Critica | Chacrinha, O Velho Guerreiro

Vai para o trono ou não vai?? Terezinha, uhuu!!

Houve um tempo em que não havia internet. Não haviam Redes Sociais, Facebook, Instagram, Twitter, Netflix, Tv a Cabo. Mas havia a televisão. Ela era a alegria das famílias. O ópio, o lazer, o sonho. Também não existia The Voice, American Idol X Factor, mas existiam calouros. E existia ali o precursor de tudo isso: Chacrinha.

Mas como explicar para a geração que hoje consome cinema, quem foi este personagem?

É triste você ir a um cinema num sábado a tarde e encontrar somente 8 pessoas na sessão. Principalmente quando o filme começa, te pega pela mão e te leva para uma grande viagem.  Como seria legal se houvesse um monte de gente naquela sala para viajar comigo, pois no final, com certeza teriam rolado diversos aplausos.

Neste caso a viagem é através dos dois maiores meios de comunicação do século passado: O Rádio e a Televisão. E quem nos guia por esta viagem é Abelardo Barbosa, mais conhecido como Chacrinha, o Velho Guerreiro.

Dirigido por Andrucha Waddington, que já dirigiu diversos filmes interessantes como Casa de Areia e Eu, Tu, Eles, o filme conta a historia de um dos maiores comunicadores brasileiros e tem como pano de fundo a estória das comunicações no Brasil.

Chacrinha
Chacrinha no rádio

Abelardo Barbosa sonhava em ser locutor. Nordestino, ele aporta no Rio de Janeiro e consegue um emprego em uma rádio de madrugada. A intenção da rádio é tocar musicas calmas para que os ouvintes descansem, mas Abelardo quer mais é que elas fiquem acordadas, e ele literalmente faz tanto barulho, que seu programa passa a ser imitado, e isso vem como um salto para que ele vá para uma radio maior e consiga um programa de radio ao vivo com auditório. Surge ali o seu “personagem”: Chacrinha. Logo até este auditório da rádio fica pequeno para ele, que acaba indo para o novo meio de comunicação que parece ser muito promissor: A televisão.

“Você quer mesmo ir para a televisão? Mas será que isso não será passageiro?” – frase de Osvaldo, amigo de Abelardo que lhe arrumou seu primeiro emprego na Radio Fluminense.

A estória de Chacrinha se mistura a historia das comunicações no Brasil graças a um ótimo roteiro e direção de arte perfeita. O roteiro é tão inteligente que sem ser descritivo, vamos percebendo a passagem do artista do Radio para a Televisão e o nascimento das redes de televisão. O roteiro, ainda nos mostra de onde veio o nome Chacrinha, a criação dos bordões, de onde veio a Terezinha,  o motivo das roupas espalhafatosas, a criação das Chacretes e até do bacalhau jogado na plateia, e tudo através de imagens, sem ser simplesmente expositivo.

Chacrinha
Chacrinha na Televisão

O personagem Chacrinha também é sensacional. Muitas vezes arrogante, foi casado a vida inteira com a mesma mulher, mas era um workaholic que deixou a família de lado em prol de sua carreira, mas era também um ser humano totalmente protetor com aqueles que o cercavam, como suas Chacretes e Elke Maravilha, que aparece aqui representada pela modelo Gianne Albertoni.

Chacriinha
Chacrinha com Elke Maravilha

Entra ai outro ponto extremamente importante da produção, que faz com que nos afeiçoemos com aquele personagem:  a escolha perfeita dos dois atores que representam o Chacrinha. Eduardo Sterblitch faz Abelardo Barbosa jovem. Sterblitch é humorista e imitador, e usa este talento para recriar o Abelardo Barbosa sonhador que chega ao Rio e quer fazer sucesso. É incrível o que ele consegue fazer, levando em conta que ele não assistia o Chacrinha, já que nasceu em 1987, um ano antes do Chacrinha morrer. Mas seguindo o filme, ele passa o bastão para Stepan Nercessian e ai a situação já beira a incorporação de uma entidade, pois o que vemos ali é o verdadeiro Chacrinha em um trabalho de interpretação sensacional, que vai desde a voz, passando pelo gestual até a maneira de andar. Stepan Nercessian encontrou o papel de sua vida.

Para quem viveu aqueles anos 80, é impossível não se emocionar com a nostalgia trazida pelo filme. Odair José, Clara Nunes, Sidney Magal estão ali.  Mas para quem não viveu aquela época também é um filme necessário, pois Chacrinha era um personagem extremamente irreverente e sem preconceitos. Ele só queria divertir seu publico, por mais trash que fossem suas atitudes. Hoje não existe mais lugar para aquele tipo de irreverencia em nenhum meio de comunicação.

O filme me fez pensar qual seria o papel de um Chacrinha nos dias de hoje? Seria um Youtuber famoso como um Whindersson Nunes ou teria sido abolido pelo politicamente correto?

Alguns críticos acharam que o filme é uma cinebiografia chapa branca, pois queriam coisas mais polêmicas. Chacrinha era tão ferrenho a seus princípios que passou por todas as redes de TV existentes na época. Se alguém era contra sua ideia ou se metia na criação do seu programa, ele simplesmente ia embora. O filme mostra isso muito bem, mas sem grandes polemicas. Para mim foi na medida certa. Sai do filme de alma lavada e certo de que hoje nosso mundo está muito mais careta.

Eis aqui um ótimo exemplar do cinema nacional, e é uma pena que o publico não esteja aberto a prestigia-lo, pois o filme é uma delicia.

Parafraseando Chacrinha, infelizmente muitos pensam que filme brasileiro merece somente um troféu abacaxi. Este aqui inverte todos os estereótipos e vai para o trono sem ressalvas.

Chacrinha
Stepan Nercessian e seu Chacrinha

Bom saber que temos muitas historias para contar, e que também temos bons contadores de historias.

Bom filme. Prestigiem!

3 COMENTÁRIOS

  1. Me deixou com vontade enorme de assistir !! Espero que incentive a muitos e que as salas fiquem cheias !! Amei a forma como apresentou o filme ! Parabéns !!

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