Rebobinando: Os Intocáveis

“Se eu abrir esta porta, não tem mais volta”

 

Um homem está sentado sendo barbeado. A câmera grava a cena de vários pontos distintos, mas sempre chama a atenção ao tom avermelhado da parede e do tapete onde a cena se passa. O homem está sendo entrevistado e sua honra posta a prova, mas ninguém ali leva a sério. Estamos diante de um demônio que controla todos aquelas almas presentes. Em outro lado da cidade, Vemos outro homem em sua casa. Seguimos seus passos em suas costas demonstrando uma casa que, se não for humilde, é no mínimo comum. Poucas cores são mostradas e o local está aparentemente vazio, até que encontramos finalmente sua mulher. Ainda assim, fica na cabeça a impressão que qualquer poderia ter apunhalado aquele cara pelas costas. É assim, em uma aula de direção, que Brian de Palma apresenta seu herói e seu vilão em Os Intocáveis. Uma aula de cinema que não acaba ali.

Os intocaveis poster

No filme, seguimos a caçada do homem comum, o policial Elliot Ness (Kevin Costner), em seus esforços para conseguir colocar atrás da grades o chefão do crime organizado e contrabandista de destilados durante a Lei Seca Al Capone (Robert de Niro). Em sua cruzada, Ness acaba se unindo a outros três policiais e formando uma força policial conhecida como Os Intocáveis, pois eles seriam incorruptíveis em tempos que a policia inteira só agia com consentimento dos bandidos, uma realidade que até hoje se faz presente.

 

Brian de Palma é um diretor que tem marcas registradas muito particulares: A sua câmera Voyeur consegue captar diálogos como se estivéssemos presentes na cena. Um roteiro com boas falas se fazia então indispensável, unido com uma atuação no mínimo convincente. O que vemos aqui no entanto é um trabalho absurdo de todos os atores. Costner e de Niro conseguem fazer todas as suas ações e palavras soarem saídas de um documentário, Andy Garcia e Charles Smith dão personalidade e charme aos seus personagens e Sean Connery destrói. O eterno 007 entrega aqui uma atuação daquelas que merecem ser lembradas eternamente no papel do policial experiente tentando demonstrar aos jovens que trabalham com ele como o mundo realmente funciona. Méritos também ao diretor que deu a ele tempo de tela suficiente para que ele despejasse todo o seu talento e virasse o meu policial favorita de toda a história do cinema.

Os intocáveis al capone

Outra marca registrada de de Palma é quanto ao uso de cores em seus filmes e aqui começa um estudo do legado que Os Intocáveis deixou. Sua fotografia em diversos momentos se aproxima muito de um tom pastel, dando o ar noir para  a película e ambientando bem o filme em seu contexto histórico. A partir daí todos os filmes que envolvem máfia também vem quase que monocromático, com usos esporádicos de algumas cores (É o caso de Inimigos Íntimos, Estrada para a Perdição e tantos outros). Você pode argumentar que Francis Ford Coppola já havia dado esta tonalidade em O Poderoso Chefão, mas mesmo neste filme existe cenas em que a palheta simplesmente explode na tela, com cores fortes em tons de laranja e vermelho que complementam o roteiro. Foi de Palma que fez este Modus Operandis se tornar um padrão absoluto do gênero.

 

Sendo um filme policial esperasse longas cenas de investigação/diálogos, e como dito antes (e como você sabe, querido leitor. Você é inteligente e tenho certeza que já assistiu este clássico) eles funcionam de maneira cirúrgica, mas um ponto que também eleva este filme é o fato de seu ritmo quase nunca cair. Há sempre um elemento de tensão em tela, seja um tiroteio, uma ameaça ou um diálogo mais ríspido. Os momentos de descanso em contra-partida, são intimistas e belos. Sua edição desta forma consegue fazer com que o filme fique atual ainda hoje. Claro, há cenas em que os efeitos visuais mostram-se datados como na famosa releitura da cena do carrinho de bebê adaptada de O Encouraçado Potemkin, mas isso passa.

 

O sub-gênero filme de máfia talvez seja o mais espinhoso de todos os sub-gêneros em Hollywood. Não propriamente por serem filmes difíceis de serem feitos e de fazer com que o público se interesse, mas gênios passaram por ali e deixaram pesadas pegadas marcando território. Afinal, não se leva uma faca para um tiroteio certo?

os intocáveis

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