Crítica | Insatiable

Insatiable é de longe a série mais polêmica já criada pela Netflix, assim que seu trailer foi lançado, houveram duras críticas acusando a produção de gordofobia. Foi até aberto um abaixo assinado, que contou com mais de 240 mil assinaturas, para que o conteúdo não fosse disponibilizado em seu catálogo. A própria criadora Lauren Gussis (Dexter) e a protagonista da série Debby Ryan (Jessie) se pronunciaram sobre o assunto e pediram ao público paciência até a estreia, pois a série se mostraria muito mais que isso.

E então no dia 10 de agosto de 2018 Insatiable foi lançada sob o olhar de toda a internet, e assim conhecemos Patty Bladell (Debby Ryan), uma adolescente que durante todo o ensino fundamental sofreu bullying por ser acima do peso e que durante uma determinada situação acaba por levar um soco de um mendigo, tendo assim a sua mandíbula quebrada e sendo obrigada a fazer uma dieta líquida durante três meses, o que acaba acarretando em uma perda de peso absurda. Nesse cenário também conhecemos Bob Armstrong (Dallas Roberts de The Good Wife), advogado e pai de família tendo como sua verdadeira paixão ser preparador de concorrentes a miss, Bob acaba conhecendo Patty pois é ele o encarregado de defendê-la após o mendigo a processar por agressão.

Bob e Patty os protagonistas.

Logo nos primeiros episódios entendemos que a série tenta ser uma sátira ao estilo de vida norte-americano, mas que simplesmente não funciona. Desde o início vemos várias situações que deixam uma sensação de incredulidade, seja por piadas sobre gordofobia, pedofilia e assédio contra mulheres, esperamos que isso se justifique ou que pelo menos seja desconstruído no decorrer dos episódios, o que acaba não acontecendo. Ao invés disso, somos bombardeados o tempo inteiro com questões e discussões de temas polêmicos e que o roteiro simplesmente tenta  resolver com uma frase de efeito como “Ser magra não significa nada, se você é feia por dentro”, mas que são quase que imediatamente invalidadas pelas ações da personagem de Debby Ryan ou de qualquer outro.

Durante a metade da temporada ela mostra uma certa evolução no roteiro e uma boa intenção ao se discutir assuntos como o direito da mulher sobre seu corpo, aborto, fanatismo religioso e poliamor. O que chama a atenção também é a descoberta da sexualidade da personagem Nonnie (Kimmy Shields),  que tem um arco dramático interessante que se mostra mais carismática que a própria protagonista, contudo é deixada de lado no meio da temporada, temos um trabalho do personagem de Bob Armstrong  também nesse sentido. Há a volta de Alyssa Milano (Charmed) e Christopher Gorham (Popularidade) em papéis extremamente preconceituosos.

Reprodução Netflix

Tecnicamente a série não chama a atenção em nada, a montagem é confusa e o roteiro mais ainda, dando a impressão de que cada episódio foi escrito por pessoas diferentes e que não houve um diálogo entre os roteiristas. A série começa como uma comédia adolescente, no meio da temporada identificamos os dramas familiares e em seu final vemos algo mais sombrio e totalmente diferente do que a série se propunha no começo da temporada, e ao fim o que fica claro é de como a Patty é ambiciosa e quer ganhar a todo o custo.

Insatiable (Insaciável) tenta ser uma visão exagerada sobre o estilo de vida e sobre o padrão de família americana, levando seus personagens ao seu extremo para atingir seus objetivos, e se a série tenta em algum momento criticar a indústria da moda ou dos concursos de beleza por meio de sátiras, ela se perde totalmente com seus personagens e conteúdo intencionalmente ofensivos onde ouvimos frases chocantes como “Eu não sou asiática. Sou adotada” ou “Bissexuais são como demônios e aliens , não existem”.

Reprodução Netflix

Ao final da temporada, o que percebemos é uma completa  falta de tato com o roteiro. e por mais que a série tenha seu potencial, e tente acertar nos assuntos abordados, fica claro a falta de cuidado com o roteiro. Os temas que deveriam ser mais trabalhados, principalmente os que envolvem os distúrbios alimentares e a dupla personalidade que a personagem de Debby Ryan apresenta, no fim, a série só reforça estereótipos, e há vários gatilhos para pessoas que sofrem desses transtornos e que são sensíveis a esse conteúdo.

Em uma  época em que os discursos de auto aceitação, sobre a sexualidade, classes sociais, raças e a aceitação de transgêneros estão tão fortes na sociedade, Insatiable acaba, por mais que a sua intenção seja aparentemente boa, sendo um desserviço ao entretenimento.

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Mauricio Tavares
Um dia acordei e decidi ser EU ! Fim da estória. *Cinema *Séries *Livros

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