Crítica | A Ghost Story

A Ghost Story (Sombras da Vida, em português) foi lançado em 2017, mas sua profundidade é atemporal. É um filme tocante, sem precisar de muito esforço.

Com um orçamento de apenas US$ 100 mil, o diretor e roteirista do longa, David Lowery, conseguiu fazer um trabalho espetacular e poético.

Em um filme em que o tempo é um dos personagens principais, o mesmo elemento também não é extrapolado – a obra conta com pouco mais de 90 minutos muito bem utilizados.

A narrativa do longa é extremamente arrastada, mas essa é a intenção; sem a calma em mostrar os detalhes em cada cena – ou a pressa, em outras, o filme não traria o mesmo significado.

O filme, estrelado por Casey Affleck e Rooney Mara, narra muito mais do que a perda de M quando seu marido, C, morre em um acidente de carro bem em frente à sua casa.

A Ghost Story é sobre a importância que o ser humano dá a coisas mundanas, como deixar a sua marca na eternidade, de alguma forma, e como essa marca se perde no tempo. Como nada aqui é eterno e como o ciclo das coisas é infinito.

A atuação de Rooney Mara mais uma vez chama a atenção – por um longo momento até acreditamos que ela é a protagonista do filme, tamanha é a sua dedicação com a personagem. A famosa cena da torta está ali para mostrar tal empenho. São 9 minutos que poderiam ser considerados maçantes, se não fosse pela ideia por trás daquilo.

Apesar disso, logo C toma as rédeas com sua expressão melancólica – mesmo que mostrada através de um lençol branco e rústico.

A escolha da representação do fantasma dessa forma é um dos motivos do filme ter se tornado tão gracioso e leve, apesar de passar uma mensagem tão forte.

Mesmo que por baixo de um lençol, Casey conseguiu demonstrar a imensa tristeza de seu personagem, que viu tudo o que tinha ir embora aos poucos e sem poder fazer nada.

Casey Affleck em cena de A Ghost Story.

A Ghost Story nada mais é do que uma metáfora sobre a vida e a morte. Sobre o seguir em frente e o se prender eternamente no que vai sumir da eternidade. Parece confuso? Lowery explica melhor.

O diretor inseriu em um dos poucos diálogos do filme, um baita monólogo que nos faz refletir sobre a nossa existência; sobre a passagem do ser humano pelo Universo. Lowery consegue ainda nos fazer questionar o “after life”.

Will Oldham em uma das cenas de maior destaque de A Ghost Story.

Por que C preferiu desviar da “luz” encontrada ainda no hospital e voltar para sua esposa? Será que em algum momento ele se arrependeu? E por fim, quais foram as palavras que o libertaram de sua constante infelicidade, que provavelmente durou décadas?

Todas essas questões levantadas em A Ghost Story fazem do filme um dos melhores de 2017, além de nos obrigar a uma profunda reflexão durante toda a exibição da trama.

Por que é tão bom?

Poucos filmes me fizeram refletir tanto quanto A Ghost Story. Inicialmente pensei em assistí-lo por conta de seu elenco, sem ao menos saber o que esperar de seu roteiro.

Logo que percebi a ausência de uma trilha sonora nos seus minutos iniciais e então a cena em que Rooney Mara come uma enorme torta incessantemente por quase dez minutos tive a certeza de que esse seria um longa para pensar.

E foi. Cada fase do luto, cada novo personagem inserido – seja ele humano ou não – narrado num silêncio absoluto com o ponto de vista de C serviu como uma aula.

A Ghost Story foi descrito por Eric Kohn, do site americano Indiewire, como “profundo e poético”: uma descrição tão curta quanto perfeita. Para quem curte cinema como forma de comunicação, o longa tem muito a dizer sem precisar de muito esforço.

Tem a capacidade de tocar, sensibilizar, emocionar e é isso que o concretiza como uma das melhores obras do gênero. David Lowery trouxe elementos simples: pouca trilha sonora, pouco elenco, pouquíssimos diálogos e essas características ousadas e que poderiam ser prejudiciais, foram justamente o que deram o tom especial e brilhante de que fala Kohn.

É quase impossível não gostar de A Ghost Story; até o público mais mainstream e que tende a não gostar de tal ritmo em narrativas cinematográficas se sente cativado pela acuidade da produção.

Confira o trailer:

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