Rebobinando – Boogie Nigths

  O mundo da pornografia é, talvez, um dos mais visitados pelos homens (e também por algumas mulheres), ou seja, um ramo que sofre uma descriminação enorme por parte da sociedade, mas nunca passa pela nossa cabeça como é a vida dessas pessoas fora das câmeras, suas carreiras, a produção… Até porque sempre queremos ver outras coisas nesses filmes. Paul Thomas Anderson (Magnolia, Punch-Drunk Love, Sangue Negro), nos traz um filme no auge da indústria pornográfica.
  O filme conta a trajetória de Eddie Adams (Mark Wahlberg) no mundo pornográfico no final dos anos 70, onde o sexo era livre e sem preocupações. Na ocasião, o jovem acaba adotando o nome de Dirk Diggler e se transforma em uma das maiores estrelas do ramo, após ser descoberto pelo diretor Jack Horner (Burt Reynolds).Durante o filme, somos apresentados ao mundo por detrás das câmeras e produções daquela época, além de todas as suas consequências relacionadas às drogas, sexo e música disco.
  A primeira Boogie Nights parece mais um filme B e tosco sobre pornografia, mas foi justamente a proposta do filme, levando tudo com um humor sarcástico e sutil. A obra de Paul Thomas Anderson vai seguir a ascensão e queda de todos os personagens envolvidos durante a história. Uma das coisas mais interessantes a serem observadas é justamente a ascensão dos personagens em um mundo onde a sociedade os veem com maus olhos – mesmo nos anos 70, época em que as coisas eram mais liberais -, pois todos os personagens são perdedores de alguma forma e veem o sexo, não somente como uma forma de prazer, mas sim uma maneira de preencher um vazio que eles carregam.
  Como, por exemplo, nosso protagonista Eddie Adams (Dirk Diggler),que sonha em ser famoso e reconhecido, mas nem ao menos tem estudo. Ele é somente mais um rapaz avantajado, além de ter uma relação difícil com sua mãe, a mesma que o expulsa de casa. Dirk encontra na pornografia aquilo que tanto sonhou, fazendo fama e ganhando prêmios por suas performances. Apesar de ser um ator medíocre, ele acredita que está fazendo arte quando combina com seu diretor de fazer uma espécie de série policial pornô. Depois da metade do filme, quando Dirk já está estabelecido como uma estrela do ramo e vai sendo apresentado às drogas, é possível ver sua queda repentina – o mais interessante nisso tudo é que o personagem cai até mais fundo do que ele estava no começo do filme.
  Outros diversos personagens são apresentados a nós, um dos mais peculiares é o diretor dos filme Jack Horner, que, apesar de fazer filmes medíocres, acredita ser um Alfred Hitchcook. As pessoas não se interessam pela história de um filme pornográfico, mas sim pelas cenas de sexo em si. Jack quer quebrar esse paradigma e transformar seus filmes numa espécie de Cidadão Kane ou Poderoso Chefão, algo que prenda o telespectador na cadeira do cinema. Quando, finalmente, é jogado na cara sua péssima qualidade para filmes, ele estoura numa cena repentina de acesso de raiva.
  Um ponto fenomenal do longa é toda sua produção e ambientação. Os anos 70 estão perfeitamente retratados no filme: a música, cenários, roupas… Fazia muito tempo que um filme não me transportava para uma época especifica assim. Paul Thomas Anderson sempre se demonstra um perfeccionista nesse caso, vale minha ressalta para a trilha sonora do filme, alá Tarantino.
  Além de um roteiro muito bem montado, ele também consegue nos mostrar a contradição de toda a história, que vai da ascensão à queda, com personagens caricatos e se utilizando de quase um humor negro, rs… Um ponto excelente do roteiro é sua sutileza como, por exemplo, na parte da violência – não a violência física em si, mas sim a psicológica. Muitos dos personagens conseguem repassar isso no decorrer da trama, nos surpreendendo ao mostrar o quanto a vida de um ator pornô é pesada.
  O melhor de tudo isso, posso dizer, é que Boogie Nights se trata de um filme admirável e me surpreendeu bastante em tudo, em relação a atuação, roteiro, direção, produção, trilha sonora… Acho que todos deveriam assistí-lo, a fim de mostrar o paralelo que o diretor monta com a vida na pornografia, sem precisar de qualquer cena forçada com algum tipo de apelo sexual. Portanto, fica aqui a dica de um excelente filme.