Crítica | Snowdrop (2021)

Uma história de um amor proibido nos anos 1980 em Seul, Coreia do Sul. Youngro, uma universitária, cuida dos ferimentos de Suho, um estudante de uma renomada universidade, que vive perigosamente, entre os dormitórios femininos, apesar da vigilância estrita e da situação que seu país vivia. Adaptado das notas manuscritas de um homem que fugiu de um campo prisional político na Coreia do Norte, tem como pano de fundo o Movimento para a Democracia na Coreia do Sul de 1987.

Análise

Após o enorme sucesso do conteúdo coreano na Netflix, parecia bastante inevitável que  outros streamers buscassem seus próprios doramas. Entretanto, como a Netflix, a maioria começou adquirindo produções de estúdios coreanos antes de fazer os seus próprios. Este é o caso do Disney+, que trouxe o drama Snowdrop para seus espectadores.

A narrativa traz uma estudante do primeiro ano da Hosu Womans University, Eun Young-ro (Jisoo Kim) e suas colegas de seu dormitório. Go Hye-ryeong (Jung Shin-hye), uma estudante de música popular, que vive sendo alvo de bullying. Yeo Jeong-min (Kim Mi-soo) não apenas participa dos protestos pró-democracia que ocorrem em Seul, mas mantém suas amigas longe de problemas. Young-ro conhece Im Soo Ho (Jung Hae In), que se apresenta como um estudante coreano-alemão que retornou recentemente ao país para fazer uma tese. Os dois se conheceram em um encontro às cegas.

Entretanto, uma noite Im Soo Ho surpreende a moça, aparecendo, no dormitório feminino, bastante ferido. Assustada, a jovem decide escondê-lo ali,  até sua melhora. A lembrança de seu irmão ter sido enviado ao exército para distanciá-lo dos protestos faz com que ela aja dessa forma, mas esse sentimento logo é substituído pelo romance. Apesar da oposição das colegas de quarto e de seu próprio temor, devido as regras do lugar, se o descobrem, as consequências podem ir além da expulsão dela e de suas amigas. Im Soo Ho não terá escolha a sair dali e voltar para seus segredos, já que a situação convulsiva no país coloca todos em perigo.

Cenário, figurinos, fotografia, música são excelentes. A atuação de Ji Soo, apesar de ser sua estreia, vai além de ídolo do kpop, é convincente, a garota fica linda sem esforço e consegue uma boa química com Jung Hae In. Seu personagem doce e ingênuo nos primeiros episódios não precisa de demonstrações emocionais poderosas, então consegue desenvolvê-lo com sucesso. Agora, quanto à história, dado os gêneros, pode não agradar a todos. Um romance impossível ambientado em uma das fases mais difíceis da história coreana. Embora Im Soo Ho tenha origem norte-coreana, ainda não está claro o que busca na Coreia do Sul. A Agência Central de Inteligência não só criou culpados, sem julgamento ou qualquer prova, como os executou e desapareceu, entre os cidadãos sul-coreanos, com muito mais razão o faria com um cidadão norte-coreano sem qualquer investigação.

Após o estabelecimento da ditadura militar, as tensões da guerra fria entre as duas Coreias impossibilitaram que os cidadãos das duas nações se aproximassem. As condições políticas e sociais da época já não auguram um simples desenvolvimento da história de amor. O roteiro trabalha esse momento, colocando um drama shakespeariano em 16 episódios, com personagens interagindo entre a universidade feminina, a agência nacional e os políticos, além da tentativa cômica, com as mulheres de quem disputa as eleições do país.

Os personagens “adultos” guardam segredos, são cheios de ambição e tomaram o país como seu baú de ouro pessoal, sendo cada adulto mais desprezível que o outro, mas que no fim, proporcionou momentos redendores para personagens que mereciam e encerramentos legítimos para os antagonistas.

O drama e passa em uma época em que a Coréia estava sob regime militar e quando o povo se sentia oprimido. O povo lutou pela democracia e é assim que está desfrutando de sua democracia hoje. Esse drama deve ter trazido lembranças dolorosas e por isso gerou polêmicas, que segundo a crítica do país, distorceu os eventos em torno dos protestos políticos em 1987, um ano crucial na história moderna da Coreia do Sul, e insultou a memória dos envolvidos nas lutas da época.

Apesar disso, Snowdrop é bom para quem gosta de um drama com romance e tons culturais de outro país.

Homenagem póstuma: Kim Mi-Soo (1992–2022)

A atriz e modelo coreana Kim Mi-Soo foi encontrada morta por causas desconhecidas, no dia 05 de janeiro. Ela tinha 29 anos, e interpretou Yeo Jeong-min, uma das companheiras do dormitório da protagonista, uma ativista que fazia parte do movimento pró-democracia que ocorreu em 1987 na Coreia do Sul.

A notícia da fatalidade foi confirmada pela Landscape Entertainment, empresa que administrava a carreira dela. “Kim Mi Soo morreu repentinamente. Sua família está de coração partido com essa notícia”. Na mesma nota, a empresa solicitou aos fãs que não alimentem versões falsas e que tampouco espalhem teorias sobre o acontecimento, como forma de respeito pela memória da artista e pelo luto profundo vivenciado por seus familiares.

Kim Mi-Soo era um nome em ascensão na Coreia do Sul, a jovem nasceu em 1992, na pequena cidade pesqueira de Gunsan e estudou teatro na Universidade de Artes Nacional da Coréia. Seu primeiro trabalho como atriz aconteceu no filme Liptisck Revolution em um papel coadjuvante e fez participações nas séries Profecia do inferno (2021) e Uma Segunda Chance (2020), além de, em 2019, os filmes “Memories” e “Kyungmi’s World”. A atriz ainda filmava Kiss Sixth Sense (2022), quando faleceu.

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