Crítica | Irmão Urso (2003)

Kenai é um bravo jovem inuíte com uma aversão especial por ursos. Quando seu irmão Sitka é morto por um, Kenai mata o urso, mas é magicamente transformado em um deles. Para piorar a situação, seu outro irmão, Denahi, jura matar o urso que Kenai se tornou. A única esperança de Kenai é uma montanha mágica, onde ele acredita que pode ser transformado de volta em um ser humano e ele pede a Koda, um verdadeiro filhote de urso, para ajudá-lo a chegar lá.

História

Irmão Urso é a 44º longa-metragem de animação da Disney (2003). Quando foi lançado, recebeu critícas negativas da grande imprensa americana. Dizia que o renascimento da animação da Disney que havia começado com A Bela e a Fera (1991) começou a se dissipar numa série de fracassos de crítica e bilheteria. Após O Rei Leão (1994), Michael Eisner (1942), pediu mais animações centradas em animais e sugeriu um cenário norte-americano, inspirando-se particularmente nas pinturas de Albert Bierstadt (1830-1902). Para acompanhar a ideia do “rei”, o herói seria naturalmente um urso, o rei da floresta.

Então em 1997, o veterano animador Aaron Blaise (1968) entrou no projeto e logo se juntou a Robert Walker (1961-2015) na direção. Como Blaise desejava uma história mais naturalista, Blaise e o produtor Chuck Williams (1915-2015) produziram um pré-roteiro de uma história de pai e filho na qual o filho é transformado em urso e, no final, continua sendo um urso. Thomas Schumacher (1957), então presidente da Walt Disney Feature Animation, aprovou a história revisada e proclamou: “Esta é a ideia do século”. Tab Murphy, que co-escreveu os roteiros de O Corcunda de Notre Dame, começa a rascunhar o roteiro da animação.

Depois que o projeto recebeu luz verde, Blaise, Walker e equipe embarcaram em uma viagem de pesquisa em 1999 para visitar o Alasca. Um ano depois, a equipe de produção fez viagens de pesquisa adicionais por Yellowstone, entre outros parques nacionais. No início de 2000, a história evoluiu para um conto em que o Kenai transformado é levado por um urso mais velho, Grizz, que seria dublado por Michael Clarke Duncan (1957-2012). No entanto, essa versão foi preterida com a do filhote Koda, dublado por Jeremy Suarez.

A resposta de bilheteria para Irmão Urso foi bem medíocre, era o prenúncio de um declínio que perseguiria a animação da Disney ao longo dos anos 2000, onde seus filmes de animação pareciam perder seu brilho e eles se tornaram uma série de não-iniciantes de coçar a cabeça. Irmão Urso foi lançado em 24 de outubro de 2003, e não foi como O Rei Leão, mas foi indicado ao Oscar 2004 de Melhor Animação.

Análise

Irmão Urso não é um filme tão ruim quanto a crítica da época destacou. É certamente melhor do que outros que saíram do renascimento da Disney dos anos 1990, notadamente similar a Pocahontas (1995). O filme retoma o cenário da pré-história que se mostrou popular na animação nos últimos anos como Dinosssauro (2000), A Era do Gelo (2002), e antes de tudo isso com Em Busca do Vale Encantado (1988), de Don Bluth.

Vários filmes do renascimento da Disney na década de 1990 desejavam atrair um público mais amplo, ocupando outros cenários culturais; como os casos da cultura nativa americana e espiritualidade em Pocahontas, da cultura chinesa em Mulan (1998), um fundo havaiano em Lilo & Stitch (2002), da cultura afro-americana em A princesa e o sapo (2009), até mesmo supõe-se a cultura asteca em A Nova Onda do Imperador (2000). Da mesma forma, Irmão Urso faz uma tentativa respeitável de usar a cultura inuíte como pano de fundo. Sugere uma mistura peculiar de A Era do Gelo, Atanarjuat O corredor mais veloz (2001), com alguns traços (embora mais sérios) do enredo da maldição da transformação humana em animal de A Nova Onda do Imperador.

O inicio de Irmão Urso tem surpreendentemente um tom adulto. A montagem das cenas contrastando com a jovialidade de Kenai e irmãos, seguida pelo assassinato do irmão e o juramento de vingança de Kenai contra o urso, tratam de emoções que são incomuns para um filme da Disney. É raro a Disney colocar isso numa produção, mesmo que o irmão faça suas aparições, ele ainda permanece morto.

À medida que segue a animação, a sensação é que estamos assistindo uma súbida maturidade da narrativa. Infelizmente, a animação não sustenta isso. Uma mudança abrupta de ritmo, além de um choque na apresentação, passando de um quadro de 3/4 para widescreen, acaba levando para uma fantasia padrão de animais falantes da Disney. Até a cor do filme muda, passando de um cenário predominantemente monocromático de montanha para uma rica paleta de cores de arco-íris nas cenas da floresta.

Eventualmente, essa parte do filme com animais falantes tem sua simpatia. É um arco que envolve a mudança das crenças de Kenai sobre os ursos e a percepção de que eles não são os monstros, mas que os humanos pintaram os ursos como monstros e que os animais consideram os caçadores humanos os agressores. Há um enredo previsível seguindo o protagonista e o relacionamento com o companheiro que insiste em considerá-lo como um irmão.

Os cenários do filme são todos impressionantes. Phil Collins, após o sucesso da trilha sonora de Tarzan, teve a oportunidade de compor músicas para essa nova animação, mas não conseguem ter o mesmo caminho em Irmão Urso. Mas a música de entrada com Tina Turner e o coral (Coro Feminino Búlgaro) em inuit estão perfeitas.

No fim, a animação Brother Bear conseguiu nos entreter e a criançada pode até gostar, ainda hoje, mas falta o esforço extra na narrativa e animação que é frequentemente associado a Disney. É um conto bem-intencionado de amor fraterno, mas carece de substância.

Elenco

Joaquin Phoenix (1974), então com 29 anos como Kenai;  o garoto de 13 anos: Jeremy Suarez (1990) como Koda; os comediantes Dave Thomas (1949) e Rick Moranis (1953) como os alces Tuke e Rutt; Jason Raize (1975–2004) como Denahi/Dinai; D.B. Sweeney (1961) como Sitka; Joan Copeland como Tanana; entre outros.

Homenagem póstuma: Joan Copeland (1922-2022)

A atriz Joan Copeland, morreu no dia 04 de janeiro desde ano aos 99 anos de idade. Joan era irmã do dramaturgo Arthur Miller, que foi casado com a estrela Marilyn Monroe. Em Irmão Urso dublou a personagem Tanana, a xamã tribal no tribo de Kenai. Nascida em Nova Iorque em 1º de junho de 1922 como Joan Maxine Miller, numa família judia de classe média. Começou a atuar no teatro em 1945, e fez parte da primeira turma do lendário Actor’s Studio. A atriz escolheu Copeland como seu nome artístico para se distanciar do irmão famoso quando estreou na Broadway em 1948. Lembrada por seus numerosos papéis em peças da Broadway, teleteatros, novelas (soap operas) em séries de televisão conhecidas, como a juíza Rebecca Stein na série Lei & Ordem (Law & Order), papel que desempenhou entre 1991 e 2001. Sua carreira cinematográfica foi esporádica e suas aparições foram quase exclusivamente em papéis secundários, se aposentando em 2011, mas aparecendo em documentários importantes sobre o cinema. A artista perdeu a vida durante o sono na sua casa em Manhattan, em Nova Iorque, confirmado por seu filho, Eric, ao The Hollywood Reporter.

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