Entrevista com Jean Gabriel Álamo

2020 está aí e entre tantas novidades, o Mundo Hype abre sua seção de entrevistas com o escritor e revisor mineiro Jean Gabriel Álamo, um cara bastante solícito e bem humorado, mesmo com a situação preocupante dos dias atuais frente a cultura. Segue nossa primeira entrevista do ano:

01. Jean, pode se apresentar para o Mundo Hype?

Primeiramente, quero agradecer pela oportunidade de aparecer aqui e dizer que sou um fã do site. Bom, meu nome é Jean Gabriel Álamo, nasci em 1993 e, a partir daí, pode-se dizer que minha vida seguiu por diferentes caminhos ao mesmo tempo até convergirem para o escritor que sou hoje e para o que produzo em matéria de arte.
Talvez muitos leitores do site nunca tenham ouvido falar de mim, talvez outros me conheçam pelas pesquisas independentes no campo da Linguística, talvez me conheçam pelo ativismo político, talvez tenham lido algum livro meu de Ficção Científica ou alguma história de Fantasia Urbana ou Terror, talvez tenham sido ajudadas pelo grupo hacktivista gerido por mim que combatia pedofilia e neonazistas, talvez tenham sido colegas de faculdade ou sejam clientes dos serviços de revisão e diagramação que presto para outros autores.
E acredito que essa forma de dizer quem pode ou não me conhecer, e como, já diz um pouco sobre mim.

02. Voltando um pouco lá atrás, quando foi que você olhou para um texto e disse: “É isso mesmo o que quero fazer, vou ser escritor”?

Era 2002, e, como todo garoto da minha geração que assistiu a O Senhor dos Anéis, eu fiquei fascinado.
Meu pai, com quem eu não me dava bem, já me colocava para trabalhar numa videolocadora nessa época (o que configurava em trabalho infantil, caso esteja atento às datas nessa entrevista), e eu usava o tempo livre para assistir a filmes diversos e ler um pouco de tudo (de tudo mesmo, indo de Contos de Grimm e revistas de super-heróis a edições da Playboy, passando por histórias de Sherlock Holmes a biografias e livros do Casseta & Planeta).
Mas eu estava embasbacado com o filme O Senhor dos Anéis.
E, tendo gosto pela Literatura, resolvi adquirir a trilogia. Eu não estava com vontade de esperar anos para saber o fim da história.
Acredito que todo este processo tenha contribuído para que, durante a leitura, eu tenha ficado insatisfeito em ser um mero consumidor.
Com nove anos de idade, aquelas páginas que desfilavam diante dos meus olhos eram hipnóticas, mágicas, possuíam algo que me suscitava coisas que eu desconhecia.
Naquele momento, tudo o que eu consumia em matéria de filmes, revistas e livros acabou convergindo para uma vontade de criar algo que fosse tão interessante e original quanto aquelas páginas escritas por Tolkien.
Então pode ser dito que Tolkien foi o culpado por eu escrever hoje, mas teve cúmplices.

03. Quem foram/são suas influências?

Embora eu tenha me descoberto como escritor enquanto lia Tolkien, eu queria fazer algo que fosse meu, que estivesse mais alinhado à minha forma de ver o mundo e de me comunicar com ele. Quem mais me influenciou na forma de narrar foram os autores Dan Brown e Tibor Moricz. Em matéria de roteiro, as influências se dividem entre Philip K. Dick, Gabriel Tennyson, José Roberto Vieira, Cixin Liu, Garth Ennis, Lu Ain Zaila, Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Filosoficamente, sou igualmente dividido entre Pierre Lévy e Nietzsche.

04. Quando iniciou a escrever histórias com esse viés fantástico?

Em 2005, aos 12 anos.

05. Qual a sua visão para o atual cenário da literatura? E a literatura fantástica?

A literatura nacional sempre teve um setor editorial problemático e agora tem um setor livreiro ainda pior.
Isso, juntamente com as plataformas digitais e crescimento do alcance pessoal com as redes sociais, teve como consequência inevitável a autopublicação de escritores no país.
Estatísticas dizem que o brasileiro tem adquirido menos livros, mas quem está realmente inserido no meio independente, como eu, que foco em revisar e diagramar livros de autores deste segmento, percebo um aumento exponencial. E diversos autores têm se saído particularmente bem por aí.
O problema com as estatísticas é que elas não levam em conta autores independentes, que frequentemente têm levado aos leitores livros mais atraentes enquanto produtos do que grandes editoras, que têm medo de apostar em livros nacionais.
Paralelamente, percebo um crescimento imenso da literatura fantástica no país. O autor Enéias Tavares já identificou que o Brasil hoje vive um movimento literário identificado como Fantasismo, caracterizado não só por elementos da literatura fantástica em diversas obras, mas também uma alta produção da própria.
E embora muitos autores da literatura fantástica constantemente reclamem que as editoras pouco investem no gênero (e agora pode ser que eu seja bastante polêmico), a verdade é que, proporcionalmente, as editoras apostam bastante nestes segmentos, se compararmos com o quanto apostam em outros países.
Explico:
As editoras não costumam investir no autor nacional em si. Mas, dentre aqueles nos quais investe, a maioria esmagadora escreve literatura erótica ou fantástica (alguns chegam a misturar as duas coisas).

06. Fale de seu universo literário e seus livros?

Entre 2005 e 2017, eu me dediquei à organização de um universo literário que englobasse Ficção Científica, Fantasia e Terror.
Queria algo cujas obras funcionassem de forma totalmente independente, mas que contassem uma história maior no plano de fundo que não fosse imediatamente percebida por quem fosse ler apenas uma, duas ou três obras.
Quando escrevo Ficção Científica, quero apresentar algo passível de ser possível, algo que faça pensar e cause estranheza dentro de certa familiaridade. Ao escrever Fantasia Urbana, sou mais despretensioso e gosto de levar o leitor por caminhos que sejam tão divertidos quanto pareçam possíveis. No Terror, sempre que algum monstro aparece, recorro à origem da palavra, sendo o significado de “monstro” algo como “aquilo que revela”, e, portanto, tal figura aparece sempre como uma forma de mostrar o pior lado do ser humano ou da sociedade.
O universo em questão começou a ser apresentado em 2017 com o livro Poder Absoluto, do subgênero Cyberpunk, que ganhou uma segunda edição impressa pela editora Quimera Produções Literárias agora em 2019. Depois disso, publiquei Androides Não São Perfeitos e o conto Sob os Domos de Aço, ambos do mesmo gênero.
Depois passei a me aventurar em Romance Planetário, Nowpunk, Terror, Horror Cósmico e agora, com a série de histórias do Feiticeiro de Aluguel, tenho me aventurado na Fantasia Urbana.

07. Sobre narrativas gráficas/quadrinhos, já trabalhou ou tem vontade de roteirizar algum livro seu ou participar de uma obra nesse gênero?

Nunca participei, mas morro de vontade.
Um dos meus sonhos é criar um vigilante que seria um funcionário de banco conservador durante o dia, mas, ao dormir, uma outra personalidade assumiria, e ele viraria Ritchkellen, uma travesti toda montada no estilo RuPaul’s Drag Race que caçaria criminosos pelas ruas, tendo como vilões políticos com discurso de ódio, células neonazistas e redes incels.

08. Quais são os seus projetos mais atuais?

Atualmente, estou trabalhando nas histórias do Feiticeiro de Aluguel, e a próxima terá o subtítulo A Serviço de Exu. Também estou fazendo algo inédito no Steampunk, que é tratá-lo sob a ótica da Hard Sci-Fi (ou seja, respeitando o cientificamente e historicamente plausível), num livro que se chamará Armadura Mecânica.
Ao mesmo tempo, estou escrevendo também Predador Urbano, um livro de Nowpunk passado na distopia do presente momento em que vivemos.
Além disso, vou lançar nos próximos dias uma antologia independente de Terror chamada Infeliz Natal, junto a outros autores.

09. Em relação a outros autores, o que anda lendo?

No momento, trabalhando com revisão, diagramação e leitura crítica de diferentes autores. Quando sobra tempo, leio artigos e pesquisas acadêmicas para as histórias que estou produzindo. Tem sido um período atarefado, sem muita leitura para lazer, infelizmente. Mas, por outro lado, meu trabalho me deixa em contato com romances e contos de diferentes gêneros, o que é ótimo.

10. Grato, Jean. Algumas dicas para quem está começando em escrever.

Há três dicas que quero dar.
A primeira é:
Você dificilmente vai gostar das coisas que escreve e provavelmente será o pior crítico que encontrará ao longo da vida. E se você for pessimista e crítico demais para acreditar em minhas palavras, lembre-se da célebre frase sobre arte: “Nada é tão ruim, que alguém, do outro lado do planeta, não vá gostar”. E, estranhamente, no dia em que você gostar de algo que escreveu, é muito provável que a obra esteja péssima, já que passou pelo senso crítico do autor, que deveria reconhecer melhor do que ninguém todas as falhas e problemas ali presentes. Ser escritor é um ofício ingrato mesmo, acostume-se.
A segunda é:
Sempre que você se sentir frustrado, seja por ter descoberto que a editora que parecia um sonho é um pesadelo, seja porque a sua estratégia de marketing não deu certo e você não vendeu nada (falando nisso, estude o básico a respeito num desses cursos onlines de graça, você vai precisar), seja porque a crítica meteu o pau ou porque levou golpe de algum espertalhão (o meio literário está cheio, fique esperto), pense da seguinte forma:
Você já aprendeu quais caminhos são errados. Agora, vai ficar mais fácil acertar. Não desista. Todo artista tem algo a dizer, e você certamente tem algo relevante para acrescentar à arte.
Por último:
Escritor no Brasil ganha mal. Mas a maioria esmagadora ganha menos do que mal porque não sabe escolher profissionais de edição (leitores críticos, revisores, diagramadores e capistas) e principalmente por não saber vender o peixe. Faça uma pesquisa, procure indicações de ótimos profissionais (alguns, como eu, são bem baratos) e aprenda o básico sobre marketing digital. Um mundo de possibilidades e portas irá se abrir diante dos seus olhos.

Grato, amigo, pelas palavras. Todos nós do Mundo Hype agradecemos.

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