Crítica | The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story

Se por um acaso você não conhece a história real: tem spoilers!

Ryan Murphy é visto como um megalomaníaco da TV americana, e na mesma proporção, um homem de mente muito singular. De sua cabeça saem séries que vão pela comédia, musical, drama, terror, suspense. Não há um área que ele ainda não tenha explorado na televisão. Talvez a ficção científica, mas ele — vez ou outra — acaba namorando esse estilo em suas produções, mesmo que minimamente. Recentemente ele descobriu que contar histórias conhecidas do grande público — às vezes nem tanto — poderia ser um bom negócio. FEUD, a primeira temporada de American Crime Story e agora a segunda desta antologia: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story.

Na primeira temporada, Murphy teve a missão de nos ilustrar o julgamento de O.J. Simpson pelo assassinato de sua ex-esposa. A primeira temporada foi executada tão bem que em seu ano, Sarah Paulson conseguiu alguns feitos inéditos para sua carreira de atriz e Murphy foi reconhecido como um exímio contador de histórias (há controvérsias). Pautado no sucesso do primeiro ano de American Crime Story, Murphy nos trouxe em 2018 a história do assassinato e do assassino de Gianni Versace, um ícone do fashionismo moderno que até os anos de hoje é reconhecido e sua marca se manteve em pé pelas mãos de sua irmã caçula. Donatella Versace.

Darren Chris como Andrew Cunanan em The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story.

No primeiro ano temos uma história onde os envolvidos puderam dar suas versões da história, suas impressões, motivações e todo o enredo foi desenvolvido dentro de, praticamente, um único cenário: o julgamento de O.J. No caso do segundo ano, o desenvolvimento foi mais difícil. Um serial killer que jamais foi ouvido sobre suas motivações é o centro da trama e sua vítima, infelizmente, foi mais uma em sua lista de homens assassinados por terem a infelicidade de cruzar o caminho de Andrew Cunanan. Toda o desenvolvimento da história é ligado diretamente ao incompressível senso de estilo e vida de Andrew e todos os seus sonhos, desejos e amores são retratados para construir uma personalidade difícil de entender ou lidar. Durante toda a vida de Andrew, de acordo com o que vemos, ele não teve alguém ao seu lado tempo suficiente para não enjoar e descartar essa pessoa. A lista de pessoas que ele desprezava incluía a própria mãe e em um determinado momento da série você se pega pensando em como a vida de alguém pode ser uma montanha russa de emoções como a dele, tendo um declínio tão drástico e um desfecho tão dramático – a série acerta em construir, dessa maneira, a personalidade de Andrew Cunanan. A vida dele, realmente, foi digna de uma trama seriada para a TV.

Leia mais: as primeira impressões no início da segunda temporada.

Infelizmente, dessa vez, Murphy não acertou em 100% do trabalho como na primeira temporada. Em 9 episódios, se separamos os de destaque, conseguimos pelos menos 4 episódios dignos de uma antologia de sucesso como essa. Os dois primeiros e os dois últimos. Murphy escolheu uma narrativa um pouco confusa a primeira vista. Começamos com o crime, logo de cara, e a partir daí somos levados à uma jornada ao passado de Andrew Cunanan e conhecemos todas as vítimas que vieram antes de Versace e a história é contada assim, de trás para frente até o momento onde a jornada do serial killer é finalizada.

Os episódios onde conhecemos suas outras vítimas são enfadonhos e, praticamente, para cada uma delas temos um episódio. Isso torna tudo muito cansativo e nos deixa ansiando para o desfecho do crime que leva o título da série. Talvez se a série tivesse pelo menos dois episódios a menos, sintetizando o conteúdo em menos episódios, a sensação de cansaço não ficasse tão latente. cinco episódios entre o início e o desfecho da narrativa principal pode assustar e afastar os mais ansiosos e os mais acostumadas com tramas mais diretas também.

Ricky Martin como Antonio em The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story.

Assim como a primeira temporada tem uma mensagem forte sobre agressão física contra mulher e sobre como mulheres são silenciadas dia após dia, como são deixadas de lado pela polícia que poderia evitar uma tragédia, essa temporada tem uma mensagem importante sobre homofobia que em 1997 não tinha esse nome, assim como homossexuais não tinham voz ou espaço devido, nem mesmo um homem como Gianni Versace tinha sua voz ouvida de maneira clara e a sexualidade dele sempre era posta antes de seu talento. Se não fosse pela morte de Gianni Versace, as outras vítimas de Andrew Cunanan que também eram homens gays — exceto o coveiro, sua última vítima antes de Gianni que teve seu carro roubado depois de ser assassinado – teriam passadas despercebidas. Muitas delas haviam sido arquivadas, deixadas de lado ou tratadas como “mais um cara morto… Mais um cara gay” e os casos foram revisitados porque cedo ou tarde, começaram a associar os outros crimes e os rastros de Andrew ao crime cometido por ele em Miami Beach, onde Gianni Versace foi encontrado morto nos degraus de sua casa. Esse desdém da sociedade da época também pode ser visto na maneira como Antonio (Ricky Martin) é tratado por todos; desde Donatella, a polícia e até um Padre (lá no último episódio).

“Os outros policiais aqui não estavam tão dedicados. Por que será? Porque ele matou um bando de gays imprestáveis? (O policial informa que tem mais 400 homens procurando por Cunanan AGORA) Bem, é claro, agora. Ele matou uma celebridade. (a polícia o acusa de ser cúmplice) Não achou um gay, então vai culpar outro? Ele é uma piada para você? Ele não parava de falar de Versace. Todos nós falamos dele. Todos imaginamos como seria ser tão rico e poderoso que não importa que seja gay. Sabe qual é a verdade? É que você tinha nojo dele muito antes dele ser nojento. Está tão acostumado que fiquemos nas sombras, e a maioria de nós permite isso. Pessoas como eu, apenas desvanecem. Ficamos doentes e ninguém liga.”

— Ronnie, amigo de Andrew Cunanan.

Penélope Cruz como Donatella Versace em The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story.

A história nos mostra que Andrew cresceu num lar desestabilizado, com um pai que sofre de mitomania (assim como ele se tornaria anos depois — viciado em mentir, acreditando nas próprias mentiras), uma mãe omissa e teve uma vida baseada na busca pelo sucesso, sucesso esse que, infelizmente, pelas mãos do pai, era provido por mentiras e abusos. E que sua obsessão por Gianni nada mais era do que o sonho de ser como ele e que seu ódio foi desencadeado por um fora, sexual e profissional. Na época do assassinato muito era falado sobre Andrew e Gianni serem amantes e a série que, no início, parecia seguir esse raciocínio, escolheu a amenidade de um fora (foi medo de processinho, né, Murphy) e sinceramente, essa linha de história torna Andrew Cunanan ainda mais detestável.

O que se destaca em 100% dos episódios são as atuações. Darren Chris está incrível em todos os episódios, em cada assassinato e toda a maldade disfarçada com ingenuidade de Andrew se torna tão tangível que, a cada momento, você pode ver a dedicação dele ao personagem exalar na tela. Darren, até então, não havia feito muita coisa e já havia trabalho com Murphy em Glee. Vê-lo tão compenetrado e dedicado é uma grata surpresa. Ele, de fato, leva a série à níveis que ela não chegaria se não houvesse um protagonismo tão latente da parte dele. Édgar Ramirez, mesmo tendo pouquíssimo tempo de tela em comparação, quando aparece, nos dá um Gianni Versace apaixonado pelo que faz e pela vida, ele e Penélope Cruz dão um show e mostram um relacionamento fraternal bem real e nada soa artificial. Além das atuações sem defeitos dos três, o trabalho de caracterização atenua muito a qualidade dos atores envolvidos. Édgar e Penélope mostram isso mais do que Darren. Penelope se transformou em Donatella Versace, emulando a postura, o sotaque, o jeito de andar e toda a personalidade da estilista. Assim como Édgar que aparece envelhecido e ambos com seus sotaques que encantam e deixam suas aparições em tela extremamente charmosas. Ricky Martin que no primeiro episódio parecia ser uma surpresa agradável, se tornou inesquecível com seu personagem tão sem graça que mal convence a gente de seu sofrimento ao longo da série.

Édgar Ramirez como Gianni Versace em The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story.

Há algo notável nos trabalhos de Ryan Murphy e é o cuidado que ele tem de nos colocar dentro da história que ele quer nos contar. Todo o visual de Miami e daqueles Estados Unidos dos anos noventa é entregue de uma maneira muito bonita e competente. A saturação das cores, as cores mais quentes, as peles suadas e as calças de cintura alta. Tudo é muito cuidadoso. Sem esquecer de todo o design de produção que é cuidadoso em mostrar a época nos mínimos detalhes, até numa caixa de leite.

O problema principal é o desperdício de episódios contando histórias que poderiam ser encurtadas. Para a trama tem o sentido de aprofundar o espectador, ainda mais, na mente perturbada de um homem vaidoso, ambicioso, fútil e vazio, mas neste momento a gente se perde ao assistir tanta informação que quando chegamos ao final da temporada, esquecemos muitos momentos entre o início e o fim da história.

Flávia Viana
Amazona, Rebelde, Jedi e Dúnedain disfarçada de Diretora de Arte durante a semana.

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