Crítica | Ben-Hur (2016)

A parábola do rei e do marceneiro

O Ben-Hur original é um daqueles filmes que exemplificam bem a época no qual estavam inseridos. Lançado em 1959, quando os épicos bíblicos eram o gênero que estava mais em voga, ele conseguiu conquistar os expectadores graças aos exageros tão comuns naquelas produções. O número de extras, cenários, figurinos e de takes da mitológica corrida de bigas o catapultaram como um dos maiores filmes de todos os tempos, se tornando o recordista de Oscars recebidos, principalmente pelo primor técnico com que foi realizado (ninguém nunca bateu as suas 11 estatuetas, apenas alcançado por Titanic e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, ambos igualmente maravilhosos tecnicamente).

Nos dias atuais este gênero começa a voltar aos holofotes graças às produções de Noé, de Darren Aranofsky e Êxodo: Deuses e Reis de Ridley Scott. Com uma pegada mais pop e muito menos reconhecimento crítico, coube ao russo Timur Bekmambetov comandar o remake de Ben-Hur. Fato é, que o diretor falha em alguns aspectos, mas é inegável que ele conseguiu fazer o que todo remake deseja: ser uma releitura minimamente interessante de sua obra-fonte.

O filme conta a história da rivalidade entre dois irmãos. Judah Ben-hur, o responsável por comandar Jerusalém em pleno domínio romano, e seu irmão adotivo Messala Severus. Enquanto o primeiro tenta a todo custo manter a paz entre judeus e seus dominadores, o segundo vira um centurião de renome. Após anos sem se verem seus caminhos se cruzam e culminam em uma acusação injusta de Ben-Hur por Messala, que acaba virando um escravo. É ai que ele começa a lutar por sua vingança.

O primeiro acerto do filme reside no excelente elenco. Embora nenhuma das atuações vá marcar época, ela é importante para segurar a onda no primeiro ato do filme, onde o diretor apanha feio do roteiro na tentativa de estabelecer os vilões e os mocinhos da trama. Uma escolha estranha de edição, que tenta encaixar uma cena da outra pra criar um sentimento de causa e efeito, bem como o uso do recurso de zoom in explícitos e de gravar cenas com a câmera na mão apenas para apresentar estes recursos para cenas futuras parece indicar que o filme todo foi mal gravado, mas então chega o segundo ato e Bekmambetov brilha.

Famoso por ter dirigido a adaptação de quadrinhos O Procurado, Timur mostra ao que veio nas cenas de ação. Uma delas, uma batalha naval, mostra todo o horror que um evento destes tem em seus tripulantes a partir de um ponto de vista pouco comum. Geralmente, em cenas de ação, os diretores preferem mostrar a grandiloquência da destruição, derrubando prédios e explodindo barcos para mostrar o quão perigoso é aquele evento. É isso que um filme épico geralmente faz. Timur grava esta cena em específica mostrando os efeitos da destruição no personagem principal e é nessa inversão de conceitos que o filme encontra seu lugar ao sol. A cena da corrida de bigas também empolga, mas neste momento o espetáculo ganha mais espaço, é a política do pão e circo, afinal.

O filme também conta uma sub-trama protagonizada por Jesus, interpretado por Rodrigo Santoro. Esta estrutura de roteiro, que mais tarde seria parodiada pelo Monty Python em a Vida de Brian, fica um pouco forçada, como se fosse o encontro dos dois caminhos o que tornaria o filme único. Preste atenção em todas as cenas em que isso acontece e veja como alguma das consequências parecem forçadas… É quase se saíssemos de um épico bíblico e estivéssemos assistindo a um especial de natal, com direito a céu que escurece repentinamente e outros milagres que quebram a aura mais pé no chão do resto do filme. Talvez, se estas cenas tivessem sido editadas com mais cautela e sem forçar tanto a mão para o lado Deus de Jesus, e mais no seu lado profeta, poderíamos estar diante de um marco para este retorno do gênero…

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