Rebobinando – Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands)

     Salve,
multiversistas de plantão!
Enorme satisfação poder estar escrevendo mais uma
vez para vocês, depois de um período ausente. Hoje dei um tempo na coluna
Levando a Série (que volta amanhã) para dar meu toque pessoal também no
Rebobinando, sua coluna de filmes clássicos. Hoje tentarei relembrá-los do
super transmitido e retransmitido (e transmitido mais um pouquinho) Edward Mãos
de Tesoura
, longa que marcou toda uma geração de telespectadores da sessão de
filmes clássicos direcionados ao período vespertino (tudo isso pra evitar o
jabá gratuito). Boa leitura.

Edward
Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands)

         Eis
um filme curioso e paradoxal. Trata-se de um filme daqueles que são de natureza
simples, singela, beirando o “bobo”, mas que ao mesmo tempo conseguem envolver
o espectador e acima de tudo, transmitir as mais variáveis sensações e
mensagens para quem está assistindo. Considero um dos filmes mais interessantes
justamente por conta disso. Mas vamos lá.
    Edward
Scissorhands
na tradução original, é um longa lançado originalmente nos Estados
Unidos em 1990, e trazido para terras tupiniquins um ano depois (sim, estamos
ficando velhos). Como dito no início deste post, o longa é um dos recordistas
em reprises na televisão; se você é da mesma geração que eu e também curtia
assistir uns filminhos naquela época onde não tínhamos preocupação nenhuma,
você também cansou de ver esse filme. Ocorre que a vida como sempre fez sua
mágica, e hoje não lembro nem quando foi a última vez que assisti algum longa
na tv, muito menos a última vez que assisti nosso amigo Edward (tive até que
pesquisar pra lembrar algumas coisas).
      Trata-se
do primeiro grande trabalho de um ator mais ou menos aí chamado Johnny Depp,
juntamente com um dos primeiros trabalhos de um diretor meia boca chamado Tim
Burton
. Isso mesmo, amigo multiversista, o filme foi o primeiro trabalho em
conjunto das feras, que combinaram tão harmonicamente que se seguiu uma série
de trabalhos em conjunto dos dois, que são grandes amigos na vida real, como:
Sleepy Hollow, A Fantástica Fábrica de Chocolate, Alice no País das Maravilhas
e Sombras da Noite, só para citar alguns. A partir disso já dá pra sentir o
nível da parada.
         No
enredo, Edward é uma invenção de um sujeito que morreu antes de terminar sua
obra, no melhor estilo Frankenstein. O que não foi concluído em Edward?
Exatamente o que você pensou, as mãos, substituídas pelo quê? Acertou de novo,
tesouras. Na condição de uma invenção, Edward passou um bom tempinho sozinho em
uma mansão sombria, até receber a visita de uma vendedora de cosméticos que se
apiedou de sua situação, e o levou para morar com ela. Acontece que Edward,
apesar de tudo, tem sentimentos, o que se revelou um fator determinante para o
coração mole da dona. 

      Surgem
então, as figuras de outros personagens, notavelmente a filha da senhora, Kim,
por quem Edward se apaixona; e seu namorado, o mau-caráter Jim, que por motivos
óbvios é o primeiro a odiar Edward. Jim então, arma pra Edward, fazendo com que
toda a vizinhança passe a também repudiar o personagem.
     A
partir daí, então, o filme passa a ser previsível. Edward vai preso por engano;
apenas Kim acredita nele; ela percebe que começa a gostar dele; ele volta pra
mansão por estar cansado de tanta confusão; Kim corre atrás dele, o que
desperta a ira de Jim; os dois brigam na mansão; Jim cai de uma grande altura e
morre; e os dois pombinhos ficam juntos no final. Como falei, bem simples, bem
singelo. O interessante acontece quando pensamos sobre o que o filme simboliza.

     Quem acompanha mais de perto as carreiras de Depp e Burton
já percebeu há bastante tempo que os dois não são de realizar coisas
convencionais. Depp, por exemplo, possui na maior parte de seu currículo
personagens extravagantes. Jack Sparrow, Chapeleiro Maluco, Tonto, Willy Wonka
e outras estão aí para provar. Edward também não foge à regra. Sua maquiagem
demorava duas horas para ser feita, por exemplo. Além disso, temos o fato de
que durante o filme todo, Edward não fala mais que aproximadamente 170
palavras. A título de comparação, somente nesse post você já leu 4 vezes mais.
Coisas de Depp.
     Já
Tim Burton, tem o costume de gostar de fazer mais que filmes. Você pode amar o
cara, você pode odiar o cara, mas não pode negar que na maior parte de seus
trabalhos, ainda que nas entrelinhas, estejam críticas ao modo de viver, ao status quo do ser humano. Basta atentar
ao fato de que cada um daqueles personagens exemplificados acima possuem uma
natureza deslocada, não são convencionais à realidade em que vivemos. Edward é
o personagem que mostra isso da maneira mais nítida possível.
     Literalmente
uma invenção, Edward simboliza com esse fato ser uma pessoa que não se encaixa
em nenhum dos âmbitos sociais, ainda que de maneira exagerada. O cara não tem
família, não tem amigos, absolutamente nenhum relacionamento até uma simpática
dona bater em sua casa. Ainda assim, isso não impede que ele não tenha
sentimentos, nem de ser uma pessoa dotada de extremos níveis de pureza, mas na
mesma proporção, tristeza. Tenho certeza que se você puxar um pouco da memória
vai encontrar um “Edward” na sua vida. Pra falar a verdade, não duvido que
exista algum leitor do Multiverso News que se sinta exatamente assim.
     O grande X da questão está no fato de que todos esses
personagens criados por Burton e interpretados brilhantemente por Depp
encontram-se à margem da sociedade, não porque quiseram, mas sim porque tiveram
que assumir essa condição. Edward não pediu pra ser criado, não faz mal a
ninguém, mas pelo simples fato de ser diferente do padrão que dita as regras do
certo e do errado, passa a ser discriminado por toda a sua vida. Em tempos de
redes sociais, que estão cada vez mais reproduzindo fielmente a ignorância e hipocrisia
do mundo real, estas questões ficam ainda mais evidenciadas.
   As perguntas que ficam então são: quem será que está
realmente deturpando os valores? Para onde a sociedade irá se continuar agindo
de tal maneira? Como reverter tal situação? Sinta-se à vontade para comentar,
caro leitor, afinal, grandes filmes servem justamente para nos fazer pensar. Sugestões,
como sempre, serão muito bem-vindas. Um abraço, e até a próxima. 

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