Nosso adeus ao mítico Zé do Caixão, ícone do terror latino-americano

Barba, unhas compridas e cartola. O criador e criatura, José Mojica Marins, uma autêntica instituição histórica no Brasil e objeto de culto no resto do mundo, morreu aos 83 anos. Com sua mistura explosiva de horror clássico e espontaneidade natural, o Zé do Caixão, deixou nosso mundo em busca, agora, da escuridão perpétua.

Conhecido em toda a América Latina como Zé do Caixão, onde era uma estrela, e nos Estados Unidos como Coffin Joe, o criador/personagem no restante do mundo seus filmes estão em um estado desconhecido. José Mojica Marins era, acima de tudo, um personagem em si mesmo, de aspecto e presença como o Mandrake dos quadrinhos, um humorista controverso, misterioso e com gosto pelo macabro mais purista. Com sua cartola, sua capa sobre o terno preto, o medalhão e o anel, era a imagem definitiva do coveiro. Imagem à qual deu uma vantagem graças à barba e suas unhas absolutamente desproporcionais. Uma vida dada à causa do terror.

Seu personagem nasceu, segundo o próprio, de um pesadelo no qual um vulto o arrastava até seu próprio túmulo. Acordou gritando, assustado e decidiu fazer daquele momento sua carreira. Mojica nasceu em 1936, filho de imigrantes espanhóis, seu pai era um ex-toureiro que aqui se tornou um gerente de uma sala de cinema. E ali o filho assistiu Chaplin, Lon Chaney, Karloff, as produções da Universal dos anos 1930-1940, e ali da cabine de projeção, conheceu o cinema, mesmo sendo quase todos proibidos para crianças. O fantasioso formava parte de sua rotina, e o cinema o formou, dos 12 aos 15 anos, roda entre amigos com uma Câmera V-8, mais de quinze filmes artesanais de gêneros diversos. Autodidata, montou uma escola de interpretação para a vizinhança quando tinha 17 anos, depois de vários filmes amadores, fundou com ajuda de amigos, a Companhia Cinematográfica Atlas.

Os anos 1940 o moldaram a criar seu primeiro longa metragem, Sentença de Deus (1955), para mostrar a hipocrisia dos religiosos, mas o projeto ficou inacabado, após uma série de situações trágicas com o elenco e produção. Uma atriz morreu afogada numa piscina. A substituta sucumbiu a tuberculose. A terceira foi atropelada por um acidente de trem e perdeu uma perna. Algo rondava as filmagens e o cineasta fazia troça disso tudo. Sua outra tentativa, No Auge do Desespero, um furacão destruiu o set, não deixoando finalizar as filmagens. Após vários anos de tentativas, José Mojica Marins finalmente conseguiu finalizar um projeto A Sina do Aventureiro (1958), um western, um faroeste caboclo, de vingança, com cenas sangrentas.

Antes de encontrar seu verdadeiro caminho, fez um título mais social, Meu Destino em Tuas Mãos, retratando cinco jovens em um reformatório. As tragédias familiares são apresentadas pelo cineasta com requintes de maldade, temperados por aquele neo-realismo involuntário das produções sem dinheiro. Ao mesmo tempo, tentou seguir adiante com projetos mais pessoais, um sobre a febre do rock n’roll e outro, sobre a ira da geração jovem, mas ninguém confiava em um diretor que acumulava fracassos

Surge a figura da morte, o Zé do Caixão

Os anos 1960 trouxeram a vingança do insucesso dos anos passados. Em 1964 apresenta o  projeto de À Meia-Noite Levarei Sua Alma. O tomaram como louco, um filme de terror brasileiro não era possível. O próprio cineasta interpretou o Zé do Caixão, pois nenhum ator se interessaria.  Um personagem amoral e niilista que se considera superior aos outros e os exploras para atender seus objetivos. Zé do Caixão é um descrente obsessivo, uma personagem humana, que não crê em Deus ou no diabo.


Apesar dos problemas com a censura, o filme chegou aos cinemas e causou sensação pelo estilo imperfeito, mas também a sua atmosfera sombria, personagens e os diálogos encantadoramente macabros. No Brasil ocorreu o mesmo com os filmes de Herschell Gordon Lewis nos Estados Unidos. Ambos eram considerados cineastas maravilhosos, apesar dos fracassos. No caso de José Mojica Marins compararam com Luis Buñuel pelo surrealismo e por sua crítica religiosa. No caso deste filme que encheu as salas de cinema e enriqueceu as distribuidoras, o resultado foi somente pessoal. .

As origens do cine gore

Seguro do impacto do seu personagem, José Mojica Marins passou três anos para trazê-lo de volta, sem antes não considerar seu regresso ao purgatório enfrentando o Bem e o Mal. Não era a ideia mais louca, já que Encarnação tratava enviava o personagem ao limbo para que ele ascendesse por uma fossa. O faroeste O Diabo de Vila Velha (1965) pagou suas dívidas, que o preparou para o regresso do Zé. O produtor Augusto Pereira que não financiou o primeiro filme propõe a Mojica Marins um contrato de exclusividade para execução de cinco filmes com o seu personagem. (Essa noite encarnarei no teu cadáver, A encarnação do Demônio, O lamento dos espíritos errantes, O sepulcro do Diabo e O Discípulo de Satanás).

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), continuação de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, o funesto agente funerário precisava conseguir fertilizar a mulher perfeita. Para isso sequestra jovens, aos quais submete a testes, mas a maioria são jogadas em um poço cheio de serpentes. As filmagens duraram 3 meses, com um orçamento melhor, o cineasta trouxe a volúpia, o horror, o sadismo, a violência em um grau maior, questionando padrões estéticos. Foi o único filme que saiu do contrato que fez com Augusto Pereira.

Em 1968, lança O Estranho Mundo de Zé do Caixão, com roteiro de Rubens Francisco Lucchetti, chegando a televisão com o programa Além, Muito Além do Além na Bandeirantes (1967-68), como também aos quadrinhos. Foi alvo da Censura pelo Ritual dos Sádicos (1969) que só seria liberado em 1983. Mas o seu surrealismo e psicodelismo atraiu jovens cineastas do cinema moderno brasileiro.

Mojica passava por dificuldades para tocar seus projetos e começa a atuar em filmes de outros cineastas. Participa de O Cangaceiro sem Deus, de Oswaldo de Oliveira e O Profeta da Fome, de Maurice Capovilla e dirige filmes por encomenda, variando pelo horror hore, sexo explicito e contracultura pelos anos 1970 e 1980. Nesse período, também se alia ao movimento Boca do Lixo, em produções de gêneros diversos, rápidas, baratas e sob encomenda. Seus filmes eram marcados pelo sexo, uso de drogas, violências e rituais macabros, nada era limite para o cineasta que, naquele período do regime militar foi censurado, recolhido e perseguido, o que levou a falta de recursos, à pobreza e às pornochanchadas.

Durante a década de 1990 ao apresentar o Cine Trash e ao ganhar o reconhecimento em circuitos cinéfilos nos Estados Unidos, inicia uma nova fase na carreira, voltando à cena. Mojica teve seus títulos lançados na Europa e nos Estados Unidos, onde participou de mostras, festivais e recebendo prêmios.

Em 2008, com Encarnação do Demônio, pôs fim a uma década de abstinência ressuscitando seu personagem, no terceiro filme do Zé do Caixão. Um roteiro antigo, atualizado, onde Zé recupera sua liberdade depois de passar 30 anos aprisionado e continua a busca da mulher perfeita.  Um verdadeiro festival de atrocidades, no melhor estilo horror contemporâneo, que ganha uma versão jovem, interpretada por Raymond Castile, um fã dos EUA.

José Mojica Marins nunca teve a intenção de renunciar a seu personagem. Após se recuperar de problemas cardíacos em 2014, anunciou seu regresso ao projeto Mosquitoid, uma comédia onde um mosquito gigante de outra galáxia transforma moradores de uma cidade brasileira em zumbis. E o Zé do Caixão enfrentaria a criatura. Mas os problemas de saúde se acentuam e se tornou figura especial em diversos festivais e momentos do cinema e da cultura pop.

Aos 83 anos, Mojica deixou essa realidade, mas sua carreira, seu personagem estão além da morte carnal, mas imortais em uma vida dedicada ao que amava: o cinema e o terror.

 

ANÚNCIO

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here