Crítica | Marianne

Uma série que chegou sem aviso, sem nenhum alarde e logo conquistou seu espaço, entre os fãs de terror, e outros grupos foi Marianne. Saiu pela Netflix recentemente, a produção francesa se tornou a estreia de gênero mais incrível do ano, com sua fórmula inteligente de brincar com bruxaria, humor, literatura e aventuras.

SINOPSE: Ao descobrir que suas histórias aterrorizantes estão se tornando reais, uma escritora retorna à sua cidade natal para enfrentar os demônios do passado que inspiram seus livros.

Quem se lembra do filme À Beira da Loucura (1994) de John Carpenter? A narrativa tratava de um desaparecimento de uma escritora de livros de terror e de um detetive que foi contratado para achá-la, e assistimos uma abordagem direta à loucura e ao melhor horror lovecraftiano.

Marianne, a série estreante, recupera parte dessa essência do terror francês, retornando com sucesso o estilo de nomes como Alexandre Bustillo, Julien Maury, que fizeram sucesso há quinze anos ou de Alexandre Aja, Pascal Laugier, Xavier Gens que apresentaram um pouco da visão francófona para com o gênero. Já há um certo tempo, que não via um horror neste estilo e que o desconhecido Samuel Bodin trouxe à Netflix com uma memória muito viva da época. Seguindo as regras do horror tradicional e adaptando ao streaming, Bodin e equipe técnica abordam na série o ritmo, medo e referências do mais alto nível. Uma prova palpável e sangrenta de terror extraordinariamente bem feita, sem arroubos aéreos ou sustos livres com base em qualquer um dos pesadelos que saíram recentemente por aí. Ousamos até em dizer que está bem acima de grande parte do gênero de terror atual que saiu para a telona.

Tudo começa quando uma romancista, após dez anos de sucesso de sua saga de terror, decide dá uma pausa na sua carreira, e acaba descobrindo que o demônio de seus livros existe no mundo real. Esse espírito malévolo, de nome Marianne, insistirá que a escritora continue escrevendo se não quiser acompanhá-la ao próprio Inferno. Parece que o débito de seus pesadelos fictícios que a levaram à fama está sendo cobrado e se metamorfoseiam em uma senhora, que como uma bruxa se alimenta de todo o terror que a protagonista e os espectadores sentirão. A escritora comunga a história de muitos outros autores do gêneros, que exorcizam demônios internos através de suas narrativas distorcidas. Ou a realidade é pervertida para se tornar a matriz da fantasia que elabora. Ou é o contrário, quando escreve, a fantasia muda, dando espaço a uma realidade assustadora.

Um horror psicológico dividido em duas partes; a primeira com a apresentação, que quebra a realidade do espectador, gerando uma metaficção em que a escrita é posta em ação sobre quem a cria. E a segunda, do quinto episódio em diante, em uma viagem sombria. Outro aspecto interessante, é que em cada episódio menciona-se um autor do gênero, repassando a sensação obscura, ganhando vida diante de nossos olhos.

Nathaniel HawthorneArthur MachenEdgar Allan PoeHenry JamesHP Lovecraft entre outros são lembrados, onde o terror gótico é transcendido pelo horror psicológico, e encontramos a degeneração mental, a depressão, a tristeza ligada ao oculto e ao sobrenatural.

Mas sem dúvida, o maior sucesso da série está em Mireille Herbstmeyer, cujo rosto marcará seus sonhos, ou melhor, será motivo de pesadelos, durante uma boa temporada.  Uma atriz de teatro desconhecida do público, especialmente fora da França, brilha como uma psicopata possuída pelo mal. Seu sorriso sem fim, o perfil e o olhar impossível de suportar sem calafrio, conseguem estremecer pela simplicidade. E esse é o grande segredo da série:  o diretor criou um horror em sua forma mais pura: sem excessos para causar medo. Victoire Du Bois, interpretando a escritora, faz uma anti-heroína moderna que gradualmente se transforma em uma criatura insuportável, assim como seus amigos estereotipados, que no final vivem uma reviravolta a la Stranger Things.

A forma que Marianne foi editada ficou melhor do que qualquer outra série de gênero atual. Ou seja, muitas séries trazem uma cena ou um momento marcante para impactar o público, de maneira isolada até, quase para justificar que pertence ao gênero, enquanto o restante fica banal. Temos a frente uma série que nos aterroriza, como um bom Stephen King fez em algumas de suas obras, em cenas simples, mas carregadas pelo temor.

A ambientação do cenário, a atmosfera pesada, pútrida em momentos, o humor zombeteiro que bagunça a nossa mente e a música compõem uma montagem excelente para a série. Os capítulos e as cenas brincam com o recurso de enquadramentos subliminares, um uso inteligente e quase metafórico das transições, usado para ser um vislumbre de páginas, como se a própria edição da série quisesse pular as partes menos interessantes da história. Algo, que ocorre, para aqueles que maratonam séries e, que pressionam o avanço de dez segundos.

Vale dizer enfim que a viagem é repulsiva, sombria e divertida, uma história distorcida e aterrorizante ancorada no inconsciente. Não é Pennywise, é Marianne. Um inicio promissor com seus jogos literários, de metaficção, de homenagem aos mestres do gênero literário, mas que acelera para um fim mais aventuresco e de vingança. Mesmo assim assistam e se contorçam com o terror apresentado…

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