Um brasileiro premiado com o Nobel?

Com essa premissa acima, Jacques Fux constrói romance em que questiona, com humor, o meio literário e defende a criação e a loucura literária. Lançamento será no dia 10 de abril, no auditório da CEMIG, em Minas, durante o evento Sempre um Papo, de Afonso Borges.

Finalmente aconteceu. Após anos de protestos, apelos e polêmicas, após uma infinidade de escolhas questionáveis ou francamente equivocadas, a Academia Sueca finalmente colocou a cabeça no lugar e agraciou o escritor mineiro Jacques Fux com o Nobel de Literatura – ao menos para efeitos de ficção. Esta é, pois, a premissa do formidável e divertidíssimo Nobel, quarto romance do vencedor (agora, sim, de verdade) do Prêmio São Paulo de Literatura (muito mais importante do que o Nobel, diga-se de passagem).

O que o novo livro nos traz é a antiterapia perfeita para os dois lados de uma mesma moeda (ou neurose): o comércio com fantasmas que constitui a atividade criativa e o diálogo de surdos que contamina o meio literário. A distinção é importante porque Nobel não é um ataque à literatura, mas, sim, a algumas coisas que ela traz a reboque: o networking desavergonhado, a pose muitas vezes ridícula e as manias dos escritores, as farpas e socos trocados entre os pares, as indiscrições, as pequenas, médias e grandes canalhices, a pseudoerudição e por aí afora.

Diante da Academia Sueca, o galardoado Fux digressiona não sobre o “patamar sacralizado e quase inatingível” dos usualmente celebrados em eventos como o Nobel, mas sobre os desvios, os “atos indecorosos” e os “recalques obscenos, sórdidos”. No decorrer do discurso que constitui o romance, ele relembra, recria e, em alguns casos, corrompe histórias envolvendo autores como Kafka, Canetti, Sartre, Hemingway, Kawabata, Mishima, Walcott, Coetzee, Vargas Llosa e outros.

Com isso, ao mesmo tempo em que sacaneia a pompa e a circunstância incorporadas pela premiação máxima, Fux inadvertidamente enseja uma defesa da criação e da loucura literárias, do humor e, claro, do humano em toda a sua belíssima sordidez – ou sórdida beleza, tanto faz. Nobel é, em suma, um hilário elogio da imaginação.

TRECHO:

“Se a função da arte é desvelar a alma, eu vos ofereço seu âmago. Todos que algum dia escreveram um livro sonharam com este instante de glória. Não há dúvida de que qualquer escritor, inclusive os de internet, tem certeza de possuir um dom extraordinário e sagrado.”

SOBRE O AUTOR

Jacques Fux venceu o Prêmio São Paulo de Literatura de 2013 com o livro Antiterapias. É doutor e pós-doutor em Literatura Comparada e um matemático apaixonado. Autor de Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o Oulipo (Prêmio Capes de Melhor Tese do Brasil de Letras/Linguística) e Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor e Meshugá: um romance sobre a loucura. Foi pesquisador visitante na Universidade de Harvard e escritor residente na Ledig House, em Nova York

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