Um ano depois de sua publicação, em 1957, A erva amarga ganhou o prêmio Ferdinand Bordewijk de melhor livro holandês; desde então, tem sido regularmente reeditado e traduzido para diversos idiomas.

O livro, lançado pela Record, tem a estrutura em forma de crônicas, narra o cotidiano de uma jovem de origem judaica, anônima, durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não se trata de literatura de guerra. É antes um documento pessoal sobre as experiências da autora na sobrevivência diária em uma época de opressão. Porém, Marga Minco poupa o leitor das atrocidades da ocupação. A sobriedade da narrativa (a palavra “nazista” sequer é mencionada) e os diálogos curtos apenas sugerem os ecos da guerra.

A preocupação com detalhes desvia o pensamento dos fatos mais graves. Ao mesmo tempo, são estes mesmos detalhes — uma luva infantil caída no chão, ruas interditadas — que revelam o desenrolar da ocupação alemã. É também através deles que percebemos a atitude da “maioria silenciosa” da população holandesa. Em maio de 1940, a Holanda foi invadida inesperadamente por tropas alemãs. Após cinco dias de combate, capitulou. Seguiram-se cinco anos de terror. A perseguição aos judeus, que na Alemanha começara em 1933, se inicia, então, na Holanda. Os mais prudentes procuram esconderijos ou partem para outros países. Sem acreditar na gravidade da situação, a família da autora fica. Vemos então a série de artifícios que os judeus são obrigados a utilizar a fim de não serem identificados. As portas que se fecham. A dificuldade de encontrar um lugar para se esconder.

A autora se refere a esses acontecimentos de forma indireta. A guerra parece ser apenas um incidente incômodo. O otimismo indestrutível do pai da autora impede-o de tomar providências a respeito da situação. Os guetos da Polônia estão longe, são histórias que se passam em outros países.

É inevitável um paralelo com a história de Anne Frank, porém os dois relatos são bem diversos. Enquanto a família de Anne opta pela clandestinidade, os pais de Marga Minco não procuram esconderijo. No entanto, de acordo com as estimativas, dos 140.000 judeus que viviam na Holanda em 1940 — a maioria em Amsterdã —, quase 102.000 não sobreviveram.

A erva amarga nunca cessa de comover. Os leitores também hão de ficar tocados e indignados com este breve relato corajoso, delicado e intenso e, ao mesmo tempo, repleto de uma tensão que cresce a cada capítulo. “Quis dizer o máximo com o mínimo de palavras”, confessou Marga Minco numa entrevista.

TRECHO:

Naquela noite, deitada na cama sem conseguir dormir, eu pensava nas portas. Pensava na porta que, na noite do Sêder, eu sempre deixava aberta para que algum estranho que chegasse cansado pudesse ver que era bem-vindo e que podia se sentar à mesa. Todos os anos eu esperava que alguém entrasse, mas isso nunca aconteceu. E pensei nas perguntas que eu, como a mais jovem, deveria formular: “Má nishtaná, haláyla, hazê...” “Por que esta noite é diferente de todas as noites? Nas outras noites nós não comemos pão ázimo e ervas amargas…”

Então, meu pai narrava a história do êxodo do Egito e nós comíamos o pão ázimo e a erva amarga para que continuássemos a prová-la —até o fim dos tempos.

Marga Minco é o pseudônimo da jornalista e escritora Sara Menco (1920) Nascida em Ginneken, na Holanda, Minco era estagiária do Bredasche Courant, quando, em 1940, foi demitida pela diretoria do jornal, que simpatizava com a causa alemã. Ao longo da Segunda Guerra Mundial, seus irmãos e seus pais foram levados pelo Exército, e ela sobreviveu na clandestinidade, sendo a única sobrevivente de sua família.

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