Editora Record lança biografia de Capanema, o ministro da Educação que estruturou o MEC

Ele chegou ao Ministério da Educação num momento de grande conflagração política. Um novo grupo chegava ao poder com o discurso do novo, tendo como um dos discursos combater o comunismo. Para tal tarefa contavam com o apoio da Igreja, que consegue emplacar um modelo de educativo capaz de fazer frente ao pragmatismo. O descritivo acima corresponde à chegada do advogado mineiro Gustavo Capanema Filho ao comando do Ministério da Educação e Saúde, no governo Vargas. O político, que ganhara projeção nacional à frente da Secretaria de Interior do governo de Olegário Maciel, em Minas Gerais, ascende à posição de interlocutor privilegiado dos mineiros com o governo instaurado por Getúlio Vargas. Depois de ser cotado para assumir como interventor do Estado, Capanema é nomeado Ministro da Educação e Saúde, em substituição ao conterrâneo e seu ex-professor, Francisco Campos. As idas e vindas deste momento de mudança de paradigma no país estão ricamente descritas em Capanema – A história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou controlar o poder e sobreviveu à Era Vargas, de Fábio Silvestre Cardoso.

O biógrafo mergulhou à fundo no acervo de documentos, anotações e textos do acervo Gustavo Capanema, da Fundação Getúlio Vargas, e dissecou o livro de memórias do irmão de Capanema para traçar um perfil surpreendente do mais longevo Ministro da Educação – permaneceu no cargo por pouco mais de uma década, entre 1934 e 1945. Fã do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, Capanema foi um exímio articulador. Atraiu o apoio tanto da Igreja Católica, que foi determinante na sua escolha em detrimento à de Anísio Teixeira, quanto de intelectuais comunistas, que eram próximos de seu chefe de gabinete, o poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade. Drummond e Capanema eram amigos de colégio e frequentavam em Belo Horizonte a icônica Rua da Bahia. O livro narra ainda a relação com Alceu Amoroso Lima, fiador de sua gestão junto à Igreja, com Heitor Villa Lobos e outros expoentes da cultura nacional, como Graciliano Ramos.

Nome importante para desvendar as motivações, a agenda e a natureza daqueles que buscam ocupar um espaço no poder, é reconhecido pela sua gestão à frente do Ministério da Educação e Saúde, quando estruturou políticas públicas de grande relevância para as duas áreas e também para o patrimônio cultural – durante sua gestão é criado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sua influência política permaneceu mesmo com o fim da Era Vargas. No segundo governo do político gaúcho, foi líder da maioria na Câmara. No governo JK, teve uma breve passagem como presidente do Tribunal de Contas da União. Até 1979, ano de sua morte, o biografado teve atuação política destacada no país.

“As anotações de Capanema deixam claro que o seu apoio no tocante à derrubada de João Goulart se fazia necessário, ainda que significasse romper com o regime institucional. Afora isso, não existem outras considerações que justifiquem ou mesmo apresentem quais foram os motivos para que o político mineiro adotasse essa posição”, relata o autor no capítulo Capanema escolhe o caos. “Considerar que pudesse ser diretamente beneficiado com a decisão é, de certa forma, ignorar que o próprio Capanema havia participado em mais de uma vez de movimentos que ofereceram alternativas constitucionais para impasses do poder executivo. Fosse em 1955, fosse em 1961, Capanema esteve sempre em favor das alterativas legais e conciliatórias quanto à vida pública nacional. Ao mesmo tempo, é importante considerar que existe uma espécie de denominador comum na jornada de Gustavo Capanema. Como político, ele sempre esteve ao lado dos vencedores; por natureza, ele preferia a reforma em vez da revolução, mas seu faro político sabia identificar para onde o vento estava soprando”.

Alguns dos momentos mais marcantes da vida de Gustavo Capanema Filho são retratados em imagens que integram o encarte de Capanema. Na orelha, o filósofo e historiador Antonio Paim afirma: “Fábio Silvestre Cardoso não se furta a examinar a questão que parecia ser o objetivo central da nomeação de Capanema para o Ministério: a cooptação dos intelectuais para a adesão ao Estado Novo”.

O AUTOR
Fábio Silvestre Cardoso é jornalista, doutor em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo e mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Foi colaborador do Rascunho, do Jornal do Brasil, da revista Dicta&Contradicta e editor-assistente do Digestivo Cultural. Vive em São Paulo.

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