Crítica | Bacurau

O novo filme do diretor Kleber Mendonça Filho( Diretor de Aquarius 2016, O Som ao Redor 2012) e Juliano Dornelles é declaradamente forte, político e verdadeiro em suas denuncias e nuances. Com atuações brilhantes, roteiro complexo e um cenário que foge do convencional e de beleza duvidosa o filme tem a violência de Quentin Tarantino, a crueza de Claudio Assis e a importância do cinema social de Anna Muylaert.

Bacurau poderia ser simplesmente só mais um filme do diretor, para entender  tudo que se passa entre linhas nesse trabalho, seria preciso ao menos ver o filme umas três vezes. Os personagens de uma cidade ao fim do mundo, de uma cidade esquecida e que já não se encontra mais no mapa.

Quando pensei no novo filme do Kleber a primeira coisa a qual me veio a cabeça foi: ‘’Será que teremos uma trilha sonora tão perfeita quanto no filme Aquarius?.’’ Parece que Kleber escutou meus pensamentos e minhas suplicas, o filme começa com a canção de Caetano Veloso ”Não Identificado” interpretada docemente por Gal Costa, o filme também contou com canção de Sérgio Ricardo ”Bichos da Noite”, e o que dizer da trilha de suspense de John Carpenter ”Night” e da canção final de Geraldo Vandré ”Requiem Para Matraga”? O cinema de Kleber é poesia, musica e coragem.

E se acaso você pergunte o motivo de tanta crueza em cenas de violências eu lhe responderia que o sistema é cruel. A mensagem que Kleber talvez tenha tentado passar ela é nos entregue através de enigmas ao inicio e de clareza a partir da segunda parte do filme.

Kleber Mendonça nos entrega um retrato do Brasil atual, um Brasil que seria melhor traduzido através da canção de Aldir Blanc ”Quarelas do Brasil” que já cantava Elis Regina:

‘’ O Brasil não conhece o Brasil, o Brasil nunca foi ao Brazil’’.

No filme através da mistura de gêneros como faroeste,suspense e ficção cientifica conseguimos compreender o desprezo pela nossa própria cultura, a compra do discurso de armamento e da paixão por uma guerra e armas em nome de ‘’Deus’’ e suas grandes conseqüências.

O desprezo do governo por pessoas de castas inferiores, um prefeito negligente, que não se mantém atento nem ao atendimento básico que é água para aquele povo. Temos um povo que é unido e que procura cuidar da cidade e de suas historias.

O descaso com a educação, a falta de saúde de qualidade e as migalhas que recebemos do governo é bastante claro no filme. Esteticamente falando o filme se confunde com o cinema Trash, porem sua beleza se mostra na triste mensagem que se beira a realidade.

O que dizer dos personagens? Ou até mesmo da entrega de cada ator/atriz?

Lunga (Silvero Pereira) é o retrato da força e da resistência marginalizada e esquecida, Teresa (Bárbara Colen) representa a força e a esperança de um povo, talvez seria melhor dizer que Teresa é a porta voz da cultura e da geração de Bacurau.

Michael (Udo Kier) é o representante da força fascista, de um egoísmo e de uma violência banal, Domingas (Sônia Braga) ainda que suas aparições sejam pequenas é essa personagem que rouba a cena com sua coragem, sua força, Domingas não tem medo de nada a impressão que fica é que ela já venceu coisas piores ou que não tem nada a perder.

Só teria um pedido mesmo, por gentileza tragam um Oscar pra Sonia Braga ou melhor todos os prêmios possível!

A única coisa a qual eu teria a questionar realmente ao filme é sua pouca distribuição em salas de cinemas. Esse filme é muito maravilhoso pra ser tão pouco distribuído, para poder ver o filme tive que ir ao centro da cidade já que no bairro o filme não tava sendo exibido.

Como filme mesmo deixa claro temos que nos apaixonar e conhecer melhor nossa história, Bacurau é a historia de um povo que tem passado momentos sociais e políticos bastante conturbado, ou seja, nada diferente da realidade.

Então pra quê ceder tão pouca visibilidade a esse filme? Não pode ser possível apenas ver um filme como esse somente se você atravessar uma cidade a ônibus e ainda um metrô, fazendo uma viagem de 2 horas.

Finalizo dizendo a todos mais uma vez a importância desse filme e pedindo que todos assistam com a cabeça aberta, atento a pequenas nuances, convicto que de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles vocês podem sempre esperar algo belo e importante.

E com a pergunta que não cala: ‘’Você quer viver ou morrer?’’.

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