Crítica | Good Trouble (1ª Temporada)

Em toda sociedade existe ritos de passagem, explicita ou implícita, são maneiras que se apresentam intrínsecas na própria natureza humana. E há séries televisivas que desenvolvem esse intercurso, mostrando a evolução de seus personagens ao longo dos anos, numa vivência de transformação que alavanca a narrativa da série ou descamba para o insucesso.

Esse é o caso da série Good Trouble, do canal Freeform, nome que o ABC Family, spin-off de uma outra série, que amplia o cenário de algumas personagens. No caso, tratamos do seriado The Fosters, que trazia uma dinâmica familiar entre um casal de lésbicas inter-raciais, a policial Stef (Teri Polo) e sua esposa Lena (Sherri Saum), gestora de uma instituição escolar; que adotam uma casa cheia de adolescentes problemáticos.

O foco dessa série estava na diversidade, na relação entre o casal Lena/Stef, questões raciais (os pais de Lena, identidade latina dos gêmeos adotados), orientação sexual e debate sobre significado de família em meio a questões sociais e politicas. Já Good Trouble (2019), surge a partir de The Fosters contando a história de uma das gêmeas, Callie e uma das problemáticas, Mariana, com seus dilemas, agora formadas e morando em Los Angeles.

ANÁLISE

Maia Mitchell (Callie) e Cierra Ramirez (Mariana) retornam seus papéis para encabeçar o elenco desta nova proposta. Onde seguiremos seus primeiros passos como jovens adultas independentes na cidade de Los Angeles. Irão lidar com tudo o que envolve começar uma nova vida fora de casa, desde novos amigos e responsabilidades no trabalho, até casos amorosos e outros relacionamentos pessoais. Callie, recém-formada em direito, começará a trabalhar como estagiária para um juiz conservador, enquanto sua irmã, que acabou de terminar seus estudos no MIT, terá sua primeira experiência profissional como programadora em uma empresa dedicada a novas tecnologias.

A descoberta que a idade adulta é algo muito mais complicado do que esperavam, que os problemas se acumulam com muita facilidade e que, pela primeira vez na vida, terão que aprender a resolver sozinhos os contratempos que aparecerão no seu caminho. A série transformar um drama clássico da família, mas do ponto de vista jovem e feminista, conseguindo se adaptar perfeitamente ao mundo atual, como assédio no local de trabalho, justiça social etc.

Como as duas atrizes passaram anos interpretando esses personagens, elas ficam cômodas em seus papéis e  estabeleceram uma boa química entre elas. São totalmente capazes de levar o peso da série por si mesmas. Embora apresente as protagonistas de maneira mais madura, seus passos em seu novo ambiente profissional ainda estão repletos de alguns de seus velhos hábitos. Callie e Mariana após seus anos de formação na universidade, se comportam como remanescentes do “The Fosters” em suas vidas diárias – como namorar  ou sua animada dinâmica com suas mães. Um aspecto, seu amor fraternal e apoio mútuo, ainda é tão forte quanto antes e carrega a crença de que a família sempre vem em primeiro lugar, independente de sua formação.

No meio dessa relação, as duas serão serão aliadas e desafiadas por seus novos colegas de quarto, um grupo eclético de jovens profissionais que variam em raça, orientação sexual e crença espiritual. Assim terão que descobrir como coabitar, pagar aluguel e até se lembrar de reabastecer o papel higiênico. Embora seja um problema trivial, é a diferença entre um dia ruim e um desastroso durante seu primeiro ano por conta própria.

Entre os personagens com maior potencial, embora não tenha tanto tempo de tela, estão Alice (Sherry Cola), uma jovem lésbica de ascendência asiática, Gael (Tommy Martinez), uma artista bissexual, e Davya (Emma Hunton), uma brilhante especialista em mídia social cansada de seu emprego de rotina. É normal, pois Callie e Mariana são os protagonistas absolutos da série e os próximos episódios o tempo foi dedicado ao desenvolvimento dos demais personagens.

Alice (Sherry Cola)

Gael (Tommy Martinez)

Davya (Emma Hunton)

O uso de flashbacks da série-mãe para preencher as lacunas da narrativa se choca com o uso de cortes rápidos onde o personagem deseja que eles possam dizer em uma situação social embaraçosa, antes que os espectadores recebam a resposta mais educada que eles realmente deram em ordem para salvar a cara. É o tipo de situação em que a série deveria ter optada por um ou outro, mas provavelmente não os dois, pois os flashbacks constantes e os cortes rápidos para respostas alternativas nos afasta da história principal de uma maneira que a machuca.

Mas a série, apesar desse ponto negativo, consegue fazer o que foi desenvolvida, ser juvenil. Good Trouble tem aquela empatia em trazer seus personagens para próximos de você, para o seu público, mostrando erros comuns da idade, alguns bem estúpidos por sinal. Para quem assistir irá se colocar na telinha ou lembrar de quando era mais jovem e assim ver o crescimento pessoal dos personagens.

E é um aspecto agradável, mesmo que mostre as duas protagonistas cometendo equívocos diversos. E as mães não estão lá para salvar o dia. Mas cada qual em seus trabalhos experimenta o que nos amadurece, a série vai equilibrando tons televisivos, do progressivo ao bom-mocismo, do realismo sério a telenovela com sexismo.

Mariana em seu trabalho não pode acabar com o sexismo e o racismo, só se manifestando  fora do escritório. Callie luta para se destacar como escriturária de um juiz federal, pois é incapaz de expressar publicamente suas crenças políticas ou as causas em que acredita, o que é algo que vai ao âmago de seu ser. Será uma batalha que durará a série e não uma temporada.

A série é dirigida pelo Jon M. Chu (Podres de Ricos, 2018) que visualmente traz uma Los Angeles, um centro urbano diverso, outrora grandioso, mas que está se recuperando, em um processo de reconstrução dos serviços públicos básicos e seu entorno, lembrando muito a Gentrificação, um fenômeno atual que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas da composição do local. É uma metáfora visual para o que ocorre com Callie e Mariana, que vêm de origens problemáticas, mas estão fazendo o possível para criar algo entre as ruínas.

Conforme imaginado pelos criadores da série (e pelos mentores de The Fosters) Joanna Johnson, Bradley Bredeweg e Peter Paige, a série é o primeiro bom drama da Geração Z na TV. É franco e sincero, e usa isso bem, até mesmo os nuances da política. Good Trouble é o que todos os spin-offs devem ser. É a continuação de uma história que fez sucesso, mas sob um novo ângulo, e é inteiramente capaz de se manter por conta própria. Se envolva em um bom problema.

 

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

Leia mais Críticas

Crítica | American Horror Story – 3ª Temporada

Boa noite aos amigos do Mundo Hype. Como disse nos comentários finais da segunda temporada de "American Horror Story" (ou AHS como é mais conhecida),...

Crítica | Warrior Nun – 1ª Temporada

Boa noite aos amigos do Mundo Hype. Terminei a primeira temporada de "Warrior Nun" (aqui traduzida como "Freira Guerreira"), e mantive um ritmo até muito...

Crítica | American Horror Story – 2ª Temporada

Bom dia aos amigos do Mundo Hype. Como disse nos comentários finais da primeira temporada de "American Horror Story" (ou AHS como é mais conhecida),...

Crítica I A Lenda de Beowulf

Boa noite aos amigos do Mundo Hype. Hoje logo de manhã (para falar a verdade na madrugada...rrsss) tive o prazer de ler o review do...

Crítica | Popeye (1980)

Depois do sucesso de Grease — Nos Tempos da Brilhantina (Randal Kleiser, 1978) alguns dos estúdios de Hollywood ficaram determinados a explorar a veia...

Crítica | American Horror Story – 3ª Temporada

Boa noite aos amigos do Mundo Hype. Como disse nos comentários finais da segunda temporada de "American Horror Story" (ou AHS como é mais conhecida),...

Crítica | Warrior Nun – 1ª Temporada

Boa noite aos amigos do Mundo Hype. Terminei a primeira temporada de "Warrior Nun" (aqui traduzida como "Freira Guerreira"), e mantive um ritmo até muito...

Crítica | American Horror Story – 2ª Temporada

Bom dia aos amigos do Mundo Hype. Como disse nos comentários finais da primeira temporada de "American Horror Story" (ou AHS como é mais conhecida),...

Crítica I A Lenda de Beowulf

Boa noite aos amigos do Mundo Hype. Hoje logo de manhã (para falar a verdade na madrugada...rrsss) tive o prazer de ler o review do...