Crítica | Vingadores: Guerra Infinita

É possível colocar dezenas de personagem numa tela, num filme de quase três horas e tudo funcionar? É possível sim. Vingadores: Guerra Infinita é a prova de que um filme não precisa ser covarde para contar uma história onde amamos todos os personagens.

ESTE TEXTO PODE CONTER SPOILERS
(nada que vá interferir na sua experiência).

Vingadores: Guerra Infinita não espera sequer 10 minutos para arrasar as nossas expectativa. E se você espera encontrar um filme sem medo de limar personagens amados, este não é seu filme. Somos colocados dentro dos planos malignos e inescrupulosos de Thanos logo de cara. Toda a jornada de Thanos procurando suas joias é bem amarrada por pequenos fios que passam por núcleos de heróis vs. Núcleo de vilões.

Cada célula heroica tem uma função. Existe um grupo onde os Guardiões da Galáxia se unem a Thor, outro grupo onde Homem de Ferro, Homem Aranha e Doutor Estranho se unem com uma outra parte dos guardiões e o time que fica na terra liderado por Steve Rogers (nesse time temos Pantera Negra, Bucky e Maquina de Combate, por exemplo). Capitão América reaparece em uma cena de tirar o fôlego, com toda a pompa que o personagem merece no MCU — mesmo que durante o filme a carga dramática seja totalmente tirada dele e ele acaba se tornando um personagem muito mais de ação e menos coração, diferente do que a gente conhece, inclusive, com poucas linhas de diálogo e mais sede de briga do que o de costume.

Durante dez anos fomos apresentados aos personagens que aparecem em tela. Não há chance para as típicas reclamações de personagens rasos. Os que podem se encaixar nesse quesito são sumariamente descartados. E isso é feito a favor da história, não é algo que prejudique a narrativa, muito pelo contrário, é o que coloca a história para frente. Existem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Não existe folga para salvar o mundo de uma erradicação eminente e o filme transparece isso muito bem. Os sentimentos de urgência e perigo rondam todas as duas horas e quarenta em que você o assiste. Vez ou outra essa dinâmica – de troca de cenários – torna o filme cansativo.

No geral, o MCU, sempre foi pautado em bom humor e trabalho em equipe. Vingadores: Guerra Infinita é a síntese disso com uma dose altíssima de coragem e compreensão no que diz respeito ao fato de que mesmo heróis podem cair e sofrer sérias consequências. O humor pode incomodar pelo timing errado em alguns momentos – não haveria de ser diferente. Os alívios cômicos são os mesmo e às vezes soam como tapa buraco na ausência de algo mais inteligente a ser feito. O trabalho em equipe pode ser visto em várias cenas de lutas grandiosas e de tirar o fôlego, um team-up muito bem construído onde cada herói usa sua habilidade em conjunto com os outros. As cenas de luta em Wakanda são cheias de informação, mas isso não diminui o quão bonito aquele cenário é. Assim como a luta no planeta natal de Thanos.

Muito se reclama de cenas escuras e 3D eficiente em outras produções, em Vingadores: Guerra Infinita até os lugares onde, tecnicamente, deveriam ser escuros, a luta é clara e é possível enxergar o que acontece no cenário — o total oposto de Pantera Negra, por exemplo. O 3D não tem como ser dispensado, já que é raro encontrar sala de cinema sem, mas o 3D aqui proporciona alguns momentos legais.

Alguns personagens merecem ser destacados. Dois deles são Doutor Estranho e Thor (ainda vamos falar sobre Thanos). Ambos exibem suas grandezas e poderes de maneira tão energética que é fácil desejar que haja mais um filme do Thor se for o Thor desse filme a ser reprisado. De maneira mais abrangente, todos os personagens atingiram a maturidade narrativa dentro da história, até mesmo o Peter Parker de Tom Holland, ainda tão cru dentro do MCU. Personagens menos significativos são puxados para o centro da tela a todo momento e você sente que todo aquele espetáculo só tem um final. Vale uma menção honrosa à Feiticeira Escarlate que tem seu poder posto em jogo e seu relacionamento com Visão não beira o ridículo, em momento algum.

Thanos é a síntese de vilão. Sabemos o mal que ele pode causar, mas quando o vemos fragilizado, até desejamos que ele não sofra, mesmo que por uns segundos. O relacionamento dele com Gamora e Nebula é bem alinhado e é o que norteia boa parte da trama — sem parecer um novelão e Gamora se torna chave importante para todo o desenrolar da conquista de Thanos. Killmonger almejou o posto de maior vilão do MCU, mas esse lugar é de Thanos. Thanos sabe usar cada joia, não possui frases de efeito clichês e Josh Brolin não poderia estar melhor, com atuação que eleva a grandeza de Thanos, dando esse título ao Titã.

Os irmãos Russo conseguiram dar espaço para o drama, para a comédia, para o espetáculo visual e tudo isso somado ao carisma de todo o elenco que leva a bandeira do MCU nas costas desde 2008. Não poderia dar em outra coisa além de um filme cheio de acertos – com algumas ressalvas já citadas (incluir aqui aquele velho climão forçado de Natasha e Bruce Banner), uma aventura completamente inesperada. O filme inteiro é uma corrida por um bem maior, repleto de armadilhas e perdas. É completamente fácil esquecer filmes como Guerra Civil, por exemplo, que foi na direção totalmente oposta de Vingadores: Guerra Infinita, sendo um filme acanhado demais para o que poderia ter sido de fato.

O final do filme é devastador, mesmo com esse título de “inesperado” o final da trama até poderia ser imaginado, mas não com o peso com que foi apresentado. A cena pós créditos é um farol de esperanças e a introdução do ponto de virada do MCU, além da ligação entre este e o próximo filme. Não saia do cinema antes de ver essa cena.

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