Crítica | Popeye (1980)

Depois do sucesso de Grease — Nos Tempos da Brilhantina (Randal Kleiser, 1978) alguns dos estúdios de Hollywood ficaram determinados a explorar a veia do novo renascimento do gênero musical, iniciada com a história de amor entre Danny Zuko (John Travolta) e Sandy Olsson (Olivia Newton John). A Paramount Pictures procurou logo conseguir os direitos de um musical, Annie, inspirado nas tirinhas de Harold Gray, que após uma guerra de lances, acabou na Columbia Pictures, chegando ao cinema em 1982, com direção de John Huston. Assim o estúdio buscou produzir outra adaptação de um personagem dos quadrinhos, mas com a intenção de seguir com um musical.

No caso, o escolhido foi o marinheiro Popeye, o protagonista das histórias criadas por Elzie Crisler Segar que após o seu triunfo no papel, viajou o mundo em curtas metragens, dos irmãos Max e Dave Fleischer, e as aventuras na TV, fazendo uso de músicas em muitas de suas encarnações. Para seguir o projeto, a Paramount Pictures, dona dos direitos audiovisuais de Popeye, se associa com Walt Disney Productions, para uma produção que, dada a fama universal do conhecido marinheiro que ganhava força sobre-humana ao comer espinafre, poderia proporcionar grandes benefícios para ambas empresas.

Para adaptar as aventuras do clássico personagem ao cinema o roteirista, escritor e dramaturgo Jules Feiffer foi contratado, e para dirigir, depois de um notório baile de realizadores, a escolha ficou com Robert Altman, um profissional reconhecido que não estava em sua melhor época. O elenco, possivelmente o ponto mais forte do longa metragem tinham: Robin William, debutando no cinema, como Popeye; Shelley Duvall encarnando a Olivia Palito e um grupo de coadjuvantes que iremos apresentar a seguir.

Robin Williams fazia sua estreia no cinema e aqui encarna o papel do Popeye, combinando os dois aspectos cômicos do projeto, o físico e o diálogo, estabelecendo o tom para o resto de seus colegas fazerem o mesmo.

Shelley Duvall, também estreava no cinema e faz uma mimese entre atriz e personagem. Dá vida a uma Olivia que parece ter sido arrancada diretamente dos desenhos animados.

Paul L. Smith como Brutus.

Paul Dooley oferecendo sua voz e físico ao Dudu, o comedor de hamburguer.

Popeye encontrando seu pai, o vovô Popeye, interpretado por Ray Walston.

Cena com Popeye, seu pai, Dudu e Geezil (Richard Libertini) um verdureiro que discutia constantemente com Dudu.

Popeye (Williams) é um marinheiro que chega na pequena Sweethaven para saber o paradeiro de seu pai desaparecido. Ali se hospeda na pensão da família Oyl/Palito, cuja filha, Olivia (Duvall), está terminando os preparativos de sua festa de noivado com o capitão Brutus (Smith), um delinquente local que trabalha para o misterioso Comodoro (Ray Walston), personalidade que governa o futuro da comunidade das sombras. A incipiente história de amor que surgirá entre Popeye e Olivia, a aparição de um bebê abandonado (Wesley Ivan Hurt), Gugu, que será adotado por eles, a rivalidade entre Popeye e Brutus aumenta após o interesse de Olivia pelo marinheiro e a busca incessante do protagonista para encontrar seu pai criarão situações estranhas que tornarão Sweethaven em um terreno hostil para seus habitantes e imclusive para um inesperado polvo que causará um problemão a Popeye.

 

Quando o filme foi lançado em 1980 o personagem já tinha quase 50 anos de vida editorial que, como já apontamos, que fez fama em outros meios, principalmente audiovisuais. Por isso não seria não era irracional pensar que uma boa adaptação do personagem poderia ser bem-vinda pelos fãs deste em particular e pelo público em geral. Infelizmente o resultado não foi esse e o filme mesmo que tenha arrecado 60 milhões de dólares, a contrapartida de ter custado 20 milhões, sempre foi considerado um dos fracassos mais comentados da Hollywood contemporânea.

Análise 

A primeira impressão que o filme transmite é que os valores foram muito bem investidos pela Paramount e pela Walt Disney. Não podemos dizer o quanto de Sweethaven seja real ou parte da direção artística do filme, mas o local que dá vida ao povoado de pescadores um dos maiores êxitos do filme e as filmagens externas em Malta, um achado espetacular.

O set de filmagem da produção musical se tornou uma das principais atrações turísticas de Malta.

A partir daí, temos um Robert Altman, equipe e parte do elenco, num excesso de uso de drogas, de acordo com os próprios envolvidos, consegue transmitir o tom cartunesco e cômico dos quadrinhos para uma produção cinematográfica estrelada pelo personagem de E. C. Segar. Algo que exigiria ser fielmente extrapolado, e com a ajuda de um lendário diretor de fotografia como Giuseppe Rotunno, um colaborador regular de Federico Fellini, Altman cumpre seu papel como artesão a serviço de um produto muito longe de sua marca autoral, que paradoxalmente acaba tomando seu lugar, preenchendo todas as filmagens com gags visuais e cujo acabamento estilístico nos leva a uma versão lacônica e pessimista de autores como Charles Chaplin, Buster Keaton ou Jacques Tati.

Robert Altman e Robin William no set de filmagem.

O roteiro de Feiffer consegue capturar a essência da criação de E.C.Segar e, quando se trata de expor as aventuras de Popeye na tela, ele é notoriamente fiel a elas. Além da boa escolha do elenco e do notável trabalho das equipes de maquiagem e figurino, esse roteiro executa uma proximidade aos personagen que deveria agradar fãs e para aqueles que nunca ouviram/viram/leram aquelas histórias. Se a capacidade de Altman para o slapstick era bem sitonizado, se conseguiu desenvolver as vivências dos habitantes de Sweethaven, foi o timing cómico de Feiffer, sua facilidade com as gags e a experiência de escrever diálogos em quadrinhos por anos.

Junto a isso temos o elenco, é inevitável atestar o bom trabalho na escolha dos atores e na caracterização. Mas fica a pergunta se Popeye como filme possui tantos pontos positivos, porque falhou e acabou se tornando num fiasco histórico dentro das adaptações de personagens de quadrinhos ao cinema em particular? Sem dúvida, a natureza musical como produto cinematográfico e que pode ter funcionado bem em animação, mas não ficou legal aqui. As músicas e as breves coreografias desaceleram o bom fluxo narrativo, e podemos até mencionar que as danças estão entre o medíocre e o terrível. Aquele adorável Sweethaven da abertura é apenas uma miragem, todas as demais composições musiciais são sofríveis e é a maior fraqueza do filme de Robert Altman.

Popeye é um projeto falido como musical, mas é uma divertida comédia, uma produção bem feita nos demais aspectos, um desfile de um elenco cômodo aos personagens que os inspiraram e, uma adaptação dos quadrinhos criados por Elzie Crisler Segar quase cem anos cumpre sua missão. Vale assistir novamente, vale, apesar do fracasso que foi, podemos admirá-lo como uma raridade, tanto nos gêneros aos quais está ligado quanto na filmografia de seu diretor. Neste ponto, parece estranho que, com o boom de diversos outrso personagens invadindo a telona, a Paramont  ainda não tenha feito um remake estrelando o marinheiro mais conhecido dos quadrinhos e das animações. Só o tempo nos dirá se o veremos mostrar seus músculos, suas tatuagens, seu cachimbo e um pouco de espinafre no cinema. 

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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