Rebobinando – Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Quem nunca sofreu uma decepção que não conseguia aguentar, querendo correr pra dentro do quarto e sair de lá só quando se passassem vários dias? Fingir que tudo não passou de um sonho ou até mesmo apagar aquele amor que não deu certo, absolutamente ninguém quer depositar toda sua confiança em uma pessoa e depois vê-la te decepcionar, mas a vida não é perfeita e temos que aprender pelo caminho mais difícil. Então, o que você faria se existisse uma solução fácil pra tudo isso? Simplesmente paga alguém pra que ele te faça esquecer tudo isso apagando sua memória? Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças traz diversas reflexões sobre amor, relacionamentos, destino, etc. E cada um pode tirar a conclusão que achar correta sobre esse filme. Sendo assim, aqui vai a minha…
Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que, durante anos, tentaram fazer com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, retirando de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude, Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, ele também se submete ao tal tratamento. Porém, ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória, dos quais ela não participa.
Com roteiro de Charlie Kaufman, o longa – com nome baseado no poema de Alexander Pope “Eloisa to Abelard” -, utiliza diversos elementos de ficção científica e romance. O filme começa de forma monótona. Em um dia qualquer, Joel, por alguma razão, decide mudar a rotina e ir à praia. No caminho, ele encontra Clementine e, por obra do destino, eles acabam se dando bem e decidem se conhecer melhor. O mais engraçado nisso tudo é que, mesmo com as memórias apagadas, Joel parece ter um instinto natural, como se algo o puxasse para aquele local específico, tanto ele como ela, como se eles estivessem que estar ali para se encontrarem de novo.
O filme tem como foco também a questão do caminho que você pode seguir para superar uma desilusão. O casal queria muito que a relação desse certo, mas por conta das brigas constantes, o plano acaba fracassando e o relacionamento vai se desgastando aos poucos, até não sobrar mais nada. Para superar a frustração, os dois optam por esquecer um ao outro e logo é inserido o tratamento para apagar as memórias, como se fosse uma válvula de escape para esse problema, um caminho rápido e fácil.
Para mim, pelo menos, as pessoas não deveriam seguir pelo caminho mais fácil ou até mesmo esquecer esse tipo de situação, pois, quando fracassamos ou passamos por algo ruim, essa experiência nos ensina a não errarmos mais e nos torna pessoas mais fortes. A partir do momento que Joel aceita o tratamento, ele percebe a burrada que fez e acaba se dando conta de que, na verdade, não deveria esquecer de sua amada, mas sim lutar por seu amor, algo que Clementine poderia ter feito também.
Por conta disso, essa situação toda acaba deixando uma sensação ruim no final do longa, pois, com as memórias do casal apagadas e depois deles tendo descoberto tudo o que aconteceu, está claro que a relação ficou abalada e desgastada. E se Joel ainda via um fio de esperança em não deixar seu amor morrer enquanto suas lembranças eram apagadas, no final de tudo parece que ele se esvai.

A qualidade de Jim Carrey como ator dramático fica evidente nesse longa, pois, para quem estava acostumado a vê-lo em filmes de comédia extrema como “Ace Ventura” ou “O Máscara”, logo, o telespectador fica de queixo caído com a atuação excepcional de Carrey. A parte da depressão é simplesmente fenomenal, pois ele realmente consegue transpor, para quem está assistindo, um aspecto de homem triste e solitário. Também é possível notar o ápice de sua atuação através do desespero de seu personagem no momento em que ele está perdendo as memórias. Sua luta e correria contra o tempo marcados pela angústia do arrependimento carimbam a atuação de Carrey como uma das melhores de sua carreira.

Kate Winslet também não escapa dos elogios já que, pra quem se lembrava dela como Rose de “Titanic”, outra surpresa ao ver que sua personagem consegue passar a imagem de uma mulher extrovertida e, ao mesmo tempo, forte. Clementine sofre profundamente com seu relacionamento falho, pois ela está realmente apaixonada e acaba se culpando por Joel. Logo, o contraste que a atriz dá a sua personagem é ótimo, principalmente nos momentos das lembranças, onde ela é relembrada como a melhor coisa de Joel… E é exatamente aí que podemos notá-la com mais clareza.
Enquanto a direção usa o  truque de brincar com a linha do tempo no filme – no qual ele não segue uma sequência de começo, meio e fim como o normal -, propositalmente, isso serve para causar a estranheza no espectador sobre o que aconteceu com o protagonista. A fotografia e a produção são uma beleza a parte, todos os cenários montados para os momentos das lembranças são belíssimos e líricos.
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças é um filme fascinante e belo, com um desfecho que chega a ser bem triste e emocionante. Caso você tenha passado por alguma decepção, então vai se identificar com a história e os personagens. A mensagem repassada através da obra nos remete a refletir e repensar se realmente o caminho mais fácil vale a pena.