Crítica | Missa da meia noite (Midnight Mass)

Olá leitores do Mundo Hype!

Hoje vim falar de uma série que tem sido bem comentada desde o seu lançamento. Missa da Meia Noite (Midnight Mass) é uma obra classificada como terror, e foi escrita e dirigida pelo diretor Mike Flanagan e está disponível na Netflix. Se esse nome não despertou nada em você nesse momento, posso refrescar a memória: Mike dirigiu os filmes Hush, O Espelho, Doutor Sono e Jogo Perigoso (adaptações de Stephen King), e as séries A Maldição da Residencia Hill e A Maldição da Mansão Bly, que também estão disponíveis na Netflix.

Conhecendo o histórico do diretor, já poderíamos esperar algo aterrorizante, mas que não se prenderia aos sustos descabidos que estamos acostumados com os filmes de terror. Mike Flanagan conseguiu entregar um terror psicológico diferente em Missa da Meia Noite. Por mais que existem na série alguns jump scares, o terror também acontece com pequenas coisas, como olhos na escuridão (principalmente depois da tempestade), barulhos no teto e a reação dos personagens à uma criatura presente na série

Agora, vamos falar sobre a série que tanto me envolveu em seus sete episódios.

Sinopse: Missa da Meia-Noite é a nova série de terror original da Netflix desenvolvida por Mike Flanagan, criador de A Maldição da Residência Hill. Na trama, Riley Flynn (Zach Gilford) retorna para sua cidade natal depois de anos e esconde um passado sombrio. E com a chegada de padre Paul (Hamish Linklater), um homem carismático e misterioso, nessa comunidade costeira e isolada, eventos milagrosos e presságios assustadores começam a acontecer, causando comoção entre os moradores da pequena ilha.

Erin e Riley
Erin e Riley

Como a sinopse já diz, Riley é o nosso fio condutor no inicio da trama. Depois de quatro anos preso após matar uma pessoa ao dirigir embriagado, Riley acaba voltando para a ilha onde cresceu, Crockett Island, uma ilha que fica a cinquenta quilômetros da costa. Com uma comunidade pequena formada por apenas 127 habitantes, todo mundo conhece todo mundo, e as pessoas já sabem os seus respectivos status quo ali. Porém junto com a chegada de Riley, temos também a chegada do padre Paul, um homem misterioso que precisa se inserir naquele meio tão fechado.

Riley é muito importante para nos conectar à história contada, mas é preciso perceber que ele é um meio usado pelo diretor, e a história de Missa da Meia Noite não é sobre ele ou sobre a criatura, e sim sobre a ilha e sobre como o fanatismo que acaba se desenvolvendo após um milagre pode levar as pessoas a cometerem atos inimagináveis.

Padre Paul
Padre paul. Missa da Meia Noite

Nessa ilha vivem também Erin Greene (Kate Siegel), uma mulher que cresceu com Riley e tentou ser atriz fora da ilha, mas acabou voltando após sua carreira de atriz não ter dado certo, Sheriff Hassan (Rahul Kohli) é o novo xerife mulçumano, que acaba sofrendo preconceito por ser uma minoria gritante em uma comunidade extremamente católica, Dr. Sarah Gunning (Annabeth Gish) é a médica da ilha, que precisa cuidar da mãe demente, e Beverly Keane (Samantha Sloyan) é uma mulher religiosa de fé inabalável, que tem grande influência sobre a ilha e é conhecedora profunda da bíblia sagrada.

Missa da Meia Noite é dividida em sete episódios, cada um deles com um nome de um livro da bíblia que acaba tendo relação com o desenrolar da história. Começamos a série com Riley voltando para casa, tentado se reconectar com seus pais e acaba reavivando sua antiga amizade com Erin. Riley precisa participar do encontro do AA, e padre Paul se oferece para abrir um grupo na ilha, de modo que Riley não precisasse voltar ao continente todas as vezes. Riley perdeu sua fé na prisão, tornando-se ateu, mas, devido ao seu passado como coroinha, consegue conversar e debater com o padre sobre sua falta de crença e seus motivos, o que rende ótimos diálogos entre os dois.

A mesmo tempo que isso acontece, uma tempestade se aproxima da ilha, e vemos os moradores se organizando para diminuir os danos e saberem lidar com uma possível catástrofe que está por vir. Nesses momentos vemos como Beverly tem influencia, pois ela não abre espaço para que outras pessoas falem, principalmente o xerife, por considera-lo inferior por ter uma religião diferente da dela.

A dinâmica na pacata ilha muda a partir do momento que o padre Paul consegue realizar um grande milagre, e esse milagre acaba inflamando as outras pessoas na ilha a o seguirem de forma cega. E, muitas vezes, tanto o padre quanto a própria Beverly distorcem versículos e interpretações da própria Bíblia para justificar os atos e caminhos que tomam na série. Pessoas pecadores que se vestem como ilibadas para guiar pessoas perdidas. Interpretações subjetivas que acabam se tornando literais ao seu bel prazer. E, são nesses momentos, que vemos que um personagem ateu e um mulçumano são mais cristãos do que muitos dos que batem no peito se dizendo ‘de Cristo’ mas sem usar do conhecimento religioso que tem como um todo, ou da forma correta.

Missa da Meia Noite não é uma crítica direta à religião, longe disso. A série vem abrir nossos olhos para discursos fanáticos e inflamados que distorcem a palavra que foi trazida, que excluem o respeito à outras religiões, e a construção de grupos que se acham superiores aos outros por causa de uma crença (religiosa, no caso da série, mas que pode ser política, econômica, social e vários outros na vida real).

Missa da Meia Noite trata com maestria a discussão desse assunto, mostrando que devemos abrir nossos olhos para conseguirmos discernir o certo do errado, principalmente daqueles que se dizem quase perfeitos, pois muitas vezes são os primeiros a caírem.

Recomendo muito a assistirem Missa da Meia Noite. É um terror, mas com um aprofundamento na mente humana e no que nos leva a tomar atitudes de bando em determinadas situações. E, principalmente, não abala a sua fé, mas pode mostrar que é bom racionalizar as palavras de muitos líderes que vemos por aí.

 

A partir daqui, vou dar alguns spoilers da série, então recomendo voltar após assistir a mesma. Ainda assim, são pequenos spoilers.

 

 

 

 

Uma das passagens da série que mais me chamou a atenção foi quando o padre Paul chama as pessoas para se tornarem o exército de Deus, exército esse que pouco depois perde completamente o controle. E, por incrível (ou não) que pareça, temos hoje pessoas que se denominam exatamente dessa forma no nosso país, que são um exército que, a qualquer momento, poderia perder o controle como acontece na série.

Além disso, é possível ver a cegueira dos habitantes da ilha ao cultuarem um demônio chupador de sangue, acreditando que o mesmo era um anjo. E, no final, quando o próprio demônio aparece na igreja e ataca a uma pessoa, ninguém se questiona sobre a ação dele, apenas acreditam que ele é um anjo porque tem asas, e porque uma pessoa com ‘poder’ usou de passagens bíblicas isoladas para justificar a existência do mesmo ali.

Bervely, vulgo nojenta em Missa da Meia Noite
Bervely, em Missa da Meia Noite

E, por fim, o maior monstro da série não é a criatura alada, o demônio que foi cultuado como anjo. O maior monstro da série foi a beata transvestida de santa, Beverly. E tenho que elogiar a atriz que entregou uma personagem perfeitamente fácil de se odiar.

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