Crítica | Objetos Cortantes

* O texto pode conter alguns spoilers*

Desde que surgiu a notícia da adaptação de Sharp Objects (Leia nossa primeiras impressões) para a TV, sempre se mostrou um material difícil de se trabalhar. Produzida por Marti Noxon, que dirigiu e escreveu “O mínimo Para Viver” e produziu também outras séries como “Buffy” e “Mad Men”. Sharp objects chega ao fim mexendo com o jeito de se assistir série na HBO, se uma das grandes referências da emissora foi sempre inovar nas narrativas de suas séries, Sharp Objects consegue de uma maneira diferente chamar a atenção do público.

Durante toda a temporada acompanhamos Camille Preaker (Amy Adams) tentando de todas as maneiras sobreviver na cidade de Wind Gap e a sua família. Depois que duas crianças são assassinadas, Camille vê uma chance de enfrentar finalmente fantasmas de seu passado e acaba se envolvendo com o Detetive Richard Willis (Chris Messina), que está encarregado do caso. A mãe de Camille, Adora (Patricia Clarkson) tem uma obsessão em cuidar de sua filha Amma (Eliza Scanlen), que pode ser algo bem mais sério do que aparenta. Já Amma mostra uma maldade a todo momento atacando as pessoas ao seu redor.

Adora (Patricia Clarkson), Camille (Amy Adams) e Amma (Eliza Scanlen).

Dirigida por   Jean-Marc Vallée que depois do grande sucesso de Big Little Lies também dirigiu essa adaptação do Livro de Gillian Flynn (que também escreve o roteiro) e claramente vemos o total controle que ele tem sob a produção da HBO. O que mais chama atenção em seus oitos episódios são a forma que Jean-Marc dirige as cenas com takes contemplativos, às vezes perturbadores e faz um estudo do psicológico dos personagens, isso tudo através da edição e montagem e principalmente trilha sonora.

Todas a informações cruciais de Sharp objects estão nos detalhes, há dezenas de Easter Eggs durante os episódios, como as palavras que Camille tem riscada pela pele aparecem a todo momento seja perto da porta onde a menina é encontrada morta, onde está escrito “Yelp” (gritar) ou “Teeth” (dente) em uma árvore, ou em uma cena onde a Amma está andando de patins perto de um vagão de trem e as palavras vão mudando a cada take de “Wretched” (Desprezível), “Trash” (Lixo), “Nasty” (Desagradável), “Bitch” (Vadia), ”cry” (Chorar) e finalmente “Nag” (Importunar), tudo isso na perspectiva da Camille pois reflete a sua necessidade em se mutilar, no livro ela descreve como se ela  “sentisse as palavras se formando sob a pele”.

Palavras escondidas presentes em todos episódios.

Impressionante notar que ao invés de ir por um caminho mais simples colocando uma voz em off para que possamos entender o que o personagem da Amy Adams está sentindo, a produção opta por utilizar a edição como ferramenta e é um trabalho brilhante, em vários momentos temos alguns flashbacks e até alucinações sempre são usadas para contextualizar o que se passa pela cabeça da personagem e funciona muito bem.

A trilha sonora chama atenção e é quase uma personagem da série, Camille a todo momento está ouvindo músicas de sua escolha e isso deixa quase que parte da narrativa nas mãos da personagem, mas não se aplica somente a ela, o personagem de Henry Czerny  durante o final do sétimo episódio ouve  Down in the Willow Garden do The Everly Brothers que fala sobre um rapaz que mata uma jovem envenenada o que era exatamente o que Adora estava fazendo com Amma no andar de cima do casarão naquele momento.

Amy Adams em seu papel mais importante para a tv.

Todas as atuações em Sharp Objects são ótimas e é claro vale salientar as três mulheres principais da trama. Amy Adams mais uma vez entrega uma personagem cheia de camadas com uma dor e traumas tão grandes que é quase impossível não se comover com a sua atuação, que com toda a certeza merece estar nas premiações do ano que vem. Patricia Clarkson na pele de Adora também entrega uma personagem que é difícil de entender, mas que talvez precisasse de mais desenvolvimento porque é curiosa a personagem e, temos finalmente Eliza Scanlen de apenas 19 anos que entrega uma adolescente perturbada com claros sinais de psicopatia e sociopatia, a personagem tem uma crescente durante a temporada que é impressionante e muito inesperada.

Eliza Scanlen brilha como a Amma.

Sharp Objects brilha pelo seu ineditismo e sua forma tão original em se contar uma história e entrega um material excepcional de adaptação (Há cenas que são exatamente como no livro da Gillian Flynn e isso torna a experiência pra quem leu o livro ainda mais especial). Talvez a série não agrade a todos por seu ritmo desapressado e no seu foco na apatia das pessoas e não nas forças que elas têm.

O episódio final intitulado “Milk” (Leite), é extremamente bem dirigido e de alguma forma ele apresenta respostas sem diálogos expositivos, sem grandes cenas que chocam, o que nos choca e a relação de que cada personagem tem com a morte e de como a nossos traumas são passados de geração em geração. A série deixa os personagens principais com a dúvida se algo ruim que acontece vai te afetar pelo resto de sua vida, em um plot twist que é apresentado literalmente nos segundos finais. Sharp Objects é sem dúvidas nenhuma uma das melhores séries dramáticas do ano e umas das melhores já produzida pela HBO.

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