópole de Marina Torres; Olho Mágico de Tiago Melo; A Rainha da Bateria de Martinho da Vila; e diversos outros.

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