Álex De La Iglesia possui uma maneira única de fazer filmes, o cineasta espanhol diretor de obras como El Dia de La Bestia (1995), 800 Balas (2002), Enigmas de Um Crime (2008), Baladas do Amor e do Ódio (2010), Las Brujas de Zugarramurdi (2013) em quase todos conta com o parceiro roteirista Jorge Guerricaechevarría que também está em seu mais recente filme, El Bar, que teve sua estreia em alguns festivais europeus e mostra que o diretor continua ácido e certeiro em sua montagem.

Com um início ágil e em alguns momentos até frenético, auxiliado pelo idioma que parece fazer tudo ir mais rápido, somos apresentados com uma tomada praticamente sem cortes aos personagens, com uma edição dinâmica das imagens nos faz grudar de imediato no filme.

Até aqui parece ser uma típica manhã movimentada no centro de Madrid, o bar com seus clientes, o morador de rua sendo enxotado pelos policiais, a jovem no celular, entretanto, tudo muda repentinamente ao também entrar no bar um homem tossindo e se trancar no banheiro, um dos clientes ao tentar sair é repentinamente baleado na cabeça.

Com um vislumbre do que foi feito em O Nevoeiro por Stephen King, onde pessoas totalmente diferentes estão presas no mesmo local, a tensão e a insegurança do acontecimento desperta os piores medos e as reações mais extremas para cada um dos personagens.

Com interpretações e diálogos naturais é impressionante o quanto ficamos imersos nesse pequeno universo criado dentro do bar, o mendigo Israel com seus devaneios bíblicos, em alguns momentos chega a ter um humor negro notável, interpretado por Jaime Ordoñez, inspiradíssimo, e que também assusta em várias cenas. A bela Blanca Suárez como Elena que se destaca como uma jovem que não deveria estar ali, Mario Casas como o hipster Nacho é a imagem da modernidade, alheio a tudo que acontece no local com seu fone de ouvido é um paralelo à sociedade moderna, Trini interpretada por Carmen Machi é uma mulher viciada em jogo, Joaquín Climent é Andrés um amargurado ex-policial, Amparo (Terele Pávez) e Sátur (Secun De La Rosa) são os trabalhadores do bar e Alejandro Awada é Sergio um cliente com a estranha mania de colecionar calcinhas e andar com elas em uma mala.

Todos começam a desconfiar um do outro após as ruas estarem completamente vazias e eles descobrirem o corpo sem vida do homem que entrou tossindo, que nesse momento após tudo que eles passaram, mais ninguém se lembrava que havia entrado outra pessoa ali. Com momentos pontuais para música  e priorizando o som do ambiente, a tensão cresce e o tempo de filme passa em uma velocidade impressionante.

Cada atitude, cada decisão tomada pelo grupo mostra o que cada pessoa tem de melhor e de pior dentro deles, a loucura generalizada pela sobrevivência, a ambientação nos transmite essa agonia do depósito e das tentativas de chegar ao incômodo caminho para a suposta saída pelos esgotos.

Álex De La Iglesia consegue nos últimos minutos do filme demonstrar toda a violência que vemos no dia-a-dia do mundo atual, com a sociedade cada vez mais anestesiada e acostumada a isso e ao que passa ao seu redor, finalizando com a vida que segue na cidade como se nada realmente tivesse acontecido acima dos esgotos da desgraça e da sujeira das últimas horas.

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