Crítica | Adú

Ouça o que vou lhe dizer, ou leia o que vou lhe escrever: Você precisa assistir Adu, o novo filme espanhol que estreou na Netflix esta semana.

E se você acha que tem problemas, prepare-se para sair de sua zona de conforto e ser jogado em um mundo triste e cruel.

E esteja aberto para ter uma aula de historia mundial atual, através de um filme com imagens belíssimas e sem nenhuma pieguice.

Adu, belo filme espanhol na Netflix
Adu, belo filme espanhol na Netflix

Adu é um filme que foi feito para o cinema, e devido à pandemia encontrou seu espaço na Netflix.

Um dos pontos diferentes e atrativo nesta obra, é que o filme passa-se todo na África, mas Adu é um filme espanhol, falado em espanhol, inglês e francês, o que o torna ainda mais interessante, e sendo assim acho aconselhável ser visto com legenda mesmo, pois faz parte da experiência.

No filme, o diretor espanhol Salvador Calvo, nos traz três historias passadas na África e que vão se cruzando em pequenos pontos, de maneiras extremamente orgânicas.

A primeira história passa-se em Melilha, um território espanhol no norte da África, onde existe uma cerca de segurança separando este local do Marrocos. Como se fosse um pequeno pedaço da Europa dentro da África.

Numa noite, um grupo de refugiados de diversas partes da África tenta pular esta cerca, e numa cena inicial extremamente chocante, vemos diversos imigrantes presos nos arames farpados deste local.

É quando chegam três policiais espanhóis cuja função é impedir que o território seja invadido, mas que ao ver a cena , tentam ajudar os refugiados,  porém um deles acaba matando um destes imigrantes.

Em tempos de internet, câmeras e direitos humanos, logo os três policiais passam a ser julgados pelo acontecimento, e um deles, Mateo (Alvaro Cervantes), passa a ser consumido pela culpa pelo acontecido, pois investiga a vida do imigrante e passa a ver ali um homem real com um passado e um sonho, mas que teve um fim trágico.

A outra historia é a de Gonzalo, um homem branco espanhol que possui uma ONG que tenta evitar a caça de elefantes nos Camarões.

Em pleno século XXI ainda existem pessoas que matam os enormes elefantes simplesmente para retirar o marfim.

Este ativista é Luis Tosar, que fez o bom Quem com Ferro Fere, também em cartaz na Netflix.

Aqui, como lhe dizem muitas vezes, ele se preocupa mais com os elefantes do que com as pessoas, e após arrumar diversas desavenças no Parque Nacional de Camarões onde trabalha, fazendo com que seu visto de trabalho no país seja cancelado, ainda precisa receber sua filha (Anna Castillo) que se envolveu com drogas em Madri e está vindo passar uma temporada com ele na África.

Adu e Ali presenciando a caça de elefantes
Adu e Ali presenciando a caça de elefantes

E é no momento de uma destas caçadas ilegais de elefantes que conhecemos a terceira historia do filme, onde o pequeno Adu e sua irmã estão andando de bicicleta na floresta quando testemunham homens de sua aldeia matando um elefante, e passam a ser perseguidos por isso, tendo que fugir de sua aldeia em busca de seu pai que acreditam estar na Espanha.

Tecnicamente o filme é perfeito.

Uma linda fotografia que traz cenas incríveis da África, principalmente nas cenas que se passam nas aldeias. Fico imaginando a dificuldade de se encontrar as locações deste filme, pois certas cenas são de encher os olhos.

O pequeno Adu viajando pela Africa
O pequeno Adu viajando pela Africa

Mas, além disso, a fotografia muitas vezes consegue encontrar beleza na miséria existente na África também, mas sem tirar o impacto daquela realidade. Ali não existe glamour. Existe dor.

As cenas de Adu com seu short azul e sua irmã com camiseta vermelha e colar colorido no meio do verde da selva africana. Ou Adu e sua pele negra deitado na praia sobre pedras brancas. Ou Massar em cima da montanha olhando o mar do Marrocos que promete uma salvação.  São cenas muito bem pensadas.

Os irmãos fugindo
Os irmãos fugindo

Mas o filme também tem cenas extremamente tensas, como a do avião ou a da boia no mar, que com certeza deixam o espectador próximo ao desespero, ou mesmo a cena de Massar no estacionamento dos caminhões, que trazem um aperto sincero ao coração.

Porém, em minha opinião, além de tudo isso, o filme ainda consegue nos fazer pensar em suas três histórias, e as reflexões de uma historia impactam profundamente na outra história que estamos assistindo, o que pra mim mostra a perfeição deste roteiro, que consegue discutir diversos problemas, como abandono infantil, caça ilegal, direitos humanos, prostituição infantil, drogas, amor parental, imigração e principalmente a busca por uma vida melhor.

A historia mais forte com certeza, por isso até o nome do filme, é a do sensacional Adu, o garoto de 7 anos Moustapha Oumaro, que não sabia nem o que era cinema até ser encontrado pelo diretor e sua diretora de casting em uma aldeia em Benin.

Moustapha Oumaro, encontrado em uma aldeia, é Adu
Moustapha Oumaro, encontrado em uma aldeia, é Adu

Adu e sua irmã vão parar na mão de traficantes de pessoas.  Estes foram pagos para lhes levar até o Marrocos, mas a historia toma outro rumo muito mais complexo.

Através de historia de Adu passamos a enxergar o enorme problema na Imigração ilegal mundial. E esteja preparado para se emocionar, pois o roteiro deste filme não poupa o espectador, sabendo como deixar-nos aflitos.

Mas e o outro lado da migração?

Através da historia dos policiais, vemos que aqueles que estão atrás do muro da Melilha não querem que todas aquelas pessoas invadam seu espaço, mas será que sabem o porquê  estas pessoas  preferem  se sujeitar a ficar presos em arames farpados ao invés de voltarem para suas próprias casas?

Mas como diz um dos policiais, o quanto estamos ajudando a África abrindo nossas portas para que todos entrem? Se médicos, professores, enfermeiros, etc saírem de lá, quem irá ficar para tentar melhorar a África, para que isso não seja mais necessário? É um circulo vicioso de miséria difícil de ser estancado.

Ali, a irmã de Adu na bela cena da ponte
Ali, a irmã de Adu na bela cena da ponte

E por fim, temos ainda a filha do ativista, que passou a vida inteira sentindo-se rejeitada pelo pai e segue buscando atenção fazendo diversas coisas erradas.

Mas como aceitar que aquela menina mimada tenha problemas quando comparada com a vida de Adu?

E vem ai mais um ponto de reflexão trazido pelo filme: podemos culpa-la por desconhecer um mundo que até antes de ver este filme a gente também não conhecia?

Vi algumas criticas achando o filme mediano, por contar a historia sobre o ponto de vista de brancos, principalmente pelo desfecho dos policias e por certos momentos de arrogância do ativista, mas para mim Adu é um filmaço da Netflix que merece ser visto e comentado.

Para mim o filme não escolheu lados. Ele simplesmente nos expõe uma realidade.

Os amigos Massar (Adam Nourou) e Adu (Moustapha Oumarou)
Os amigos Massar (Adam Nourou) e Adu (Moustapha Oumarou)

E esta realidade machuca e a mim me deixou de mãos atadas. Existe algo que eu possa fazer para ajudar?

Ouso dizer que é um dos maiores acertos do streaming até hoje, e tenho certeza que fará muito sucesso, assim como O Menino que Descobriu o Vento, apesar de ter uma temática muito mais forte.

Curiosidade: O diretor Salvador Calvo ouviu uma história sobre uma mulher que vivia com um garoto em um centro de refugiados. Ao receber um dinheiro, ela decidiu comprar lingeries de luxo ao invés de alimento para a criança, e logo os responsáveis pela ajuda humanitária ao centro de refugiados viram que a criança a chamava de Madame, e não de mãe. Logo perceberam que eles não eram parentes, e a mulher informou que não estava ali buscando uma vida melhor para ela e para o “filho”, mas sim procurando compradores para os órgãos da criança que ainda se encontrava viva.  Ao ouvir esta história, o diretor resolveu fazer um filme que contasse a história dos imigrantes refugiados.

E você, já viu este filme?

O que achou?

Concorda  com  minha opinião ou acha que o filme pecou em sua versão “white saviour” da historia?

Deixe sua opinião nos comentários, pois acho que este é um filme que vale muito ser visto e discutido.

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