Crítica | Quatro Histórias de Fantasmas (Ghost Stories, 2020)

Quatro Histórias de Fantasmas (Ghost Stories, 2020) é uma nova antologia da Netflix de quatro filmes de terror feitos por alguns dos principais cineastas de Bollywood. Para quem pensa que o cinema indiano ainda está no estilo dos musicais MGM/Technicolor, temos uma amostra de como o atual cinema hindu está atualmente.

Zoya Akhtar, Anurag Kashyap, Dibakar Banerjee e Karan Johar nos apresentam curtas sobre pessoas que são levados a vários estágios da loucura. O terror mental do desconhecido, personagens assustadores, sons inexplicáveis ​​no corredor, abortos violentos, revelações horríveis e uma multidão assustadora de canibais. O estilo de Bollywood no romance e no melodrama não permitiu um próspero gênero de terror, mas com essa antologia, temos cineastas que experimentam repassar um pouco do medo e dos arrepios local. Os filmes são mais perturbadores quando extraem seus medos sobrenaturais da realidade vivida na Índia – violência em massa, conflitos entre gerações e sofrimento das mulheres.

Os quatro diretores abordaram em entrevistas que tiveram a liberdade artística de criar conteúdo para o streaming, liberada do modelo de negócios teatral acirrado do país e dos censores do Conselho Central de Certificação de Filmes. No entanto, para quem assiste, temos como resultado um amálgama que iremos analisar um por um.

Anurag Kashyap transforma o trauma de um aborto espontâneo em um thriller psicológico, no qual o ciúme leva a malícia e a dor para uma grávida. A solidão e a perda são elementos que assombram quem assiste, em especial em meio a maternidade. Zoya Akhtar, cujo filme “Gully Boy” foi selecionado para o Oscar 2020 como representante da Índia, mas não foi indicado, conta a história de uma jovem enfermeira cuidando de uma mulher senil, em meio a uma situação esquizofrênica. A produção deses dois curtas está bem feita, cenário e paleta de cores bem requintada, que mostra as proezas técnicas do cinema indiano contemporâneo e os talentos de atuação de uma nova leva de artistas.

Já o curta de Karan Johar, o diretor mais comercial do quarteto, é uma tentativa malsucedida de infundir horror psicológico com a mistura típica do melodrama e do estilo chamativo de Bollywood em uma história de fantasma. Mas o melhor está na contribuição de Dibakar Banerjee, que é sem dúvida o cineasta contemporâneo mais promissor que trabalha atualmente na Índia. Quatro Histórias de Fantasmas marca sua primeira incursão no terror após bons dramas sociais e políticos. Com seu talento para fazer filmes,  cria uma história em uma vila rural onde os únicos sobreviventes de uma situação absurda  são duas crianças. À medida que criaturas assustadores começam a aparecer, Banerjee permanece fiel às possibilidades sensoriais do gênero, oferecendo uma analogia poderosa para a crescente onda de violência política e divisão da Índia no meio de uma onda de nacionalismo hindu.

É a terceira antologia desse deste quarteto de cineastas indianos, sendo Bombay Talkies (2013) e Quatro Histórias de Desejo (2018), que também estão disponíveis na Netflix Como um amostra, temos o que devem ser esquecidos e outros que devem ser expandidos para algo mais complexo, mas em todos os quatro curtas, o final parece confuso pela abordagem usada pelos diretores. São curtas que funcionam como contos aterradores, sobre esquizofrenia, demência, bizarrice, surrealismo, morte, humor negro, zumbis, assombração e contos de fada. Para quem queira conhecer um novo olhar para o terror vale a pena, dá uma olhada e ficar meio embasbacado pelas cenas perturbadoras.

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