Review | Os Criadores de Coincidência, de Yoav Blum

Hoje você saiu do metrô na Estação da Sé junto com aquela multidão. Todos se direcionando para a escada rolante. Enquanto você descia, sem pensar em nada especifico, você percebe de repente que no sentido contrário vem subindo uma garota. Sem querer vocês se encaram, mas cada um segue seu fluxo, sua direção. Terá sido uma coincidência este encontro? E se aquela garota fosse a mulher da sua vida? Será que você não deveria ter olhado para trás novamente? Será que ela olhou para trás e você não estava olhando? Existe destino ou este encontro foi só uma coincidência sem maiores consequências?

De acordo com o israelense Yoav Blum, não é tão simples assim.

O ser humano possui livre arbítrio, mas no fundo nossas ações são guiadas por uns “funcionários” chamados Criadores de Coincidências, que tem como função gerar pequenos eventos imperceptíveis que permitam que as vidas sejam alteradas.

Desta maneira, um contador pode tornar-se um poeta, um casal pode se apaixonar e iniciar uma linda família, ou um rapaz pacato pode virar um mafioso que vai terminar com o terrorismo no mundo.

Premissa muito louca? Com certeza, e foi o que me atraiu para este livro.

Temos aqui a estória de Guy, Emily e Eric. Eles se conhecem quando são aprovados para o curso de Criador de Coincidência. Ali eles vão aprender a traçar planos que permitam mudar a realidade sem que as pessoas percebam. Usando matemática, física, mas principalmente o conhecimento da psique humana, eles vão aprendendo toda a teoria necessária para se aprimorarem nesta nova profissão para a qual foram escolhidos.

Guy é romântico. Gosta de criar coincidências onde casais possam se encontrar.

Emily não gosta de criar coincidências que machuquem as pessoas.

Eric é o criador de coincidência “ativo”, que age de maneira mais impulsiva e às vezes legisla em causa própria, criando coincidências amorosas para si mesmo.

Mas a criatividade do autor não para por ai. Além de Criadores de Coincidências, descobrimos que existem “pessoas” que trabalham como Amigos Imaginários, um trabalho bastante triste, e também como Iniciadores, um trabalho que deve ser bastante gratificante.

Muita maluquice? Sim, mas é o que torna esta estória em algo tão original.

Existe um filme chamado Agentes do Destino com o Matt Damon que tem uma premissa parecida, mas aqui a viagem é maior. É preciso abrir sua cabeça e ter paciência para embarcar neste mundo proposto pelo autor.

Confesso que a sinopse e as resenhas são melhores que o livro, que parte de ótimas ideias, mas que se perde um pouco na execução das mesmas. Parece que faltou um toque de editor para aparar algumas arestas. O autor muitas vezes segue por estórias paralelas que nos tiram a atenção do principal, apesar de que se revermos a obra no final, veremos que tudo que foi citado teve um porque, mas poderia ter sido mais fácil.

Outro ponto que a meu ver prejudica a leitura é a narrativa muito entrecortada. Durante grande parte do livro é como se o autor não engatasse a segunda marcha. A maioria dos capítulos começa e demoramos a perceber quem são os personagens e em que tempo estão realizando tal ação. Grande parte do livro parece que vai acontecer algo grandioso e este momento nunca chega. O que deveria nos deixar curioso acaba nos cansando e fazendo que deixemos de nos preocupar com os personagens principais.

Mas lá para o final todas as pontas soltas vão se direcionando para um único foco: A Grande Coincidência. E então percebemos o quão difícil é o trabalho para se criar uma Coincidência.

Difícil não dizer que o autor pensou muito antes de bolar esta estória. Assim, como Emily, deve ter montado um esquema em muitas paredes para não se perder.

Por fim, um ponto muito positivo do livro são as diversas frases de efeito que o autor vai colocando no texto e que nos fazem pensar sobre nossa vida. O que é previsível e o que depende de nosso esforço para existir.

 

É impossível amar alguém que faz e diz tudo o que você quer, que responde a cada um de seus pensamentos ocultos. Eu era só uma extensão deles próprios. E que tipo de amor é esse? O amor deriva do atrito entre duas pessoas. Como fósforos, como patins no gelo, como estrelas cadentes que arranham o céu, nós precisamos do atrito para que alguma coisa aconteça em nossa vida.

A leitura deste livro não foi tudo o que eu esperava, mas acho que vale a pena dar uma chance a ele pela sua originalidade e acredito que daria um ótimo roteiro de filme para o Christopher Nolan escrever e filmar. Quem sabe, né?

Você acha que foi uma coincidência você ter encontrado e lido este texto aqui neste site? Não tenho tanta certeza disso.

A diferença é simples: pessoas felizes olham suas vidas e veem uma série de escolhas. Pessoas infelizes veem apenas uma série de sacrifícios.

O livro foi publicado este ano no Brasil pela Editora Planeta. Yoav Blum, o autor, é israelense, tem 39 anos e esteve na Bienal de São Paulo de 2018. Este é seu primeiro romance.

 

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