Crítica | 13 Reasons Why (2ª Tempora)

ATENÇÃO: O TEXTO CONTÉM SPOILERS

A primeira temporada de 13 Reasons Why causou um alvoroço sem tamanho. Seja pelo debate a respeito da depressão, estupro ou suicídio (ou, principalmente, pela maneira irresponsável como a fez). Todos esses debates, mesmo com a maneira torta da série, trouxeram luz sobre os assuntos, fazendo com que as pessoas tentassem enxergar um pouco mais o que estava ao lado.

Ainda sobre a primeira temporada, baseada no livro de Jay Asher, conhecemos Hannah Baker e sua história complexa, difícil de engolir e não pela maneira como é contada, mas sim pelos fatos. Sejamos sinceros, mesmo que você deteste a série, quando se pega assistindo à um episódio que possui um gatilho para você, sua visão muda (o que não significa que você ame a série). A primeira temporada é extremamente irresponsável na maneira como passa sua mensagem, a segunda tenta por vezes remediar isso. 

A segunda temporada de 13 Reasons Why abre um mais uma dúzia de debates e fala muito mais sobre consequências. Infelizmente vemos algo comum na vida real: pessoas com recursos sendo privilegiadas pelas suas posições sociais e pelo dinheiro, saindo ilesas, sem arcar com as reações de suas ações.

Clay Jensen no julgamento de Hannah Bakes (13 Reasons Why).

Dessa vez a história é contada por polaroids deixadas no armário de Clay (dando enfase ao abuso sofrido por Jessica) e cada episódio, em vez de uma fita com o ponto de vista de Hannah, tem a narração de cada “algoz” de Hannah em depoimento no tribunal.

Essa temporada expõe novas vertentes sobre a história de Hannah e todos os caminhos que à levaram até aquela cena pesada da primeira temporada. Além de nos mostrar o que aconteceu com Alex no final da primeira temporada, sua tentativa de suicídio que lhe trouxe sequelas físicas e apagou boa parte de sua memória. Acrescentando também um foco direcionado ao Bryce e seus crimes de estupro.

Isso tudo torna a série menos maçante nessa temporada, porque traz um elemento surpresa a cada depoimento. De certa maneira, na primeira temporada, mesmo com as fitas, tudo soava meio previsível (principalmente se você leu o livro, já que a série não tem mais livro para seguir). Mesmo com o dinamismo trazido pelos novos pontos de vista, o roteiro ainda se mantem básico e a direção caminha para o mesmo rumo.

Cada novo depoimento derruba aquela sensação da primeira temporada onde cada fita, com apenas o ponto de vista dela, fazia com quem assistisse, duvidasse do que ela passou. Nessa temporada, todos os depoimentos mostram que, infelizmente, Hannah passou por tudo o que disse e muito mais. Depoimentos como o de Courtney (no segundo episódio) e o de Zach (no sexto episódio) são importantes para mostrar o lado bom e feliz da personagem que, até então, parecia ter vivido apenas o inferno na terra. O depoimento de Clay (no episódio sete) também é importante para entender o sentimento de culpa do personagem.

Clay e Skie (13 Reasons Why).

A série continua batendo na tecla da ausência de dialogo dentro de casa e de como um pai e uma mãe podem, simplesmente, não conhecer um filho e como isso pode ser importante para entender uma situação perigosa embaixo do próprio teto (isso é mostrado a cada momento do julgamento onde a mãe de Hannah se surpreende com o que a filha vivia). Algumas lacunas da primeira temporada são preenchidas agora, mesmo sutis, complementando e esclarecendo sentimentos da própria protagonista.

Existem alguns momentos marcantes nessa temporada como a Courtney se assumindo lésbica; a revelação do romance de verão entre Hannah e Zach; Justin, como um personagem extremamente babaca, dando lição de moral em Clay; Clay confirmando seu posto de personagem mais egoísta da série;  o momento em que Marcus é pressionado e chega ao seu limite e a atuação, sempre excelente, de Kate Walsh.

A série usa Hannah Baker em forma de fantasma para se defender de uma de suas principais críticas na primeira temporada: Hannah, aparentemente, culpa os outros alunos pela decisão que tomou. Então, o fantasma de Hannah funciona para defender a série disso e de outros argumentos. Em dado momento a personagem chega a dizer que não queria vingança, só queria que as pessoas soubessem de sua história. Em vários momentos ela aparece como um grilo falante, alertando Clay sobre suas decisões e isso sempre aparece de uma maneira tosca, com diálogos que beiram o infantil. Além de Hannah, Cheri é outra personagem usada para enfatizar um discurso de desculpas pela primeira temporada. Em vários momentos ela faz um excelente discurso sobre o corpo e as vontades de uma mulher e como isso não diz respeito ao próximo.

Tudo caminha relativa bem até o décimo terceiro episódio. Depois todo o sufoco de Clay e os outros para provar que a escola foi negligente, dentre os outros detalhes de toda a tragédia (como os estupros cometidos por Bryce contra Jessica, contra Nina e Chloe), o décimo terceiro episódio traz um novo problema que, infelizmente, deixa um gancho enorme para uma nova temporada.

O tópico mais “prometido” para essa temporada era o da indústria de armas e porte ilegal. E esse momento acontece depois de uma cena pesada de estupro, despertando um monstro adormecido em um dos personagens que já dava esses sinais na primeira temporada.

Mesmo sendo mais consistente em sua narrativa, desenvolvendo de subtramas e trazendo respostas, a segunda temporada de 13 Reasons Why prova que deveria ter acabado na primeira. Alongar essa trama para uma e até mais duas temporadas, tirando leite de pedra como diria o ditado, só transforma a série em uma grande bola de neve que se desgasta a cada episódio. Ao final da temporada, com mais um gancho, a série mostra que não tem mais força para ir além, mesmo com um discurso importante sobre assédio (lembrando que o autor do livro, Jay Asher, foi acusado de assédio ano passado), cultura de estupro e bullying. Não há o que possa salvar 13 Reasons Why de ser a série que causa ojeriza com a maneira que aborda temas tão relevantes de maneiras tão equivocadas. 

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