Gotham, uma reinvenção bem-sucedida da mitologia de Batman

É com a voz de Duda Ribeiro que o protagonista da hilária LEGO Batman: O Filme afirma que o Super-Homem pode ser o campeão das animações de super-heróis, mas quem manda bem, que é a cara da DC na mídia mainstream é o Cavaleiro das Trevas. Paradoxalmente, sua presença na TV através de adaptações live action é muito mais concisa do que a do Homem de Aço, embora o impacto da série de Adam West não tenha sido esquecido.

A produção da Warner Bros. Television, Gotham, mesmo sem ter uma referência direta além do cinema e das animações, se coloca como um projeto interessante ou pelo menos curioso. Ao repensar as raízes do universo e mitologia do Batman, a série lida bem com esse cenário, mesmo que o personagem icônico só apareça de uniforme e tudo na quinta e última temporada.

Analisaremos a série por inteiro, após o seu final ano passado, sem contextualizar cada temporada. Por aqui, passava no Warner Channel e na Globo, além de já está no catálogo da Netflix. Foram 100 episódios apresentando o cotidiano e a evolução dos principais personagens do universo criado por ‎Bill Finger‎ e ‎Bob Kane em 1940 para a DC Comics.

Como um prelúdio para o que conhecemos das histórias de Batman, Gotham segue o jovem James “Jim” Gordon, ainda como um detetive do Departamento de Polícia de Gotham City (GCPD). O futuro Comissário Gordon é o fio condutor de toda a série, apresentando muitos dos conhecidos personagens do universo do Homem-Morcego. O criador de Roma (HBO) e O Mentalista (CBS), Bruno Heller, é o roteirista da série, agora sob a tutela da FOX. Heller conduz a audiência para uma revisão da mitologia e ao périplo do jovem Bruce Wayne para se tornar o cruzado mascarado da cidade. E trabalha muito bem o cenário que está em suas mãos, sombrio e sujo, violento, melancólico, uma cidade tão corrupta, má, interessada e criminosa quanto Gotham, e com tão pouco desejo de mudar

Inspiração no Ano 1 de Miller e Mazzucchelli

O episódio piloto apresentado não deixa dúvidas, estamos naquela uma Gotham extremamente corrupta, no enorme contraste social que David Mazzucchelli retratou em Batman Ano Um, um dos trabalhos mais aclamados de Frank Miller, foi a inspiração para desenvolver os elementos essenciais e traçar o itinerário da série. E temos o jovem Jim Godon (Ben McKenzie) iniciando seu trabalho com Harvey Bullock (Donal Logue), seu parceiro que perto de aposentar, se acomoda com a atual situação da cidade, que se envolvem no centro da mitologia que gera o fundamento para o surgimento do Homem-Morcego, a morte de Thomas e Martha Wayne. Gordon decide se envolver no misterioso assassinato de duas das pessoas mais influentes da cidade, prometendo ao filho sobrevivente e o único herdeiro de 12 anos que acharia a pessoa responsável pelo crime.

Gradualmente, os elementos da série evoluem, por exemplo, o parceiro de Jim, Bullock, que fica melhor construído do que a versão de Miller, e a originalidade é adicionada a uma  história que foi construída e reconstruída várias vezes, sempre deixando o germe da justiça (os mascarados) em um contexto estratégico enquanto nos aprofundamos na complexa infraestrutura social de Gotham e o equilíbrio que torna o crime organizado, como o nome sugere, organizado.

O mecanismo de Gotham é a evolução dos personagens que já conhecemos

A primeira temporada apresenta muito bem os personagens e mesmo que alguns sejam meta-humanos explora uma realidade mais possível, onde a ciência é a responsável pelos super-poderes. E de fato não veremos efeitos especiais como nas séries do canal CW, The Flash, Supergirl ou Legends of Tomorrow. Oferecendo uma textura mais policial, os 22 episódios foram bem recebidos, onde o motor é a evolução dos personagens que já conhecemos, como no caso de Edward Nygma, o futuro Charada (Cory Michael Smith) começa como um cientista forense na delegacia de Gotham, ou de um Oswald Cobblepot, O Pinguim (Robin Lord Taylor) como um mero delator.

Outro aspecto é a introdução de novos elementos, como a Fish Mooney de Jada Pinkett Smith, que se encaixa perfeitamente nesse universo, servindo para dar ritmo e posicionar os demais personagens na trama, tornando-se uma antagonista importante que em outros meios não teria a presença e o peso que merecia.

Gordon é o fio condutor de todos os eventos, uma decisão arriscada e diferente, pois raramente foi usado como protagonista em outras adaptações. A primeira temporada o apresenta como o último homem honesto da cidade e temos ainda o Bruce Wayne de David Mazouz, que não fica cego pela raiva e não se afoga na obsessão de se tornar uma máquina impulsionada por vingança ou por algum tipo de redenção, ele é um adolescente que tem que descobrir a si mesmo e ao mundo ao seu redor e uma das características menos explorada do cruzado mascarado: o de um detetive engenhoso, como o Sherlock Holmes de O Enigma da Pirâmide.

Outro destaque é Sean Pertwee como Alfred Pennyworth, que melhora em muito a imagem que tínhamos do mordomo de Wayne, desde Michael Caine. O Alfred de Gotham é um ex-mariner de cabelos grisalhos, mas de meia idade, e que adota posturas mais ativas do que o tradicional nos acostumou.

A partir da segunda temporada temos a predisposição dos arcos narrativos dos quadrinhos para dar início e fim a série e manter uma qualidade narrativa. De inicio, a introdução e evolução dos vilões, sob os “Nascer dos Vilões” e “Fúria dos Vilões“. A terceira temporada aborda as consequências do surgimento dos vilões, com os arcos “Cidade Louca” e “Nascimento dos Heróis“. “A Noite Escura“ para o quarto ano, pegando referências de Terra de Ninguém, Ano Zero e Ano Um; e  “Lenda do Cavaleiro das Trevas“ para o último.  Tudo para moldar a mitologia dos arquiinimigos de Batman, e levando o tempo necessário para a transição para terem corpo e significado e com certeza Gotham tira proveito dessa enorme vantagem.

E assim, ao longo da série temos o Sr. Frío (Nathan Darrow), o Duas Caras (Nicholas D’Agosto), o Chapeleiro Louco (Benedict Samuel), o Cara-de-barro (Brian McManamon), uma Hera Venenosa (Clare Foley/Maggie Geha /Peyton List) totalmente reimaginada e que floresce estupendamente de episódio a episódio, Solomon Grundy (Drew Powell), o Bane (Shane West), Victor Zsasz (Anthony Carrigan), o Espantalho (Charlie Tahan / David Thompson) além de um Jerome Valeska que resiste a se identificado como o Coringa (Cameron Monaghan, que nos presenteia com sua atuação), vão tomando posições, caindo, ressurgindo e até ressuscitando movidos pela cobiça, a vingança e a loucura; provando que a morte e o Asilo Arkham são meros recursos narrativos para manter certos personagens afastados enquanto outra série de tramas secundárias se desenrola.

E gradualmente temos o surgimento de elementos mais complexos, como a Corte das Corujas e, como era de esperar, Ra’s Al Ghul (Alexander Siddig) aparece para converter Bruce Wayne. E a relação de Bruce com uma Selina ‘Cat’ Kyle (Camren Bicondova) destinada a se tornar na Mulher-Gato, que além de mostrar a cara mais amarga dos cidadãos de Gotham, desperta essa típica relação entre adolescentes que é puro fanservice para espectador.

Backgrounds que formarão o elo futuro entre o Comissário Gordon e o Batman e que chegou a última temporada consolidada. As quatro temporadas colaboram para o amadurecimento dos personagens e após 88 episódios, temos 12 capítulos que foca na jornada por uma Gotham livre de corrupção. O detetive interpretado por McKenzie chega leve, maduro para o combate, mas perde um pouco o enfoque, pois o Wayne de Mazouz deixa de ser um garoto chato para um jovem que se responsabiliza por tudo que ocorre em Gotham.

A interpretação do elenco chega ao final mostrando um crescimento absurdo. Donal Logue e Camren Bicondova, são dois monstros, o primeiro como o braço direito de Gordon e à Kyle, uma girl power de personalidade. Os atores que interpretam o Pinguim e o Charada são geniais, seus personagens são cômicos e sádicos e caminham aos maníacos que se tornariam.

Os brilhantes Robin Lord Taylor e Cory Michael Smith em seus vilões.

Acompanhamos Gordon e todos os demais personagens nesses cem episódios, numa série que tinha tudo para dá errado, uma Gotham sem Batman, mas que combina todo a mitologia do Home Morcego e ambiciona em ser uma narrativa atraente. Não é perfeita tecnicamente falando, mas que possui uma boa trilha sonora, uma fotografia e um design de produção ímpares, pontuada entre altos e baixos, aspecto comum em séries de TV.  Que se manteve interessante e termina em seu maior acerto, o fim de uma narrativa sobre uma, ou melhor, a mais importante cidade fictícia dos quadrinhos e inicia a jornada do Morcego às sombras… E a série serviu ao seu propósito. Tornou uma cidade insana e deu à luz um Batman na escuridão, mais do que tudo, durante cinco temporadas, Gotham provou que você não precisa do Batman para se tornar uma das melhores histórias de Batman já contadas.

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