Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa chega aos cinemas anos depois de Esquadrão Suicida (2016) onde a Arlequina ascendeu para o mundo do entretenimento pela Warner/DC, mesmo depois da recepção decepcionante um consenso entre as críticas era de como Arlequina se destacava dentre os personagens e de quebra caiu nas graças do público e invadindo o mundo com produtos licenciados, e não demorou muito para que oficializasse a produção de um filme solo.

Eis que finalmente chega aos cinemas a aventura solo de nossa anti heroína, mesmo que originalmente a Arlequina não faça parte desse grupo, aqui temos uma Harley Quinn sem rumo e sem propósito após seu término com o Coringa, mas ainda sim, ela se aproveita das regalias, proteção e credibilidade que seu relacionamento com ele traz nas ruas de Gotham mesmo que o mesmo tenha sido o dos piores. Quando a situação muda, Harley Quinn decide trilhar seu próprio caminho e também seu lugar em Gotham, e isso tudo narrado pela própria Harley Quinn (novamente interpretada por Margot Robbie). Deste modo, invadimos o caos mental da anti heroína que nos conta a história de forma não linear e bastante violenta, por mais confusa e até mesmo o plot do filme demore a ser apresentado, em nenhum momento o filme deixa de entreter e de divertir. Margot Robbie se mostra ainda mais a vontade na pele da personagem e em nenhum momento ela se afasta da mesma mostrada no filme do Esquadrão.

Dirigido por Cathy Yan (Dead Pigs, 2018), que tem firmeza na direção, e elabora uma Gotham mais colorida, mais fashionista o que dá muita personalidade ao filme, as cenas de lutas que tiveram a contribuição de Chad Stahelski (John Wick), são bem dirigidas e coreografadas e cada uma das personagens tem seu próprio estilo de luta o que ajuda na construção dessas personagens.

Margot Robbie

Apesar de Aves De Rapina no nome o filme foca mais no arco de Harleen Quinzel desde sua infância até os dias atuais, o roteiro de Christina Hodson (Bumblebee, 2018) também consegue desenvolver bem as outras personagens mesmo que sem muito tempo de tela ao ligar todas ao vilão Roman Sionis (Ewan McGregor, Fargo – que se diverte muito no papel), Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) que tem um ótima química com todos que contracena e tem boas cenas de luta, Renee Montoya (Rosie Perez) que é claramente inspirada e o próprio roteiro brinca ao compará la com uma policial de filmes dos anos 90, A Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) que é surpreendente um alívio cômico muito bem usado na trama e uma das personagens mais interessantes do filme, e por fim temos Cassandra Cain (Ella Jay Basco) que é usada basicamente como um artifício para mover a trama.

Aves de Rapina reunidas.

O filme ainda usa da sua classificação – no Brasil 16 anos- para usar a violência até certo ponto mas não chega ao que Logan (2017) ou o próprio filme do Coringa (2019) fizeram, aqui a violência é dosada de forma sábia, entre uma tomada e outra de membros quebrando de formas que dão certa gastura há também armas que atiram glitter e uma trilha sonora com o melhor do pop dos últimos anos, o que torna a história ainda mais a cara da Arlequina. E, mesmo que isso se perca, no final fica a sensação de que o filme podia ser ainda mais lúdico e insano. Ao terceiro ato, quando finalmente as personagens estão juntas, a química e a dinâmica estão lá e a vontade de vê las juntas por mais tempo é inegável.

Importante notar que a produção é majoritariamente feminina, e isso atrás das telas também, já que a própria Margot Robbie é uma das produtoras, e por mais que o filme não seja panfletário, as situações em que mulheres se encontram todos os dias na vida real estão lá, e são bem dirigidas, e diferente de David Ayer, Cathy Yan em nenhum momento sexualiza a Arlequina ou qualquer outra personagem, e em uma cena de abuso ela foca apenas no rosto da personagem em questão em contraponto de outra personagem que se vê diretamente afetada, o que faz com que a cena se torne extremamente incômoda, e nos lembra que homens usam sua posição de poder para assediar ou tirar proveito de mulheres o tempo todo. E no confronto final a mensagem de sororidade fica ainda mais clara quando as personagens se unem para acabar com um bando de homens mascarados, o que funciona muito bem como uma alusão dessa luta real das mulheres em um ambiente extremamente predatório.

Aves de Rapina é um importante passo para a representação das mulheres no cinema de uma forma diferente e traz certo frescor ao gênero, o que vem acontecendo a passos curtos. Tivemos Mulher Maravilha e Capitã Marvel que nos mostraram que é possível sim retratar personagens complexas e sem aqueles estereótipos dos filmes do final dos anos 80 e começo dos anos 90, mas é importante lembrar também que a pressão de filmes com personagens fora dos padrões não precisem carregar tanta responsabilidade ao final das contas. O papel deles é primordialmente entreter e Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa faz isso de forma muito satisfatória e competente.

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