Crítica | Sociedade dos Poetas Mortos

“Mas somente em seus sonhos os homens podem ser verdadeiramente livres. Sempre foi assim e sempre assim será. ”

Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society), é um filme de 1989 dirigido pelo australiano Peter Weir, considerado um dos melhores filmes de seu ano e um clássico cult que ainda hoje vem somando seguidores. Em 2019 o filme completa seus 30 anos e apesar de sua mensagem inspiradora, não falta críticas contra o fim da história marcada pelo tragédia que iremos ainda elucidar. O roteiro é de Tom Schulman, premiado com o Oscar 1990 de Roteiro Original, inspirado no seu professor de literatura, Samuel Pickering, que lhe o ensinou numa renomada escola do Tennessee. Foi a partir dele que o roteirista concebeu o personagem do professor Keating, interpretado por Robin Williams.

RESUMO

1959, o novo ano escolar se inicia na tradicional Academia Welton, quando o novo professor de literatura John Keating, ex-aluno da escola, é apresentado, um ex-aluno que sobreviveu a essa escola rigorosa cujo método de ensino consiste em obediência, rigor e submissão. Ele rompe com a instituição em sua primeira aula, levando os alunos para uma sala histórica da escola e sussurra Carpe Diem. E inicia um caminho inspirador para aqueles jovens, substituindo a abordagem teórica da poesia por um método baseado na leitura poética e na liberdade de pensamento.

A fundação do clube

Alguns de seus alunos descobrem sobre o passado do professor, sobre um clube chamado “a sociedade dos poetas mortos”. É a partir daqui que a história do filmes começa a se desenvolver, repleta de muitas nuances, como comédia, drama, superação… A ideia de viver intensamente traz a ideia de trazer a sociedade de volta, os membros têm em comum o fato de que suas famílias planejaram seu futuro e possuem problemas pessoais que afetam muito o seu desenvolvimento. Neil Perry (Robert Sean Leonard) tem um pai autoritário; Todd Anderson (Ethan Hawke) é introvertido num nível quase patológico; Charles Dalton (Gale Hansen) é um jovem irreverente, mas atrapalhado pelo prestígio da família milionária; Richard Cameron (Dylan Kussman) é disciplinado e entediado; Knox Overstreet (Josh Charles) descobre o amor, mas não sabe como conquistá-lo, enquanto os curiosos Gerard Pitts (James Waterston) e Steven Meeks (Allelon Ruggiero) constroem um rádio para ouvir música.

Na medida em que os jovens se atrevem a pensar por si mesmos, descobrem seus talentos e interesses. E o clímax se inicia, com as investidas do tradicionalismo, da realidade e da deturpação das ideias iniciais levando ao suicídio de um dos alunos, o impacto emocional e a caça às bruxas para o desenlace final que leva o professor como bode expiatório e ao reconhecimento num ato de coragem inesperado.

Análise

Sociedade dos Poetas Mortos foi bem aclamado na época. No entanto, o posicionamento do filme é realmente controverso. Uma história emocional e idealista, que trata da necessidade de ser livre, de fazer o seu próprio caminho e aproveitar todos os momentos vividos. Enquanto alguns fazem dele um filme cult, para certos críticos nada mais é do que um melodrama bem dirigido e muito bem representado por seus atores.

O conflito gira em torno da expectativa social, sendo o motor e a justificativa dos modelos educacionais tradicionais e do autoritarismo familiar. As ideias implícitas de sucesso e fracasso têm um peso decisivo, profundamente enraizadas na mentalidade de uma sociedade capitalista, como aquela dos anos 1950 nos Estados Unidos. Mesmo assim, o sucesso, mesmo econômico, se relacionava ao conhecimento adquirido. E a Academia Welton como cenário desde conservadorismo elistista, ao receber um professor apaixonado por seu trabalho e que dá aulas de uma maneira nada ortodoxa, sente sua influência nos seus alunos preparados para aquele sistema.

O argumento da narrativa é construído em torno da máxima horaciana Carpe diem, e o professor apresenta seu programa, que enaltece Walt Whitman, Lord Byron e John Keats e coloca os poemas como um instrumento libertador de consciência, para com seu caráter subversivo, incomodo por meio da crítica academicista. O primeiro estudo que aborda destrói o símbolo do racionalismo analítico que os poemas são concebidos: comoção. Assim, o professor Keating não representa apenas a coragem de expressar seu julgamento, mas em recuperar o prazer de viver da experiência estética. Portanto, a literatura está no centro de tudo e aqueles jovens, não tinham o prazer de viver e acabam descobrindo por meio do professor outra visão de estudar, conhecer e aprender. Repassar com suas aulas que tudo ali é uma experiência, não uma mera ferramenta de um sistema. Aqui Weir consegue captar com solidez e com um toque poético primoroso aquela realidade absurda sobre o que a sociedade espera da juventude futura.

Somos comida para vermes. Acredite ou não, um dia vamos todos parar de respirar, esfriar e morrer”, explica o professor, interpretado por Robin Williams, aos estudantes atordoados, longe de sua inclinação habitual para a comédia. Assim exorta os alunos a viverem plenamente, não de uma maneira excessiva e inconsciente, em busca de um prazer sem sentido ou de uma diversão irresponsável. Pelo contrário, está implícito que a experiência de viver intensamente também significa assumir a responsabilidade pela própria responsabilidade. Ou seja, após um tempo, entenderemos que é valorizar as pequenas coisas, apreciar e aproveitar a beleza nelas é que é o propósito da vida. Moderado em suas críticas, o personagem embora vanguardista em seus métodos, influencia e não dimensiona o que ocorreria, Williams torna seu personagem não é de protagonista e sim de catalisador.

O fatídico resultado parece inevitável com a tensão entre os heróis (Keating e seus alunos), e os vilões ( a escola e os pais). Mesmo sendo simplista na categorização dos personagens, ilustra perfeitamente uma das idéias que o filme transmite com maior tenacidade: como instituições e poder são perpetuados se os sujeitos permanecerem em silêncio.

Weir uma cena com Robin Williams

Peter Weir dirige essa fábula educacional sobre a transformação de um grupo de adolescentes graças ao poder da poesia, fazendo uma crítica a educação tradicionalista. O diretor queria comunicar visualmente essas ideias e usa de enquadramentos e ângulos de câmera para expressar a hierarquia do cenário. Exemplos, quando são aulas dos professores tradicionalistas, eles são protagonistas nas cenas. Quando os alunos são incluídos, é feito a partir da perspectiva do professor e os ângulos são acentuados para cima. Algo que não ocorre nas com o professor Keating, na qual ele e seus alunos participam da mesma hierarquia visual e será o responsável em deixar os jovens como  protagonistas das cenas. Brilhante, não? Destacamos também a trilha sonora de Maurice Jarre e a fotografia de John Seale capturando rapidamente a naturalidade e a sobriedade de Nova Inglaterra.

Sociedade dos Poetas Mortos é, sem dúvida, um dos filmes mais emblemáticos da filmografia do diretor australiano. E parte de uma geração, a minha, foi fortemente influenciada, aquelas crianças que entravam na adolescência e que ficaram deslumbradas com uma figura como aquele professor e hoje chegaram aos seus quarenta anos e ainda procuram despertar o verdadeiro significado de “estudar”, de “aprender”. Um filme honesto e brilhante.

1 COMENTÁRIO

  1. Que legal ver este filme aqui no site. Também tenho mais de 40 anos e concordo com você em como este filme foi importante para a minha vida. Em minha adolescência, devo te-lo assistido umas 20 vezes. Oh, Captain, My Captain! Carpe Diem. Hoje espero meus filhos terem a idade para poder captar estas mensagens tão especiais. E com certeza ainda verei este filme mais algumas vezes com eles e quem sabe um dia com meus netos, pois com certeza é um filme que nunca envelhecerá.

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