Crítica | O Enigma de Kaspar Hauser (1974)

O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle, 1974), cujo título original é Todo homem por si e Deus contra todos, iniciou a colaboração entre o diretor alemão Werner Herzog (1942) e um de seus atores favoritos, Bruno Schleinstein (1932–2010), sobre um homem que passou a maior parte de sua juventude trancado em instituições psiquiátricas e prisionais por crimes menores. Bruno S. interpreta Kaspar Hauser, um adolescente órfão abandonado no meio das ruas de Nuremberg que viveu trancado em uma cela escura sem nenhum contato humano, exceto o do homem que o alimentou e cuidou, uma história verídica que da sociologia e da antropologia saltariam para a literatura e depois para o cinema.

A diferencia dos cinco filmes que Herzog realizou con Klaus Kinski (1926-1991), com Bruno S a empatia é maior, tanto em Stroszek como em O Enigma de Kaspar Hauser, pois o protagonista é um home destruído pela sociedade, que nunca teve uma oportunidade.  Ambos são indivíduos que, para o grupo social, são um problema a ser resolvido ou um sujeito para quem se busca um uso e não há ânsia de se livrar deles. Apoiado pelos extraordinários Walter Ladengast (1899–1980) e Brigitte Mira (1910–2005), Bruno S. fez sua estréia como ator aqui depois de impressionar Herzog com sua aparição em um documentário sobre músicos de rua.

Como na maioria de seus filmes, Herzog abre com uma elegia ao poder avassalador e ensurdecedor do silêncio no meio da multidão, um elogio à individualidade, uma composição suave e hipnótica que convida a perder-se na sua melodia leve, um prelúdio que sempre contrasta com os finais sombrios do cinema de Herzog. Nessa sequência, o cineasta constrói um de seus melhores começos com uma cena memorável que fica marcada na retina do espectador como uma eterna poesia que contrasta com a patética imagem de Kaspar trancado no meio de um estábulo e acorrentado como um animal.

Em O enigma de Kaspar Hauser, Herzog explora várias questões imbuídas de um austero existencialismo. Numa tensão em torno da necessidade do ser humano construir uma personalidade individual e sua obrigação de viver em sociedade é também uma das principais questões que o filme analisa e que tem um desenvolvimento verdadeiramente maravilhoso graças à escolha de Bruno S. como protagonista.

Em vez de se concentrar nas investigações que fizeram, Herzog se concentra aqui no personagem Kaspar, um jovem que descobre o mundo, sonha com a humanidade escalando uma montanha para encontrar a morte e escreve sua autobiografia enquanto estuda música enquanto os cientistas tentam explicar seu comportamento. Herzog é brilhante ao trabalhar a auto-absorção humana, a falta de empatia e a impossibilidade de homens e mulheres tentarem compreender os outros, corolário da intenção de sempre impor ao outro a verdade pessoal em vez de abrir a possibilidade de diálogo.

Mais do que nas obras antropológicas, sociológicas e psicológicas, Herzog baseou seu roteiro na romance popular de Jacob Wasserman (1873-1934), em Caspar Hauser oder Die Trägheit des Herzens (1908), que narra a vida do personagem do imaginário europeu, um jovem que cresce fora da civilização e depois deve se adaptar a ela, demonstrando a resiliência do ser humano diante da mudança. Herzog também usou a peça Kaspar (1967), de Peter Handke (1942), e um poema de Georg Trakl (1887-1914), A Canção de Kaspar Hauser (1913), obras que demonstram a influência da história de um jovem encarcerado e devolvido ao mundo em sua adolescência como uma história inspiradora e perturbadora ao mesmo tempo sobre a fragilidade do humano e sua dependência de estímulos externos.

Mozart, Pachelbel, Albinoni e Orlande de Lassus estão na trilha sonora, onde o diretor explora plenamente a inclinação para a música de Bruno S., interesse que também teve Kaspar Hauser, um jovem que teve que aprender a conviver com o multiplicidade de estímulos associados à vida urbana. Como é característico do cinema de Herzog, O Enigma de Kaspar Hauser é uma obra que combina um olhar inquisitivo sobre o mundo, um elogio à sensibilidade e ao diferente que dá cor ao meio social e uma crítica feroz à homogeneização do sentimento, do pensamento e existência em geral.

O personagem de Kaspar Hauser causou grande polêmica desde sua aparição devido a sua suposta origem e seu misterioso assassinato, mas Herzog claramente se concentra em trazer Kaspar ao presente para ensinar ao mundo uma grande lição que fica marcada, em cada espectador: cada pessoa tem um universo tão particular quanto imprevisível, e temos o dever de promover um mundo mais compassivo e respeitoso e menos arrogância e orgulho.

Homenagem póstuma: Herbert Achternbusch (1938–2022)

O escritor, pintor e diretor alemão Herbert Achternbusch morreu em 10 de janeiro, de causas naturais, aos 83 anos. Achternbusch, que nasceu em Munique, cresceu com sua avó na Floresta da Baviera. Depois de se formar no colegial em Cham, ele estudou nas academias de arte em Munique e Nuremberg e se deu bem com biscates antes de começar a escrever. Suas obras incluem inúmeros filmes, peças de teatro, livros e pinturas, e é mais conhecido por seus filmes bizarros como “Andechser Feeling”, “Servus Bayern” ou “The Ghost”.Já na década de 1970, Achternbusch entrou em contato com a cena de cineastas de autor alemães em torno de Werner Herzog, Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta, foi nesse período que interpretou o hipnotizador de galinhas nesse filme.

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