Crítica | Dois Papas

O Irlandês (The Irishman) e História de um Casamento (Story of a wedding) chamam a atenção no catálogo de filmes originais da Netflix nos últimos meses, e o streaming avança com outro títulos. Como o novo clássico de Natal, Klaus, dirigido pelo espanhol Sergio Pablos, e agora é a vez de Dois Papas, o novo trabalho de Fernando Meirelles.

Baseado na peça teatral de Anthony McCarten, Dois Papas responde bem ao crowd pleaser, já que tudo no filme parece projetado para deixar o espectador leve com a narrativa, em vez de oferecer uma visão mais nítida de um momento-chave dentro da história da Igreja Católica. Isso leva o filme a confiar quase que inteiramente nas interpretações de Anthony Hopkins e Jonathan Pryce, que estão fenomenais em seus papéis.

McCarten assina o roteiro, mas para compreender sua abordagem com os personagens, devemos lembrar que o neozelandês é conhecido por oferecer uma visão mais funcional dos acontecimentos reais, jogando a importância de seu trabalho em protagonistas, como fez com Eddie Redmayne em A Teoria de Tudo (2014), com Gary Oldman em O Destino de uma Nação (2017), ou Rami Malek em Bohemian Rhapsody (2018). Em Dois Papas, encontramos novamente esse aspecto, com uma surpresa, um tom mais ágil e divertido. Sem dúvida, é uma forma de registrar a distância que uma parte importante do público pode sentir em relação às figuras de Bento XVI e Francisco I, optando por centralizar o eixo da história no segundo, de ideologia mais progressista.

Asim, o filme não se aprofunda nas possíveis motivações de Ratzinger para se aposentar, uma vez que não trata disso, justificando a decisão do clérigo alemão como uma espécie de iluminação repentina que a Igreja Católica precisava de alguém como Bergoglio no comando. Há sim, o aprofundamento do papel que o sacerdote argentino desempenhou na igreja ao longo dos anos, enquanto tudo permanece no ar no caso de Ratzinger.

Mesmo assim, é delicioso de assistir, pois o que deixa passar, poucos sabem ou se informaram sobre o assunto. É algo ainda às escuras, mas o que traz é satisfatório ao público, pois mostra como alguém que está prestes a enviar sua demissão muda de ideia a ponto de se tornar o novo papa. E o personagem interpretado por Pryce nos leva ao seu passado, do momento que entro para os Jesuítas em meio a luz da aceitação eclesiástica e às sombras da ditadura argentina, flashbacks de técnica exuberante, por sinal.

Nesse ponto, a importância dos fatos históricos não são aliviados, mantendo a humildade que caracteriza o personagem tanto por uma questão de lógica interna quanto impedir que alguém se distancie emocionalmente da narrativa, pois no momento certo é isso que determinará a eficácia do filme. Novamente, é notório que o roteiro anda na ponta dos pés por algum dos escândalos que a Igreja Católica passou, e as diferenças dos dois protagonistas, explora-se a personalidade deles, Jorge, o argentino é descontraído, brincalhão, alegre enquanto Joseph, o alemão é sério, sisudo, conservador. Suas diferenças não os tornam inimigos, e é agradável de ver o respeito que eles tem um pelo outro, em tempos tão terríveis como esses que vivemos.

 

O ritmo da direção do brasileiro Fernando Meireles estabelece essas características para o público, não procurando tensões desnecessárias, concentrando-se em ilustrar a história, mas nunca permitindo que a encenação tenha precedência sobre a interpretação. Frente aos dois atores, Pryce tem mais facilidade em desenvolver o caráter mais empático, mas Hopkins supera com os traços fortes de Ratzinger, ultrapassando os pontos negativos do

No final, podemos analisar que Dois Papas é um ótimo filme, com uma proposta curiosa, que é aprimorada pelas grandes interpretações de Hopkins e Pryce. Um filme para agradar o público, não para causar, bem musicado, com um humor prazeroso que humaniza em muito a narrativa do que se apresenta no título.

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