Crítica | Roma

Um deleite para os olhos

Estreou este mês na Netflix,  um dos filmes mais esperado do ano: Roma, de Alfonso Cuaron.

A primeira coisa a se dizer sobre este lançamento, é que este não é um filme para todos os públicos. Ele é lento, longo, sem grandes reviravoltas e em preto e branco. Muito diferente dos filmes existentes no catalogo da Netflix, principalmente em casos de produções próprias do serviço de Streaming. Um típico exemplo de filme de arte.

Se você não tem tempo para isso, e busca somente uma distração com pipoca num sábado a noite, escolha outra opção no seu catálogo.

A segunda é que este filme é uma aula de cinema com imagens inacreditavelmente belas e com certeza é um dos filmes mais bonitos do ano.

Roma
Roma , de Alfonso Cuaron. Uma produção Netflix

Mesmo tendo somente 8 filmes em seu curriculum, Cuaron é um dos diretores mais cultuados da atualidade já que o ultimo deles foi a linda ficção cientifica Gravidade, que lhe rendeu o Oscar de melhor diretor em 2014.

Roma , diretor Alfonso Cuaron
Roma – Alfonso Cuaron ganha Leão de Ouro no festival de Veneza

Com Roma ele já ganhou o Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza e provavelmente só não repetiu o feito em Cannes pois não foi aceito, devido a polêmica: Filmes feitos para a Netflix podem participar de premiações do cinema?

No caso de Roma a resposta é fácil e salta aos olhos. A polêmica na verdade deveria ser na direção contrária. Como que um filme assim foi feito para ser exibido em uma televisão? É tudo tão bonito que o certo seria assistir em uma mega tela de Imax.

Roma
Roma – A aula de artes marciais

Após a pressão de se fazer um filme com toda a estrutura de Hollywood, Cuaron disse que decidiu retornar as suas raízes, fazendo um filme menor, mais simples, falado em Espanhol e usando suas lembranças da infância. Mas engana-se quem acreditar nessa premissa.

Roma é sim uma obra de arte, apesar de apresentar alguns defeitos.

Roma
Roma e os varais

A primeira vista, Roma parece um filme pequeno. Conta a estoria de um ano na vida de uma família de classe média alta em 1970, no Bairro Roma, na Cidade do México.

Roma – A familia

O ponto de vista principal é de Cléo, a empregada da casa.  Ela faz tudo na casa e a câmera de Cuaron vai acompanhando estas atividades de uma maneira magnifica. Ele é famoso por seus planos sequencia, e aqui ele extravasa o uso deste artificio com maestria.

Roma
Roma – Cléo realizando serviços domésticos

É um outro tipo de cinema. É um cinema mais antigo. A câmera nunca está na mão. Ou ela está estática, num plano aberto, onde vemos tudo o que acontece no espaço em que os atores se movem, ou ela faz giros de 360º como estas fotos panorâmicas atuais, seguindo a personagem pela casa, ou ela segue os personagens pelas ruas, ou pela praia, em cima de trilhos, em grandes sequencias quase sem cortes.

Cléo é uma serviçal. Como pede a cartilha do cinema, Cuaron não nos conta isso com diálogos expositivos em off. Ele traz tudo em imagens. Cléo de manhã, acordando, levantando as crianças, fazendo o café da manhã, trocando-as para a escola. Durante o dia lavando roupa, lavando o quintal, recolhendo o cocô do cachorro. À tarde buscando as crianças na escola, fazendo e servindo o jantar e até no fim do dia, apagando todas as luzes da casa grande antes de ir dormir no quartinho que divide com a irmã no fundo do quintal. Tudo simples e banal. A vida como ela é.

Roma
Roma – Cléo lavando o quintal

Cuaron através destas imagens vai mostrando as diferenças de classe. Cléo é muito querida na família, mas ela é a empregada e isso sempre fica claro. Como na cena em que ela “assiste” TV com a família ou quando vai passear com eles, mas é quem tem que carregar as malas.

Em muitos momentos temos raiva de sua patroa. Como que aquela mulher não pode nem acordar seus filhos?  Mas logo percebemos que a patroa não é uma vilã. A vida é assim, e o filme nos mostra isso de maneira discreta e eficaz. Será que não agimos da mesma maneira que aquela patroa. Será que não temos ou tivemos uma Cléo em nossa casa?

Cléo é interpretada pela novata Yalitza Aparicio que está estreando como atriz, mas que consegue transmitir toda a submissão e o crescimento da personagem em seus pequenos movimentos.

Roma
Roma – Yalitza Aparicio como a empregada Cléo

Mas Cuaron ainda tem mais a discutir. No fundo a estória é uma homenagem às mulheres e o que precisam fazer para sobreviver a um mundo machista.  A patroa e Cléo sofrem com seus homens e ali percebem que neste tipo de sofrimento não existem diferenças de classe, o que acaba criando uma união mais forte entre elas.

Roma
Roma – Mulheres aprendendo a estar sozinhas

Em minha opinião o único pecado de Cuaron foi não ter se preocupado muito que sua estória atingisse todo e qualquer espectador. O filme tem diversos pontos impactantes, mas ele é tão extenso, que estes pontos de impacto ficam muito distantes um do outro, fazendo com que o telespectador se canse de acompanhar a estória. Também existem muitas cenas desnecessárias. O que é aquele rapaz fantasiado cantando no meio do incêndio? Em tempos de blockbusters é difícil ficar parado durante duas horas em frente a uma tela esperando algo acontecer, e infelizmente, falando sobre roteiro, pouca coisa realmente acontece em Roma.

Mas se para você cinema não é só uma diversão fulgás, Roma é um filme obrigatório. Cuaron desta vez é diretor, roteirista, fotografo e montador.  E haja cenas inesquecíveis. A cena de Cléo correndo pela rua em direção ao cinema. A cena dela andando pelo térreo da casa com a câmera rodando 360º explorando todos os cômodos da casa. A cena do patrão estacionando o carro na garagem. A cena sufocante do parto e por fim os 5 minutos sem corte da cena da praia, que te faz ser grato por ter chegado até ali.   Que te faz ser grato por existir cinema e alguém tão talentoso quanto Alfonso Cuaron.

Roma
Roma – A cena da praia. Já entrou para a História do Cinema

No Globo de Ouro, Roma foi indicado como melhor filme estrangeiro, roteiro e direção. Roteiro para mim é um pouco demais, mas dificilmente perderá os dois outros prêmios este ano. Agora é esperar as indicações para o Oscar.  Eu voto nele para direção e fotografia. Será que é desta vez que a Netflix vai ganhar uma estatueta dourada?

Está difícil perder. Veja e tire suas conclusões.

2 COMENTÁRIOS

    • Opa! Com certeza vamos continuar sim. Obrigado pelo comentário e espero que curta o filme. Volte aqui para comentar depois o que achou.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here