Crítica | Altered Carbon

Como seriam nossas vidas se, em algum momento no futuro, pudéssemos sobreviver à morte, tendo nossa consciência presa em um dispositivo e esse dispositivo pudesse ser implantando em outro corpo?  Seria um caos completo. Altered Carbon é esse mundo. Vale lembrar que o texto abaixo tem spoilers.

Em Altered Carbon, somos apresentados ao universo criado para narrar a supremacia do dinheiro, a opressão aos que não possuem muitas escolhas e a perversidade da vida eterna. Takeshi Kovacs, um garoto que cresceu vendo sua mãe ser agredida e teve que se sacrificar para ver a irmã sendo bem cuidada, é o protagonista da série. Um guerreiro de primeira, habilidoso na luta corpo a corpo e um atirador preparado, Kovacs se vê sendo trazido de volta à vida para solucionar um crime. O que Kovacs não conseguiu perceber com sua habilidade em ver os detalhes, é que estava no meio de uma rede de intrigas, rede essa protagonizada pela pessoa que ele menos esperar reencontrar no futuro.

Kovacs ganha uma nova capa, dinheiro e a chance de desbravar um mundo diferente do que viu antes de morrer pela última vez. Quando você conhece Blade Runner (não só o 2049), Ghost in the Shell (estamos falando do mangá e do anime, não daquela coisa com a Scarlett Johansson), Neuromancer, Matrix e até Bioshock, aquele universo não soa novo. A mitologia da história foi desenvolvida em cima do material básico oferecido por grandes gênios da ficção científica. Mas calma, isso não é demérito. Conforme somos apresentados aos personagens e seus interesses, conseguimos vislumbres de algo novo, diferentes, mas é um brilho muito rápido. Depois a história volta a traçar um caminho comum nas narrativas de ficção científica, de novo, isso não é demérito, mas se tivesse sido feito uns 20 anos atrás, a sensação ao assistir Altered Carbon, seria de maior surpresa e não tanto de previsibilidade.

Fora o fator de a série, tanto quanto o livro, soarem como um repeteco de tudo que deu certo nos últimos 40 anos do sci-fi, Altered Carbon consegue entregar uma boa história, mas com um final bem abaixo do que se espera para algo que tenciona a grandiosidade.

Visual incrível de Altered Carbon.

Excelentes personagens são apresentados e em como toda história, auxiliam a evolução do protagonista e todos estão ligados diretamente. Não existe uma ligação por acaso. E tudo culmina um penúltimo episódio cheio de tensão e ação, sendo esse o melhor episódio.

A série possuí uma diversidade de personagens. Muitas mulheres de muita atitude e donas do próprio nariz. Ortega, Rei, Lizzie, Ava, Miriam e Quellcrist, são fortes e preparadíssimas para as aventuras que enfrentam. Os flashbacks que contam o passado de Kovacs são essenciais para mostrar as motivações do grande vilão e do próprio protagonista, mas mesmo com sua importância narrativa os episódios onde isso ocorre, se tornam maçantes e extremamente lentos. Sendo assim, criam um buraco no meio da série que, em alguns momentos, a vontade é pular até o presente momento.

Momentos incríveis da série

Lizzie, a falecida filha de um casal de hackers, está presa num limbo, numa espécie de nuvem e com a ajuda de um personagem chama Poe que é dono de um hotel chamado O Corvo (pegou a referencia?), a garota é tirada desse coma e se torna uma força essencial para o desfecho da série.

Ava, mãe de Lizzie, também havia morrido e volta depois, mas na capa de um homem. Coisa que acontece duas vezes na série e é genial como os atores, sendo homens, agem como mulheres presas em corpos errados.

Poe, a Inteligência Artificial mais legal de Altered Carbon.

Voltado ao Poe. O cabelo, as roupas, o bigode, o discurso e o nome. Sim, o personagem que é uma inteligência artificial, é uma referencia direta ao autor Edgar Alan Poe. O hotel, O Corvo, é um personagem a parte e tudo que acontece lá é inteligente. Principalmente o desfecho.

O braço de titanium implantado em Ortega é quase um personagem a parte. Quando Ortega sofre um ataque e perde o braço, parece que a personagem beira a deixar a trama, mas ela ressurge com esse acessório e aprende a usa-lo em seu favor, como escudo, como arma, como o que ela precisar durante uma luta.

Os pontos fracos

Além de, como dito anteriormente, não ser nada de muito novo sob o sol da ficção científica, Altered Carbon tem um protagonista que oscila demais. O que não é culpa do personagem em sim ou de roteiro. É culpa do ator mesmo. Joel Kinnaman está longe de ser um bom ator e nos momentos em que a trama precisa de sua presença de tela em horas de drama, ele falha miseravelmente. No que diz respeito à porrada, ele se sai bem. Nada mais que um sorriso canastrão e muita porrada. A limitação do ator prejudica a história em alguns momentos e é por isso que os coadjuvantes da série, em vários momentos, se tornam mais interessantes do que Takeshi Kovacs.

A série não se torna, ao menos nessa temporada, algo memorável. Muito pelo contrário. Mesmo com suas qualidade, a série pode ser esquecível se na segunda temporada não puxarem a orelha de Kinnaman e tentar se desvencilhar do lugar comum em tramas como essa. O lugar comum é exatamente o que já vemos muito, várias vezes. Uma, duas, três vezes, a gente até engole. Mas quando a história não passa de rico x pobre, protagonista sem carisma e briga de família, se torna chata.

De maneira geral, Altered Carbon é um entretenimento bom. Não é nada que te deixe fissurado, querendo maratonar sem nem ir ao banheiro, mas para uma primeira temporada, ela ainda é muito caprichada, principalmente no visual. A série, mesmo sendo um apanhado de várias mitologias já consolidadas, pode crescer muito se os showrunners deixarem o medo de arriscar de lado.

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