Crítica | A Despedida (1983)

Sinopse: Matyora é uma pequena vila na Sibéria em uma bela ilha com o mesmo nome. A existência da aldeia está ameaçada de inundação pela construção de uma barragem. Esta é a história dos habitantes de Matyora e sua despedida de sua terra natal.

Voltando com resenhas de produções cinematográficas. Sucessos de antes. Algumas nem tão conhecidas, outras que não foram um sucesso de bilheteria. Filmes que merecem um olhar pela representatividade artística. No caso, tratamos hoje do filme russo A Despedida (Proshchanie, em russo eFarewell, em inglês), lançado em 1983. Uma produção da antiga União Soviética que opera poderosamente a metáfora.

Um pouco de história

O diretor Elem Klimov, na época que perdeu sua espôsa.

O cineasta Elem Klimov (1933-2003) de Vá e Veja (1985) em 1976 lia o romance Adeus à Matyora, do escritor Valentin Rasputin (1937–2015), enquanto esperava o seu Agonia Rasputim (1975) ser liberado pela censura do Glavlit. Seduzido pela história, Klimov instinga sua esposa a filmar a adaptação; Larissa Chepitko (1938–1979) sensibilizada com a narrativa e começou a se preparar para as filmagens em 1979.

Infelizmente, a tragédia bate o casal, o carro que transportava a equipe de Chepitko sofre um acidente fatal.  A diretora de 41 anos morreu instantaneamente, encerrando sua carreira em ascensão. Tinha filmado apenas algumas cenas, cuja produção é interrompida imediatamente. A perda leva o diretor ao desespero, no entanto, consegue superar gradualmente o seu luto e opta por terminar o longa-metragem iniciado por sua mulher, para lhe prestar homenagem. Assim, a produção realmente começou em 1981, e apresentado ao público em 1983.

Análise

A Despedida é um bom exemplar do “estilo russo” de fazer cinema, pois os elementos artísticos são arranjados de uma maneira que denuncia uma visão de mundo bastante particular. Klimov tendo renovado toda a equipe técnica, tentou realizar um amalgama entre o seu estilo, mais visceral, e o de Chepitko, claramente mais elegíaco e místico.

A cena inicial mostra uma embarcação chegando a uma ilha enevoada. A ambientação sombria é sentida neste primeiros momentos e rapidamente entendemos que a ilha em questão está destinada a desaparecer. De fato, as autoridades decidiram construir uma grande barragem que fornecerá energia e trabalho a toda a região. Assim, Klimov se opõe ao progresso tecnológico, que denuncia como destrutivo frente a eterna Rússia, a  Rússia das pequenas aldeias, das festas coletivas e das babushkas.

E, de fato, Klimov se encaixa aqui em uma tradição russa. No caso, as histórias centradas em torno de uma velha que representa a sabedoria ancestral. Aqui encarnada pela grande dama do teatro bielorrusso Stefaniya Stanyuta (1905–2000), aos 78 anos, com um carisma imediato. No coração desta aldeia remota, representa uma forma de estabilidade, como uma âncora para toda a comunidade. Infelizmente, é seu próprio filho, o capataz interpretado por Lev Durov (1931–2015), que está encarregado de desmantelar a aldeia, evacuar os animais e os habitantes e incendiar todas as casas. Daí surge um conflito que é tanto familiar quanto interno, dividido entre sua lealdade ao governo soviético e a de sua mãe e sua família.

Uma obra poderosamente metafórica

A atmosfera criada pela obra literária é sentida, já que representa e celebra a harmonia entre a vida no campo contra o caos da urbanidade moderna. Cada personagem oscilará assim entre dois pólos: o desejo de se integrar numa modernidade que possa trazer bem-estar material, mas também a sensação de abandono está ali, pela perda da parte do que representa a cada um aquela terra destinada a ser engolida.

A metáfora é óbvia e o viés está claramente do lado dos antigos e das tradições. E o filme aborda a aldeia como uma entidade viva, onde seus moradores tentam o melhor que podem em sua vida difícil encontrar uma forma de solidariedade através de suas canções e suas festas.

Os sovietes enviados pelo governo central, a brigada (Mikhail Bychkov (1950-2022), Igor Bezyayev (1922–1993), comandada por Vorontzov (Alexei Petrenko, (1938–2017), não são retratados como vilões da história, mas parte de um progresso que não deveria ser forçado. Klimov aborda a máxima que existem apenas pessoas convivendo ou enfrentando o mundo que avança.

A Despedida nos oferece belas tomadas e alguns momentos verdadeiramente esplêndidos. As cenas de dança (que misturam música tradicional e moderna), as sequências líricas (como a cena do banho coletivo); o olhar para a natureza exuberante, e a destruição das casas pelas chamas são exemplos desse trabalho fotográfico sob a lente de Aleksei Rodionov (1947) e a direção de Klimov.

Um fim que toca o sublime

No entanto, é preciso sobretudo esperar os últimos vinte minutos para que A Despedida nos toque de uma maneira única. De fato, o diretor vai de um naturalismo místico a um final abraçando uma fantasia metafórica. Através do jogo de uma montagem que alterna quanto à temporalidade dos fatos, nos imerge com seus personagens em um segundo estado e intermediário entre a vida e a morte.

Enquanto em um barco envolto em névoa, os protagonistas que chegaram a um acordo com a modernidade estão condenados a vagar no limbo infinito. Ao mesmo tempo, vemos a velha babushka e os poucos irredutíveis como fosse aqueles que realmente estavam vivos; como se congelados na eternidade prometida a eles como representantes de uma Rússia imutável.

Também podemos ver nesses planos finais a certeza que Klimov tem de encontrar um dia  sua querida Larissa, que desapareceu cedo demais. Esse misticismo encanta e nos emerge num sentimento de pura poesia. Um excelente retratos da vida cotidiana histórica russa e o choque do mundo soviético moderno com esse antigo modo de vida.

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