Crítica | Todas as Canções de Amor

Dois casais, duas linhas do tempo. Um apartamento. Uma fita. E canções. Lindas canções.

Chico e Ana acabaram de se casar e estão de mudança para um apartamento no centro de SP. Neste, encontram um item arqueológico: Um 3 em 1. Dentro, uma fita K7. Se você tem menos de 20 anos vá ao Google e procure o que são estes itens.

Ana é mais nova que Chico e fica maravilhada com aquilo. A fita tem um nome e uma dedicatória: ”Todas as Canções de Amor, de Clarisse para Daniel 

Em um outro tempo aquele apartamento foi habitado por Clarisse e Daniel. Clarisse diz que Daniel não a escuta mais. E para que ele lhe ouça, ela grava uma fita K7. Com canções de amor. Mas como diz Ana no presente, não existe nexo naquela fita, pois são canções de amor que falam de partida. Falam de um amor acabando. Às vezes com magoa, outras vezes ainda com carinho.

Daniel e Clarisse
Todas as Canções de Amor

No passado, Clarisse e Daniel estão se separando. Ainda existe desejo, ainda existe amor. Mas existem muitas magoas. As canções falam, mas elas permeiam diálogos fortes. Difícil saber se aquelas frases vazaram sem querer após estarem tanto tempo represadas, ou se são palavras pensadas no momento com a simples intenção de machucar. E machucam.  Um simples cacto pode mostrar a incapacidade de cuidar de uma relação.

Ana e Chico
Todas as Canções de Amor

No presente, Ana e Chico vivem uma nova relação. Acabaram de casar. Ela nem sabe o que é amor, mas quer aprender junto. Como que ele não lhe contou que estar casado não era fácil? Ele é mais velho e está disposto a ensinar. Ele quer que sejam parceiros. A bagunça na sala o incomoda, mas ele pode trocar a massa por uma salada, já que as mulheres mudam de decisão o tempo todo. O tempo já lhe ensinou quando seguir em frente e/ou quando ceder.

A fita logo desperta a curiosidade de Ana. O que querem dizer aquelas canções?

E nessa curiosidade e com imaginação solta, ela se envolve com a estória que ela imagina que possa ter acontecido com Clarisse e decide escrever um livro. E assim, vamos seguindo o inicio e o termino de uma relação, tendo as canções como conexão.

Não é um filme para todos os públicos, mas para quem curte as entrelinhas da vida. É uma grande poesia em imagens e sons. Com certeza algum daqueles momentos que você vê na tela vai te tocar de alguma maneira.  São momentos de uma relação. Você já passou por ele. E você já ouviu aquela canção.

As canções vão de Eu Sei que Vou Te Amar a Você Não Soube Me Amar. De Noel Rosa a Cazuza.  Apontam esperanças, apontam erros, apontam certezas e às vezes só  apontam duvidas.

Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa tem a química perfeita para o papel. E como ela é linda!! Ele também é um ótimo ator. Passa o filme inteiro descabelado.  Imagino que não queira ser visto somente como um rosto bonito.  Mas não precisa mais disso. É inclusive um dos produtores do filme.

Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso
Todas as Canções de Amor

Julio Andrade e Luiza Mariani já não têm mais a química perfeita. Talvez nunca tenham tido. Mas tem o talento para mostrar o cansaço da relação. Ele nunca tocou violão para ela. Ela nunca lhe disse que gostaria de ter um filho. Mas as canções falam. Com eles e com o publico, que de repente percebe que já ofereceu uma daquelas canções para alguém.

Julio Andrade e Luiza Mariani
Todas as Canções de Amor

A trilha sonora é composta por 18 canções e foi organizada por Maria Gadu.  As canções durante o filme vão viajando entre os dois tempos. Ana sente a canção no presente e nunca sabemos se ela imagina o que Clarisse sentiu no passado ou se aqueles momentos realmente aconteceram.

O longa ganhou o prêmio de melhor filme brasileiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018.  A diretora Joana Mariani é estreante, mas faz maravilhas com as imagens que se misturam com as canções e com São Paulo. O seu objetivo foi “fazer um estudo cíclico dos relacionamentos amorosos que às vezes não são eternos como muitos sonham, na maioria das vezes tem começo, meio e fim”.

Embarque nesta estória e deixe-se emocionar. Aconteceu para mim, e imagino que diversas musicas tocadas aqui passarão a ter um novo significado para você também após este filme, como é o caso de Drão que nunca tinha me dito nada em 45 anos de vida, e de repente, ao ouvir Daniel cantando aquela musica houve uma epifania, que me arrepiou e encheu meus olhos de lágrimas.

“O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão…
…Se o amor é como um grão
Morre, nasce trigo
Vive, morre pão”

Às vezes precisamos matar um amor, para que ele renasça em uma nova forma.
É pura poesia, para ver, ouvir e sentir. Em tempos de ódio, um filme que nos traz muita paz e um calor no coração.

Entregue-se.

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