Entrevista com Octavio Aragão

Olá, pessoal! O Mundo Hype traz mais uma entrevista, agora com o designer gráfico, professor universitário e escritor carioca Octavio Aragão, onde tratamos sobre seu trabalho, literatura, quadrinhos e outros assuntos.

1. Octávio, pode se apresentar para o Mundo Hype?

R: Octavio Aragão, designer gráfico formado pela Escola de Belas Artes UFRJ, em 1987, quando os dinossauros andavam sobre a Terra. Hoje, desde 2007, sou doutor em Artes Visuais, professor da Escola de Comunicação da mesma UFRJ, responsável pela cadeira de Jornalismo Gráfico, depois de ter trabalhado por mais de vinte anos na minha área, tanto no meu estúdio Cia do Design, quanto como freela ou contratado de empresas como os jornais O Globo e O Dia, onde fui coordenador e subeditor de arte, ou a editora Ediouro, onde fui editor de arte de revistas de informática. Também sou casado com a Luciana, pai do gui e do Pedro, com dez e 16 anos, respectivamente.

2. Quando você decidiu enveredar na Literatura?

R: Sempre fui metido a contar histórias. Ainda guardo minhas redações do ensino médio e fundamental, acredita? Algumas delas foram reescritas até virarem contos, mas publicar mesmo, de verdade, profissionalmente, só em 1998, com o conto Eu Matei Paolo Rossi, na antologia Outras Copas, Outros Mundos, da extinta editora Ano Luz. Eu havia sido convidado pelo escritor Fábio Fernandes a tentar alguma coisa sobre futebol e ficção científica para essa antologia e, em cinco dias, foi o que saiu. Gosto de realçar que fui pago por essa primeira publicação. Isso é digno de nota porque me deu a impressão — equivocada, até certo ponto — que seria possível ganhar um trocado e essa foi uma das molas propulsoras. Não que eu precisasse, mas foi importante ter essa noção.

3. Já são mais de vinte anos escrevendo, como escritor profissional, fale um pouco sobre seus trabalhos.

R: Tenho tremenda dificuldade em me considerar “escritor”. Explico os motivos: nunca estudei literatura a sério, com método. Sempre fui um diletante. Nunca fiz curso superior relacionado à escrita e sou muito criterioso quanto a isso. Sou um designer porque estudei desde muito cedo para tal. Estruturei minha vida em cima desse conceito e dessa vontade. Escrever, assim como o rock’n roll há alguns anos, era algo que eu queria fazer, mas não de maneira oficial. Queria escrever histórias sem o “peso” do profissionalismo. Logo, ser considerado um “escritor profissional”, hoje, me espanta e me atemoriza, pois escritores “de verdade” têm um compromisso com sua produção. Geralmente, escrevo porque gosto de contar algumas histórias e a forma, a preocupação com estilo, a busca por “le bon mot”, é uma novidade em minha vida. Só agora, depois do terceiro romance publicado, começo a perceber que também gosto de cultivar a forma. Consequentemente, tenho produzido menos que na época em que não ligava para as minudências estilísticas. Cada romance demora, na média, de seis a oito anos em produção. A Mão Que Cria (Mercuryo, 2006) — que hoje tenho dificuldades em reler — tem 180 páginas, mas foi publicado inicialmente como um folhetim, no site Hiperfan, por bons dois ou três anos. Comecei a escrever A Mão Que Pune-1890 (Caligari, 2018) em 2008, mas só consegui terminar e publicar suas 210 páginas dez anos depois, veja só! Enquanto estava enredado com AMQP-1890, escrevi outro folhetim, publicado em meu blog pessoal, que virou meu segundo romance publicado, Reis de Todos os Mundos Possíveis (Draco, 2013). Isso sem contar a antologia Intempol (Ano Luz, 2000), da qual muito me orgulho, que iniciou aquele que geralmente se considera o primeiro “universo compartilhado” da ficção científica brasileira e os álbuns em quadrinhos, Para Tudo se Acabar na Quarta-feira (Draco, 2011), em parceria com Manoel Ricardo, e o atual Psicopompo (Caligari, 2020), dividindo os créditos com Carlos Hollanda. Então, resumindo, desde 1998, quando publiquei o primeiro conto, tenho uma antologia organizada por mim, três romances e dois álbuns em quadrinhos, sem contar participações em mais de dez antologias literárias no Brasil, em Portugal, nos EUA, na Inglaterra, no México, na Argentina e em revistas como a Cult, os artigos acadêmicos e os trabalhos em design, como capas de livros. É uma carreira razoável, creio, mas ainda me incomoda assumir o título de “escritor profissional”.

4.Quem foram/são suas influências?

R: A pergunta onipresente… bom, a primeira influência — ou seja, aquela que me fez pensar “quero escrever igual a esse cara” — foi Edgar Allan Poe. Passei boa parte da adolescência rascunhando textos sobre histórias de obsessão inspiradas em Ligeia e Os Dentes de Berenice. Depois veio Bradbury, ainda uma influência forte, principalmente o livro O Homem Ilustrado. Depois, lá pelo final da adolescência, veio Stephen King. Mas sempre misturei as “popices” com os clássicos, então dá para “ouvir” nos meus temas ecos de Dickens, com destaque para David Copperfield, que li umas duas ou três vezes, e, depois de velho, Dostoiévski e Flaubert. Sempre recomendo Madame Bovary a todos os aspirantes a escritor que conheço. Eles fazem cara feia, mas não deveriam. É uma aula de composição, construção e condução. Machado de Assis também descobri depois de adulto, graças a Deus, pois a maturidade me fez aproveitar melhor cada linha. Adoro Brás Cubas. Ah, para coroar, Érico Veríssimo, cujo Tempo e o Vento sedimentou minha fome por grandes sagas.

5. Fale de seu universo literário e seus livros, em especial A mão que cria e A mão que pune.

R: Em primeiro lugar, deixa eu falar de meu “tema”. Meu tema principal, creio que único, é a Morte. Aquela Morte, com M caixa alta, extra bold, corpo 300. Todas as minhas histórias são sobre Ela. Todas, porque é o encontro que não quero realizar, então venho me preparando para isso desde muito cedo. Isto posto, vamos às históriasi: as de Intempol (os contos Eu Matei Paolo Rossi, Um Museu de Velhas Novidades, Para Tudo se Acabar na Quarta-feira e uma última, escrita com diversos autores, chamada O Olho do Cavalo Morto) fecham um “ciclo”, uma narrativa quase fechada na qual construo o universo e apresento minha visão da empresa de segurança temporal com ares bem brasileiros, ou seja, corrupta, canalha e manipuladora. Essas histórias, se lidas em conjunto, diferem um pouco daquelas dos outros escritores que trabalharam nesse cenário, mas também não as rejeitam. Ainda há uma quinta história, Até Que Enfim é Sexta-feira, que é um roteiro para o Manoel Ricardo desenhar uma continuação da HQ baseada em Para Tudo se Acabar na Quarta-feira, mas essa está longe de ser realizada. São histórias às vezes engraçadas onde pessoas comuns têm a oportunidade de fazer coisas extraordinárias, mas geralmente optam pelas ações mais banais, para não dizer mesquinhas.

Há uma trinca de contos, com dois publicados em antologias distintas (Lâminas Cruzadas, presente no livro Vinte Voltas ao Redor do Sol, e Mar de Lama, na antologia Nas Prateleiras de Babel) e um ainda inédito (O Lamento dos Mortos), nos quais narro como seria a gênese de “super-heróis” no Brasil. Lâminas Cruzadas apresenta o Cruzeiro do Sul, um tipo de Zorro que atua na Guerra do Paraguai, atacando soldados platinos e da Aliança, vestindo um uniforme combinado das roupas de todos os países envolvidos na escaramuça. Mar de Lama é sobre o Operário Padrão, um sujeito de bom coração que salva pessoas de enchentes no Rio de Janeiro dos anos 50 e acaba virando, inadvertidamente, garoto-propaganda de Getúlio Vargas. Sobre o último não posso falar muito, mas adianto que se passa durante a guerrilha do Araguaia e fecha a trinca, citando os outros dois. Talvez um dia eu reúna as três histórias tristes e desesperançadas em um só livro, vamos ver.

Os romances A Mão Que Cria e A Mão Que Pune – 1890 são duas partes de uma trilogia, que deverá se encerrar em 2022 ou além, com A Mão Que Pune – 2022. Os três romances contam a história do mundo caso Júlio Verne tivesse se tornado presidente da França em 1888 e transformado Paris em um pólo tecnológico, chamando todos os cientistas “loucos” de seu tempo para desenvolverem projetos por lá. A Mão Que Cria se passa em muitos tempos diferentes, é um romance curto, quase uma novela, no qual tento mostrar o antes, o durante e o depois dos fatos no século 19. Já A Mão Que Pune – 1890, como o título informa, é todo situado no século 19, para a tranquilidade dos leitores que preferem uma narrativa linear, mas mostra um pouco do cenário brasileiro na época. Há um conto chamado A Fazenda-Relógio, que também faz parte dessa série e pode ser encontrado na Amazon. O último volume, que terá a responsabilidade de dar seguimento a um livro que foi agraciado com o prêmio Argos de Melhor Romance de 2018, vai dar conta dos fatos situados no futuro desse universo (que conta com mortos-vivos, homens-peixe e maravilhosas máquinas voadoras) o nosso “presente”.

6. Fale um pouco sobre seu trabalho com quadrinhos.

R: Tenho apenas dois álbuns como roteirista: Para Tudo se Acabar na Quarta-feira e o recém-lançado Psicopompo. Quadrinhos foram o motivo que me fizeram escolher a Escola de Belas Artes como “casa acadêmica”, mas por percalços do destino acabei demorando demais para encarar um projeto pessoal nessa área. Agora, porém, depois de Psicopompo, está nos meus planos fazer um álbum sozinho, escrevendo e desenhando, de cabo a rabo. Só não sei ainda qual história contar, mas isso a gente descobre, até porque meu interesse nas HQ é, ao contrário da literatura de ficção científica, a forma. O que me fascina é “como” contar a história lançando mão dos recursos únicos dessa mídia em especial. Para Psicopompo, por exemplo, criei uma estrutura diagramática que remete ao processo respiratório do leitor, ampliando e reduzindo o número de quadros em cada par de páginas (como? Ah, só lendo para descobrir). São esse “jogos estruturais” que me fascinam, então podem esperar por mais coisas nesse sentido.

7. Qual a sua visão para o atual cenário da literatura? E a literatura fantástica?

R: O cenário da literatura? Não faço ideia, mas me incomoda um pouco o excesso de narrativas umbigocêntricas que locupletaram as livrarias nos últimos anos. É raro a gente ver mais livros como Areia nos Dentes, do Xerxenesky, ou Homens Elegantes, do Samir Machado, fazendo o sucesso que merecem. Celebro o sucesso deles, mas lamento por todos os outros que têm uma produção sensacional e que não conseguem quebrar a barreira de preconceito que existe contra qualquer gênero que não seja o que se costuma creditar como “naturalismo”. Mas as coisas, creio, estão mudando. Quem sabe o que pode acontecer depois da COVID 19, o que se convencionou chamar de “o novo normal”? Talvez o império do naturalismo se desfaça… naturalmente. E aí, já que o cenário fantástico se tornou o novo “real”, com distopias correndo soltas e pandemias matando todos, talvez o “naturalismo” se naturalize. O irreal virando o real do avesso, com uma arte surreal? Torço por isso.

08. Quais são os seus projetos mais atuais?

R: Neste momento, acabamos de lançar Psicopompo, e está à venda! É uma HQ que levou bons seis anos “in the making”, mas que pode ser lida em alguns minutos. Conta a história de dois grupos de meninos em um Rio de Janeiro “atemporal” que disputam um campinho de futebol, mas cuja rivalidade pode provocar uma crise cósmica. Gosto de considerar Psicopompo como Realismo Mágico, mesmo que não tenha muito a ver com Gabriel Garcia Marquez, mas talvez seja a denominação que melhor combina com a HQ, principalmente pelos traços e as crenças do Carlos Hollanda.
Também, enquanto lido com as funções acadêmicas — porque não parei de trabalhar durante a pandemia — escrevo meu quarto romance, a space opera Metalandragem. Imagine que a Terra morra, mas que, num ato insano, a humanidade parta em uma viagem incerta para novos planetas escolhidos aleatoriamente, um para cada nação. Naves geracionais partem da Terra antes do holocausto, levando em seu bojo culturas sob o risco da extinção. Algumas naves não conseguem completar a viagem, mas a dos brasileiros, sim, e, uma vez no planeta inóspito que lhes coube, eles têm de se adequar. Cada Estado do Brasil vira um país, cada cidade, um Estado. Metalandragem conta a história dessa nova sociedade pós-brasileira no planeta Veracruz e como a História tende a se repetir, não apenas como farsa, mas também como tragédia. Metalandragem é uma continuação que pode ser lida de maneira independente de Rainha das Estrelas – Dias de Sangue na Área Vermelha, noveleta publicada na antologia Space Opera II (Draco, 2012).

09. Em relação a outros autores, o que anda lendo?

R: Neste momento, estou em combate com o Ulisses, de James Joyce. É indigesto, mas vamos ver quem vence. Em quadrinhos, estou lendo de tudo um pouco, de Retalhos, romance “auto-bio-gráfico” de 600 páginas, de Craig Thompson, até a FC setentista pulp de Deathlock, de Rick Buckler, passando por Teocrasília, a distopia teofascista de Denis Mello, e um monte de Tex. A proverbial pilha de livros para ler não é mais uma pilha, são Torres Gêmeas.

10. Grato, Octávio. Algumas dicas para quem está começando em escrever.

R: Ah, dicas. A principal delas é “jamais aceite dicas”. A segunda e a terceira vêm do design e servem para tudo na vida: “menos é mais” e “forma e função”. “Menos é mais” é auto-explicativa. Se sua história pode ser contada em um tweet, pra que uma tetralogia de mais de mil páginas? É literatura, não RPG, OK? “Forma e função” significa que se sua inspiração é o cinema, vá fazer um filme, não um livro. Se sua fonte primária são as HQ, vá aprender a desenhar. Só se disponha a escrever um livro quando o que você tiver a contar só possa ser contado em formato de livro, porque tudo na vida, inclusive a própria vida, é projeto. A quarta e última dica é óbvia: esqueça tudo que falei e faça o que bem entender. Quem sou eu para dar conselhos?

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Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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