Rebobinando: Três homens em conflito

O western, ou faroeste, ou filme de bangue-bangue americano, é com certeza um dos gêneros mais cultuados da história do cinema. Porém, muito do que a cultura pop entende como valores absolutos para estes filmes só afloraram de fato quando os italianos começaram a fazer suas versões, o western spaghetti. Trilha de Ennio Morricone que ressalta sons do deserto, como o grito de chacais e vozes meio indígenas, a figura dos homens brutos e feios, mas com um senso de moral acima de qualquer suspeita, os planos longos antes de duelos feitos para criar suspense… todos estes fatores o diretor Sergio Leone usou para reinventar e, por que não, estabelecer o estilo. Tudo isso podemos ver na trilogia dos dólares.

the good, the bad, the ugly

É no terceiro filme desta trilogia, entretanto que o western spaghetti chegou ao ápice, assim como o americano havia alcançado com Sete Homens e um Destino. E podemos falar do capítulo final da saga sem medo de deixar nada para traz porque neste caso a continuação é mais espiritual do que uma continuação de fato. Clint Eastwood, que hoje é um dos diretores com o trabalho mais emocional de Hollywood acumulando longas como Gran Torino e Menina de Ouro, era aqui a figura máxima do mocinho assim como tínhamos os estereótipos do vilão feio e metódico, do mexicano oportunista, das mulheres que eram usadas pelos homens e mesmo assim se apaixonavam, do xerife que não hesitavam em pagar para que outros fizessem seu trabalho… todos estes estereótipos existem e são estabelecidos já no título original “The good, The bad and The Ugly”. Mas por que Leone decidiu por esta abordagem em seu filme?

 

Hitchcock disse certa vez que existe duas formas de criar suspense: Na primeira o expectador e o personagem são apresentados ao mesmo tempo a um problema. Na segunda o expectador já conhece o problema, mas o personagem não. Leone usa de arquétipos e molda sua narrativa para que quem esteja assistindo saiba dos problemas que Clint (o Homem sem nome, loirinho, Blondie ou seja lá como você o chame) irá viver. Seja mostrando longos planos abertos do deserto, seja gastando quase 1 hora e meia de um filme com 3 horas para desenvolver as personalidades e objetivos dos três homens do título. Desde o princípio você sabe que aquele três irão se enfrentar e desde o começo sabemos que eles são muito bons na arte de matar. Mas há um longo caminho até que este encontro ocorra.

Infelizmente hoje fica cada vez mais raros filmes que aceitem gastar cenas mais introspectivas de seus personagens para mostrar um pouco mais quem eles são. E isso não é culpa dos roteiristas ou diretores, mas uma vez que as edições começaram a ficar mais frenéticas e dinâmicas, aliado à facilidade de distração do expectador com seus celulares durante a exibição de um longa, é fácil entender essas escolhas. Mas é sempre um bem-vindo estudo cinematográfico pegar um filme como estes, que com certeza na época devia ser considerado incrivelmente ágil, e analisa-lo comparando com o cinema de hoje.

 

Sendo um filme totalmente pensado para entregar suas cenas épicas apenas no final, e dada a forma como Leone leva o filme sempre temos aquela expectativa pelo duelo final, é um bangue-bangue afinal. Mas antes disso há uma das mais emblemáticas cenas da história do cinema: Quando ao som de L’estasis du Aur, obra prima de Morricone, Tuco, o feio da trama, sai correndo procurando por uma cova onde se encontra o ouro que todos no filme procuravam. A cena é incrivelmente bem gravada, editada, e casa perfeitamente com a música. Acho que foi Jurandir Filho do Cinema com Rapadura que disse certa vez que aquela cena era pra ele a síntese de o que é cinema. Eu ainda prefiro o segmento “A Aurora do Homem” de 2001-Uma Odisséia no Espaço, mas ambos são excelentes representantes deste cinema pós-Cidadão Kane, onde todos os aspectos do filme (roteiro, Direção, Fotografia, Edição, Atuação e Trilha) devem dialogar para maximizar o efeito que uma cena tem sobre aqueles que o assistem. Como dito antes, uma excelente aula de cinema.

Três Homens em Conflito é daquele tipo de filme que define caráter. Ao assisti-lo é impossível que você não se apegue para um dos três personagens principais, que você analise sua moral e seus objetivos e trace um paralelo com aqueles tipos que habitavam o oeste americano durante a expansão e a busca pelo ouro. Mais do que um simples retrato da época retratada/em que foi feita, O bom, O Mal e O Feio são o retrato de uma linha artística das mais importantes do cinema.

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