Crítica | Incêndios

Se não me engano foi o diretor Michael Haneke quem nos disse: “Filmes que são entretenimento dão respostas simples, mas acho que isso é, em última análise, mais cínico, já que nega ao espectador espaço para pensar. É dever da arte fazer perguntas, não fornecer respostas. E se você quer uma resposta mais clara, vou ter que recusar”.

E exatamente na mesma linha o diretor Lars Von Trier completou: ”Um filme deve ser como uma pedra no sapato”. Pensando exatamente nesse sentido é que sempre procuro por filmes que fogem da curva, da pipoca e da Coca-Cola.

Longe de mim a necessidade de status Cult ou outra coisa do tipo, na realidade o meu caso de amor com esses filmes fora da curva é algo que eu chamaria de ”Masoquismo cinéfilo”. Gosto da sensação de alma dilacerada, de seco na garganta, da efervescência do encéfalo.

Depois dessa iniciação acho que cabe deixar a vocês a sinopse da maneira mais simples possível. Afinal, esse é um filme que merece ser visto sem saber muito da história e sem Spoiler algum, pois assim o Plot Twist será mais perturbador.

 Sinopse:

Nawal (Lubna Azabal), uma mulher moribunda do Oriente Médio que vive em Montreal, deixa cartas para seus filhos gêmeos para serem lidas quando ela falecer. Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) deve entregar a dela para o pai que nunca conheceu e Simon (Maxim Gaudette) deve entregar a dele para o irmão que nunca soube que tinha. Os irmãos viajam para o Oriente Médio separados e vivenciam atos de brutalidade, descobrem uma história familiar surpreendente e têm revelações sobre si mesmos.

O diretor Denis Villeneuve ao meu ver tem se firmado como um dos grandes diretor de cinema dos dias atuais. Em seu curriculum o diretor apresenta filmes maravilhosos como Os Suspeitos, O Homem Duplicado e Blade Runner. O diretor em Incêndios nos apresenta um drama bem trabalhado, um filme sincero e necessário para refletirmos sobre o cenário social e político de uma guerra que nunca terá fim.

Denis é simplesmente sensacional em apresentar um filme de guerra sem romantizar a história e sem nos trazer a necessidade do cinema americano de um herói salvador. O filme aponta o dedo na nossa face e nos mostra que somos também culpados por essa guerra, que junto aos americanos financiamos esse holocausto e nos permitimos viver a margem da caverna de Platão.

A cada cena construída tomamos um choque ao conhecer a história de nossa personagem, o que me incomodou um pouco no filme é a questão da linha do tempo que não é tão bem estabelecida no filme e o tornou um pouco confuso.

Em alguns momentos o filme parece um pequeno documentário, isso é tão belo e bem feito no filme. A narrativa do filme após seus 15 minutos de acontecimento é tão acelerada e avassaladora, se você sentir a necessidade de pausar o filme em algum momento é só pra respirar e ingerir tudo que nos é apresentado no filme.

O cenário da guerra é incerto, ainda que temos semelhanças com a guerra civil do Líbano em questão de ano e desavenças religiosas. Porém, o diretor nomia as regiões apenas como ”a cidade” ou ”o Sul”.

O filme consegue nos apresentar a consequência de uma guerra na vida de uma pessoa, seus impactos e suas marcas sem se tornar um dramalhão forçado. O diretor ele faz um equilíbrio muito bom quando se trata de demonstrar violência e apenas descrever, e a violência que ele nos apresenta não é apenas para chocar e assim tornar-se algo para chamar a atenção.

O filme nos mostra os horrores criados em cima de conceitos religiosos, conceitos a qual caímos normalmente no senso comum de associar horrores ao Islã. Porém, por não sabermos onde o filme se passa o diretor nos deixa em claro que por uma religiosidade cega e absurda matamos, escravizamos, julgamos, torturamos e acabamos com sonhos e vidas em nome de ”Deus”.

E essa responsabilidade não podemos atribuir somente ao extremismo religioso do Islã, pode ser difícil mas temos culpa nisso também. E nossa culpa é aceitar tudo que nos é imposto sem questionar, nossa culpa é comprar discursos retrógrados, nossa culpa é se comover com a tragédia do 11 de Setembro e esquecer que em países invadidos pelo Estados Unidos todos os dias são 11 de Setembro.

Nossa culpa é maior ainda quando atribuímos de discursos intolerantes religiosos, quando não perguntamos quem financia essas guerras.

O final que nos é dado é de uma grande reviravolta e revelação, ainda que seja de difícil aceitação para muitos devido a semelhanças. No entanto, em um país devastado, sem lei, sem estrutura alguma a pergunta que fica é: ”Será que não é possível?”.

O que vale mesmo é assistir esse filme bem realizado e produzido, vale cada atuação e entrega, cada direção feita com maestria e cada fotografia bem realizada. Vale sair um pouco da zona de conforto e se propor a assistir esse filme denso, real, forte e necessário.

Cabe a mim agradecer imensamente ao meu amigo Raoni de Lucia (Escritor aqui do Mundo Hype) e minha amiga Dani pela indicação desse filme maravilhoso e pela confiança de ambos dessa resenha.

E você, já viu este filme?

O que achou?

Deixe sua opinião nos comentários, pois acho que este é um filme que vale muito ser visto e discutido.

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