Darwin Cooke e a narrativa gráfica crime/policial de Parker

Do criador de A Nova Fronteira, a adaptação para quadrinhos dos famosos romances de Richard Stark, Parker, é um trabalho de enorme calibre de Darwyn Cooke. A leitura dos 4 volumes que a Devir lançou foi a regra para o review, esperamos que gostem do artigo e que, para aqueles que não o conhecem, sirva de iniciação a esse maravilhoso trabalho.

                                                     Autor e a obra original                                              

Parker é um personagem criado por Donald E. Westlake, sob o pseudônimo de Richard Stark. É provável que muitos não os conheçam, uma vez que não são tão populares por aqui, mas nos EUA são muito e, em especial, pelo autor. Westlake foi um escritor muito prolífico, escrevendo mais de 100 romances, de 1959 até a época de sua morte, em 2008, e até outros mais que foram publicados postumamente. Escreveu em diversos gêneros, mas ficou renomado no policial.  Também escreveu roteiros pra o cinema, como Ele também cultivou sua paixão pelo cinema, escrevendo roteiros como Os Imorais (1990), de Stephen Frears, com o qual até recebeu uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado.

No entanto, sua série mais conhecida é Parker, com 24 livros, além de outros 4 focados em outro personagem do mesmo universo. Um ladrão astuto e violento, que sobrevive dando golpes quando fica sem dinheiro e faz tudo para alcançar seus objetivos, usando pessoas e vivendo uma vida dionisíaca. O personagem ganhou várias adaptações cinematográficas como À Queima-Roupa (Point Blank, 1968), dirigido por John Boorman, O troco (Payback,1999), estrelado por Mel Gibson, ou Parker (2013), estrelado por Jason Statham. Parker é um personagem que Hollywood gosta, mas a indústria não conseguiu  capturar a essência do personagem real e oferecer um produto digno. Além do mais, Westlake nunca permitiu que o nome do seu personagem fosse usado, o que já diz muito sobre essas obras e o bom senso do escritor. Há apenas uma exceção: as adaptações para os quadrinhos que Darwyn Cooke propôs pouco antes de sua morte.

                                                O artista das animações e HQs                                               

Darwyn Cooke (1952-2016) foi um artista canadense, conhecido por seu trabalho em animações diversas e nos quadrinhos. Começou sua carreira em 1985, para a DC Comics na Showcase, mas logo entrou para a produção que Bruce Timm iniciava, a de animações. E junto com ele e outros desenhistas e escritores como Paul Dini, trabalhou em séries como The New Batman Adventures, Batman Beyond e Superman: The Animated Series.

No final dos anos 1990, retorna para sua paixão, os quadrinhos. E inicia um outro grande estágio em sua vida profissional, realizando obras como Batman: Ego, Mulher-Gato: Crime Perfeito, DC: A Nova Fronteira, ou Before Watchmen: Minutemen, para a DC Comics. Após o sucesso de The New Frontier, decide iniciar um projeto pessoal, como amante do gênero policial, queria dar mais liberdade à sua influência noir. Apresentou a ideia para a IDW de adaptar os narrativas de Parker aos quadrinhos, cuidando do roteiro e do desenho. A editora aceitou a proposta, assinou um contrato de quatro anos para publicar quatro narrativas gráficas e entrou em contato com Donald E. Westlake

Infelizmente, Cooke não pôde trabalhar muito com Westlake, pois o escritor já estava em idade avançada e o artista canadense não queria incomodá-lo muito, e também sofria com um câncer, descoberto após iniciar o trabalho de adaptação. Westlake escreveu que “ficaria orgulhoso de usar seu nome na capa da graphic novel”. Em 2009, sai o Caçador, que adapta o primeiro romance estrelado por Parker, e nos anos seguintes saem: a Organização, o Golpe e Jogo Mortal. Com essas adaptações, Cooke foi premiado com 4 Harvey e 7 Eisner que se somam ao que já possuía, totalizando 21 prêmios com outros já premiados, sendo provavelmente um dos artistas mais premiados neste concurso. Em 2016, os quadrinhos perdem a arte de Darwyn Cooke que não resistiu ao câncer em 2016 e, embora tenha assinado com a IDW por mais quatro anos, não terminando Butcher’s Moon, que ficou inacabado.

O primeiro volume, O Caçador (2009), a primeira das adaptações de Cooke, encontramos um Parker ferido, e traído pela mulher que ele amava e por seu amigo, companheiro de crimes. Deixado para morrer, começa assim uma vingança contra todos aqueles que o traíram. Estamos na Nova Iorque dos anos 1960, cenário comum na série literária e onde encontraremos todos os elementos típicos de um romance ou filme do gênero: balas, uísque, tabaco, crime, morte, sexo e uma femme fatale. Tudo isso, é claro, temperado com o tom sombrio desse gênero, onde Cooke aplica uma paleta de cores, que segue em todos os volumes, com um azul esverdeado aplicado quase na forma de aquarela. Embora pareça simples, o estilo de cor escolhido para essas obras é perfeito para a ocasião e imprime o tom necessário à história. A exceção fica no volume O Golpe, onde o tom laranja substitui o azulado, também devido à mudança de tom e narrativa.

Em suma, essa primeira história é uma vingança sem mais. Temos um Parker sem medidas, duro e frio, que não não hesita em matar quem é necessário para atingir seus objetivos, sejam eles, parceiros ou não. Mas segue regras, como evitar assassinatos inocentes e respeitar a distribuição dos despojos com seus companheiros de equipe após um golpe. Apesar de sua frieza, nesta primeira história ele desencadeia suas emoções, especialmente a raiva que o motiva a realizar sua vingança. Aqui não há críticas sociais, debates filosóficos ou dramas familiares, muito nicho de ação dos anos 1960.

Em a Organização (2010), temos a sequência direta do volume, onde Parker continua sua vingança desta vez em maior escala, enfrentando um grupo organizado de criminosos. Cooke está mais ousado aqui, onde a história começa da mesma forma, agora em Miami de 1963, iniciando com um quadro único, como nos demais volumes. Entretanto, a distribuição dos quadros, está mais complexa, irregular e sem uma estrutura fixa, alterando-a em cada página com base em seu interesse, combinando-a com páginas duplas de cenas de ação. Neste volume, há mais textos, onde o narrador onisciente apresenta a história, às vezes com um detalhe descritivo digno de um romance, talvez porque o enredo seja um pouco mais complexo, mais coisas aconteçam, mais personagens e o plano de Parker de realizar sua vingança seja um pouco mais elaborado.

Em o Golpe, o terceiro volume da série, Cooke se atreve mais ainda, inovando e experimentando em uma narrativa gráfica que ilustra um grande assalto que Parker participou. Num estilo como fosse um recorte de imprensa e “escrito” por Richard Stark, que varia ilustrações e textos simples, com um estilo artístico completamente diferente. Nesta mesma história, veremos também importantes personagens secundários, como o ladrão de boa índole Handy McKay ou o culto e atraente Alan Grofield, bem descritos, algo que não acontece tanto com as personagens femininas, principalmente com as conquistas de Parker, que, como crítica ao autor, segue um mesmo padrão, sexo.

O estilo de Cooke é reconhecível de cara, bem cartunista. Isso pode, a princípio, criar uma certa repulsa aos fãs mais exigentes do noir, já que é lógico pensar que é impossível ajustar esse estilo artístico a esse gênero. Mas, o resultado após as primeiras páginas é surpreendente, pois Cooke cria um verdadeiro novo estilo noir, segmentando as cores que já mencionamos, adicionando inteligentemente sombras, efeitos e sutilizas gráficas. Outra diferença que encontramos em relação às obras noir, é o ritmo, mais frenético e menos descontraído, as coisas acontecem constantemente, em geral, a leitura por ser em quadrinhos seja mais rápida.

Em O Golpe (2012) avançamos um ano e estamos em Jersey, onde Parker vai ao encontro com alguns amigos com um estranho que propõe um plano ambicioso: roubar uma cidade inteira. No começo parece loucura para Parker, mas aos poucos a ideia começa a ser estimulante, por causa do saque, e assim ele reúne uma dúzia de homens e eles se lançam para a cidade mineira de Copper Canyon. Aqui o roubo é o tema central da história, estruturado em quatro capítulos, como sempre, e com o respectivo cliffhanger do terceiro capítulo. Não podemos dizer que é o melhor, mas certamente é uma história divertida, no entanto, ainda é uma abordagem muito superficial, e para realmente conhecer o personagem, talvez tenhamos que entrar nos romances que estrelou, escritos por Westlake.


Com Jogo Mortal (2013), chegamos ao final do ciclo proposto inicialmente para a IDW. Uma história visivelmente mais curta que as anteriores, cinco anos após a anterior, em que Parker sofre um acidente de carro durante um assalto, deixa seus companheiros moribundos e foge com o espólio, escondendo-se em um parque de diversões abandonado.  Porém, policiais corruptos acordados com a máfia local vão caçá-lo e Parker, siente da situação, prepara armadilhas por todo o local, esperando seus inimigos.

Outra história bastante diferente, na qual Cooke volta ao tom azul esverdeado, e que, imita um livreto de um parque de diversões real, em algumas páginas, detalhando o seu plano  e o que virá acontecer na história. Este último volume também inclui o conto O Sétimo, onde temos Parker, vingativo e cruel que persegue um homem que estraga um assalto que planejou. Bem rápido, e em poucas páginas, resume o personagem e o enredo e os temas habituais da saga Parker.

                                              As edições brasileiras                                                        

A Devir é a editora que publicou as quatro narrativas gráficas de Parker no Brasil. A editora respeita as capas originais da edição de capa dura da IDW, bem como o formato menor do que os quadrinhos americanos comuns. A diferença com a edição original é que a IDW tem uma sobrecapa, simples e plana, como a de um romance antigo, mas com um pequeno símbolo da Parker por trás. Mas o formato de capa dura é bastante melhor, é, em essência, uma boa edição, embora, esse trabalho precise de um tamanho maior e uma edição integral.

Vale a pena está na sua biblioteca.

ANÚNCIO

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here